Livres das amarras

Com seus novos lançamentos, Teresa Cristina e Zélia Duncan conduzem suas trajetórias de forma que seria provavelmente inviável quando as gravadoras multinacionais ditavam todas as regras da indústria musical

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Com seus novos lançamentos, Teresa Cristina e Zélia Duncan conduzem suas trajetórias de forma que seria provavelmente inviável quando as gravadoras multinacionais ditavam todas as regras da indústria musical

Por Pedro Alexandre Sanches

A matéria abaixo faz parte da edição 119 de Fórum, compre aqui.

Teresa Cristina, uma cantora (negra) de samba, dedica um disco inteiro ao repertório romântico e iê-iê-iê do “rei” (branco) Roberto Carlos. Zélia Duncan, intérprete e compositora (branca) de MPB, bluespop etc., devota um álbum todo à obra underground do autor (negro) de jazz-blues-soul-rock’n’roll Itamar Assumpção.

A história do álbum começou com um convite d’Os Outros para que Teresa Cristina fizesse uma participação em seu show

Tais vaivéns entre intérpretes e repertórios podem soar corriqueiros no campo da música popular, pródigo em encontros e desencontros, homenagens e vinganças, panelas e pressões. Mas há algo de peculiar nesses dois cruzamentos, que diz respeito diretamente aos tempos de hoje, de agora, de 2013. Nada é tão preto-no-branco como a descrição simplificada no primeiro parágrafo, mas Teresa e Zélia, cada uma à sua maneira, conduzem suas trajetórias hoje apoiadas em decisões que seriam provavelmente inviáveis quando as gravadoras multinacionais ditavam todas as regras da indústria musical dita nacional.

Em vida, o paulista Itamar sempre foi um compositor “maldito” (entenda-se, atrás do rótulo, uma fórmula de exclusão do seio da tradicional MPB de chicos e caetanos). Não deixou de sê-lo depois de morto, à parte eventuais regravações de Ney Matogrosso e da própria Zélia. Quando gravadoras como Warner e Universal eram hegemônicas e Zélia pertencia a seus elencos, ela dificilmente conseguiria emplacar este atual Zélia Duncan Canta Itamar Assumpção – Tudo Esclarecido. O disco veio à luz, afinal, editado sob a etiqueta Warner, mas bancado pelo selo Duncan Discos, da artista, numa fórmula de parceria que ninguém conceberia nos anos pré-falimentares, em que cantores como o padre Marcelo Rossi vendiam 3 milhões de cópias (a tiragem inicial de Tudo Esclarecido é de 7,5 mil exemplares).

Se Zélia (hoje com 48 anos) grava discos desde 1990, Teresa chegou a uma indústria fonográfica já em fase de derrocada, via pirataria, downloads e inabilidade intrínseca. Lançou seu primeiro trabalho em 2002, pelo selo independente Deck, de propriedade de um ex-diretor de multinacionais, João Augusto. Já andou pela EMI, mas foi novamente com a Deck que viabilizou Teresa Cristina + Os Outros = Roberto Carlos (tiragem física inicial de 5 mil cópias), gravado com a banda roqueira Os Outros no acompanhamento.

Dificilmente alguém definiria a obra de RC como não comercial, mas este também seria um disco improvável em tempos idos, por outras razões. Na surdina, a indústria multinacional brasileira sempre foi hostil a cantoras negras que quisessem fugir do samba e de suas convenções. Nem no rock, nem no samba a mistura de estações costumava ser bem-vinda pelos patrões, pelos fãs e/ou pelos artistas. Sambista cantava samba, roqueiro gravava rock, sertanejo cantava sertanejo e assim a caravana ia.

Por mais que fusões inúmeras já tenham sido experimentadas pela música popular, não é um terreno limpo de pedregulhos o que Teresa encontra pela frente ao ousar sair dos trilhos. Ela conta que ainda não recebeu comentários dos colegas de samba: “Não sei como reagiram, porque ninguém falou comigo.” Tenta, então, buscar um termômetro indireto, espiando reações públicas disseminadas pelas redes sociais.

O álbum novo de Zélia veio à luz editado sob a etiqueta Warner, mas bancado pelo selo Duncan Discos, da artista, numa fórmula de parceria que ninguém conceberia nos anos pré-falimentares (Gerardo Lazzari)

“Já ouvi de tudo na internet”, descreve. “Vi comentários do tipo ‘essa menina está muito sem foco’, ‘cadê o foco dessa pessoa? Os comentários mais carregados de espanto ou preconceito são na linha ‘ela vai abandonar o samba’, ‘se aproveitou do samba e depois abandonou’, como se o samba precisasse desse viés maternal. Tem um discurso que ninguém assume – ninguém diz ‘eu sou racista’, por exemplo -, que é essa coisa de que só a minha turma é legal, só o que eu faço é que é bom.”

Não deve ser à toa que os termos “racismo” e “preconceito” surjam em sua fala quando Teresa comenta o assunto. Cito o exemplo de Alaíde Costa, que, negra, não encontrou facilidades profissionais ao eleger a bossa nova como forma de expressão em detrimento do samba. “Tem essa ideia que ninguém assume: se é preto e pobre, põe um pandeiro na mão dele”, afirma a artista de 44 anos que se descobriu no samba aos 29, após trajetória de manicure filha de feirante e estudante universitária.

Em entrevistas da época em que estreou com um álbum duplo dedicado exclusivamente à obra de Paulinho da Viola, Teresa contava que na adolescência ignorava o samba, levada pela paixão por discothèque norte-americana. “Se você começa cantando rap, você é rapper. Se começa cantando samba, é sambista”, reflete, deixando subentendida até mesmo uma margem de acaso na identidade forjada por um artista em seu momento de estreia no mercado musical.

“Não penso em termos de voltar ao samba, porque não saí dele. Ainda neste ano, vou fazer um disco só com a obra de Candeia”, avisa o que há no futuro próximo. Mas não é de hoje que Teresa é arredia às amarras de um suposto dever de fidelidade ao samba. Já gravou “Clube da esquina” em duo com um artista negro mais híbrido que ela em termos de estilo musical, Seu Jorge (“Me Deixa em Paz”, por sinal, era um samba de Monsueto até ser regravado como lamento mineiro por Milton Nascimento, em dupla com, veja só, Alaíde Costa). Em 2009, participou de Três Meninas do Brasil, show e álbum em trio com as emepebistas Jussara Silveira e Rita Ribeiro. Conta feliz que está compondo uma canção com o rapper (híbrido) paulistano Criolo. Nesse contexto, Teresa Cristina + Os Outros = Roberto Carlos é uma coroação, uma constatação, uma afirmação.

“Nunca imaginei fazer isso, foi uma surpresa muito grande. Como vou cantar Roberto Carlos, se tenho um regional de samba?”, espanta-se. A história começou com um convite d’Os Outros para que ela fizesse uma participação em seu show. “Eu imaginava uma coisa meio exótica, uma cantora de samba cantar com uma banda de rock, e fui adiando.” Quando o encontro aconteceu, Teresa cantou três músicas, uma dela, uma da banda, e uma terceira recolhida do repertório soul-iê-iê-iê de Roberto, “Do Outro Lado da Cidade” (1969). Regravada com originalidade, em pique de ska jamaicano, essa é uma das faixas de destaque do disco.

O experimento fez Teresa sonhar um show inteiro de repertório jovem guarda, e Os Outros eram a solução para os dilemas samba-rock. “Cantar Roberto Carlos em samba seria o pior castigo que eu poderia dar, todo mundo ia me tacar pedra”, ri. Os arranjos roqueiros inesperados, por vezes jazzificados, são um dos achados do disco, inclusive por não repetirem o que já conhecemos de Roberto ou de Teresa, do samba e do pop-romantismo robertocarlista.

Outro achado é o repertório, que despreza obviedades (não há “Detalhes”, não há “Emoções”) e recoloca em pauta semiobscuridades como “I Love You” e “Como 2 e 2” (1971), “A Janela” (1972), “O Moço Velho” (1973), “O Portão” (1974) ou “Ilegal, Imoral ou Engorda” (1976).

Mas por que Roberto Carlos, senhora cantora de samba? “Me lembro da minha mãe lavando roupa e cantando ‘A Janela’, e eu pequenininha com ela cantando tudo errado. Carrego comigo desde essa época músicas como ‘O Portão’, ‘Meu Pequeno Cachoeiro’. É como se fosse um álbum de família para mim, são as músicas que eu cantava na minha infância.” É um relato prosaico, que caberia a uma imensidão de brasileiros, mas quebra suavemente um paradigma: na vida privada, sambistas cariocas podem gostar (e gostam) de Roberto Carlos, discothèque gringa e rap paulistano, e vice-versa, em quaisquer combinações.

Autodescrita como tímida incorrigível em seus primeiros shows (a ponto de cantar de olhos pregados no chão), Teresa dá conta do ganho trazido por poder reinterpretar Roberto e Erasmo Carlos: “Cantei essas músicas num lugar que o samba não me deu. Foi uma entrega diferente, fez bem para mim. O samba me deixou mais contida, aqui eu pude me jogar mais nos versos.”

Dentro da diferença ela encontrou até mesmo a semelhança, que se faz óbvia quando vemos, no especial natalino de RC em 2012, o “rei” cantar “Meu Lugar” lado a lado com Arlindo Cruz e “As Curvas da Estrada de Santos” em dupla com Seu Jorge. “Os assuntos das músicas do Roberto até acontecem no samba, em que é comum falar de amor daquele jeito ressentido. Cantando Roberto, pude soltar meu veneno de ressentimento”, diverte-se.

Muitas vezes arisco nessa seara, o homenageado não demorou a autorizar as regravações samba-roqueiras de Teresa com Os Outros. “Ele foi um anjo”, a intérprete resume. “Pedi autorização e fiquei de coração apertado, toda trabalhada para não achar ruim se não autorizasse. Rezei muito para que ele entendesse que era uma homenagem. Tive uma crise de choro quando autorizou, foi como ganhar na loteria.” De 24 autorizações solicitadas, Roberto vetou apenas “Detalhes” (1971) e a malfadada “Quero Que Vá Tudo pro Inferno” (1965).

A anuência estranhará apenas a quem não perceba os caminhos indiretos que ligam o samba e Roberto como dois signos de brasilidade exacerbada. O terno branco que Teresa veste na capa do CD pode evocar aquele citado na letra cômica de “I Love You”, mas segundo ela foi alugado numa loja de fantasias de carnaval. “É um terno de malandro, de Zé Pelintra.”

De pouco em pouco, Teresa vai conquistando um direito pelo qual Zélia Duncan batalha há anos e condensou num disco (de samba) denominado Eu Me Transformo em Outras (2004). A artista niteroiense já foi vocalista do retorno dos Mutantes (no lugar de Rita Lee), fez show para o vanguardista paulista Luiz Tatit, cantou Aracy de Almeida, encarna com propriedade o pelintra paulista Itamar Assumpção (“é ele quem abre uma brecha, acende uma mecha no breu”, cantava ele em 1988, na autorreferente “Zé Pelintra”, que Zélia não regravou). Paradoxalmente, atirar-se para longe das próprias identidades pode, por vezes, corresponder a reencontrá-las.

Cite-se como exemplo que, no período imediatamente anterior à criação do show-disco para Roberto, Teresa voltou a morar no subúrbio carioca. “Nasci no subúrbio, depois fui morar no Leblon, em Ipanema. Quando nasceu minha filha (Lorena, hoje com 4 anos), voltei para a Vila da Penha. Quis criar ela aqui, e aqui ela está sendo muito bem criada”, afirma, ao telefone, direto da Vila da Penha. “‘O Portão’ é quase autobiográfico para mim, é o que eu senti ao voltar para cá. ‘Do Outro Lado da Cidade’ também. Estou sempre num lugar sentindo saudade do outro, pegando a avenida Brasil o tempo todo para lá e para cá.”

Como cantava Itamar, Teresa e Zélia gostam de se fazer cavalos desse brasileiríssimo zé-pelintra. Às vezes um tanto preguiçosa, nossa MPB sabe se prestar, quando quer, a mostrar que, ao contrário do que apregoava a indústria musical multinacional, é possível morar ao mesmo tempo aqui e em muitos acolás. O outro lado da cidade às vezes parece longe, mas é logo ali. F




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