Latuff e Tendler: solidários diante da perseguição

Em 29 de março de 2012, houve uma “celebração” no Clube Militar do Rio de Janeiro, dos 48 anos do golpe militar de 1964. Diante disso, a sociedade civil organizada articulou-se para protestar em frente ao local do evento.

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Por Felipe Rousselet

A matéria abaixo faz parte da edição 119 de Fórum, compre aqui.

Em 29 de março de 2012, houve uma “celebração” no Clube Militar do Rio de Janeiro, dos 48 anos do golpe militar de 1964. Diante disso, a sociedade civil organizada articulou-se para protestar em frente ao local do evento.

Na ocasião, ocorreu um tumulto generalizado entre policiais, militares e manifestantes na Avenida Rio Branco, uma das mais importantes vias do Rio de Janeiro. Foi o suficiente para o Clube Militar entrar com uma queixa-crime, na qual o documentarista Silvio Tendler foi acusado de constrangimento ilegal e intimado a prestar depoimento em uma delegacia de polícia.

Tendler, que está há mais de um ano numa cadeira de rodas, no dia do protesto estava em casa se recuperando de uma cirurgia.

A única atitude do documentarista relacionada ao protesto foi a gravação de um vídeo de apoio ao ato. Na época, o cartunista Carlos Latuff, que estava presente no protesto, publicou uma charge em solidariedade a Tendler, gesto que foi retribuído com uma carta de apoio a Latuff quando seu nome foi incluído na lista dos maiores antissemitas do mundo.

Fórum conversou com o documentarista para entender as possíveis semelhanças entre a militância de ambos e a perseguição sofrida por defenderem os ideais com os quais se identificam.

Fórum – O senhor vê semelhanças entre a perseguição sofrida quando foi intimado a depor sobre um protesto no qual não estava presente com a perseguição sofrida por Latuff, quando tentam classificá-lo de antissemita?

Silvio Tendler – Nenhuma. Somos dois militantes pelas liberdades e nos encontramos quase sempre na mesma fronteira. Nos queremos, nos respeitamos, somos solidários um ao outro. Fui vítima da perseguição por parte de militares “apijamados” porque, felizmente, não podem fazer mais nada contra mim.

No caso do Latuff, ele é um militante da causa palestina e, como artista talentoso, sabe bater no fígado dos inimigos da causa. O que fizeram com ele foi mais covarde, classificando-o como mais perigoso que grupos efetivamente nazistas, embaralhando coisas diferentes, antissionismo e antissemitismo. Foi o que me levou a defendê-lo.

Nossas semelhanças terminam aí, e já conversamos sobre isso, eu e o Latuff. Acredito na paz entre judeus e árabes, e defendo a existência do Estado de Israel. Ele considera uma ocupação indevida. Combato o governo de Israel da mesma forma que ele, mas paramos por aqui. Também não concordo com o discurso do Hamas, ele admira.

Fórum – Qual o objetivo dessas organizações que tentam colocar no mesmo patamar o antissemitismo e o antissionismo?

Tendler – Desmoralizar os que lutam pelos direitos dos palestinos. Foi indecente o que fizeram com Latuff, e o nome de Simon Wiesenthal está sendo utilizado indecentemente. Foi um tiro no pé, igual ao que os militares deram quando tentaram me intimidar e só ajudaram a revelar um grande artista, como Latuff, que abandonou o patamar de militante para tornar-se um chargista reconhecido internacionalmente.

Fórum – O desenho e o cinema, assim como outras formas de arte, são mais efetivas para sensibilizar as pessoas para determinadas causas do que, por exemplo, o jornalismo convencional?

Tendler – Não. Todas são formas de expressão válidas. Cada um com seu cada qual. Teu texto é tão importante como a charge do Latuff, como meus filmes. Não existe hierarquia nem graduação. Somos todos combatentes necessários.

Fórum – Latuff diz que a sua inclusão na lista de antissemitas é um sinal de que está pisando nos calos certos. O senhor vê a intimação para depor na ação do Clube Militar da mesma forma?

Tendler – Pisar no calo certo dá um certo prazer [risos]. Não fazemos por provocação, mas como proposta e resposta. Latuff é um grande artista, uma figura doce com um discurso radical. Gosto muito dele e o respeito. F




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