A Cultura pode mudar o Brasil! Meu discurso no encontro programático PSB/REDE

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 “Para se mudar uma realidade, primeiro é preciso sonhar”, foi assim que encerrei minha fala no primeiro encontro programático PSB/REDE. Falei a convite de Eduardo Campos e Marina Silva, sobre o tema “Cultura”, o que é inusitado em construção de programas de governo, o que revela um bom começo para a aliança que estamos construindo. Além de mim, houve 3 outras falas inspiradoras (Luiza Erundina – Política; Guilherme Leal – Empresários; Aspásia Camargo – Academia; e eu – Cultura). Esta minha frase sobre a necessidade de sonhar como condição para mudar a realidade, seguiu o seguinte caminho:

“Além do rio, andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante dos outros, sem se tomarem pelas mãos. E faziam-no bem. Passou-se então além do rio, Diogo Dias, almoxarife que foi de Sacavém, que é homem gracioso e de prazer; e levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se com eles a dançar, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam, e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem, fez-lhes ali, andando no chão, muitas voltas ligeiras e, salto real, de que eles se espantavam e riam e folgavam muito.”

Esta foi a primeira troca simbólica entre europeus e os povos que habitavam esta terra que veio a se chamar Brasil. Está tudo registrado em nossa carta de nascimento, a Carta de Pero Vaz de Caminha. Foi um encontro de paz, amoroso, festivo. Assim os europeus foram recebidos, depois tudo desandou e não é o caso de contar a história. Mas o que nos mostra este registro? Que a Cultura é o cuidado, é o cultivo, o encontro. É a amalgama que junta humanidades, e assim deve ser entendida. Eu sonho em recuperar este encontro. Como podemos fazê-lo? Cuidando de nossa gente, respeitando o povo, liberando sua potência, seu afeto e inventividade. E só a Cultura e Arte podem realizar isso em toda sua potencialidade. E podemos fazer isso a partir de um programa de governo que perceba a Cultura como o cimento intangível que liga todos os programas e as ações de um governo. Não há como pensar em Sustentabilidade sem pensar em Cultura. Não há como realizar transformações profundas sem a presença da Cultura.

E podemos fazer isso já, em nosso programa de governo, pensado não como uma obrigação eleitoral ou para cumprir um ciclo de quatro anos, mas como uma agenda de nação. Primeira medida: Transferir o combate ao analfabetismo do MEC para o Ministério da Cultura. O combate ao analfabetismo foi o mais retumbante fracasso em política social na última década. Na América do Sul, apenas o Paraguai tem maior porcentagem de analfabetos que o Brasil e na última década, Venezuela, Equador e Bolívia foram declarados territórios livres do analfabetismo pela UNESCO. Colômbia tem taxa de analfabetismo de 4%, Perú, 6%, para não falar dos países do Cone Sul, que há anos não mais convivem com este problema. Enquanto isso, no Brasil, nos conformamos com um índice de 10%, além dos mais de 20% de analfabetos funcionais. Pior, em 2012 houve um acréscimo de 300.000 analfabetos em números absolutos, fato que não ocorre nem em países envolvidos em situação de guerra. Uma tragédia, uma vergonha, não somente para este governo, que tem negligenciado solenemente o enfrentamento do analfabetismo, mas para toda a sociedade brasileira.

A coligação PSB/REDE tem como dar resposta a isso. E recuperando uma experiência iniciada no governo do avô de Eduardo Campos, Miguel Arraes: os Círculos de Cultura. Foi a partir dos Círculos de Cultura que Paulo Freire desenvolveu a sua pedagogia e foram os Círculos de Cultura uma das bases de inspiração para a construção do programa Cultura Viva e os Pontos de Cultura, que eu idealizei e desenvolvi quando estava trabalhando no Ministério da Cultura, como secretário da Cidadania Cultural, a convite do ministro Gilberto Gil. Só conseguiremos erradicar o analfabetismo se o entendermos como um fato cultural. E a partir de hoje temos que declarar que é intolerável um país tão rico e vigoroso como o Brasil, com 200 milhões de habitantes, se conformar em conviver com 15 milhões de analfabetos. Para além do efeito da alfabetização de indivíduos, a prioridade no combate ao analfabetismo, terá duas outras consequências: o fortalecimento de vínculos solidários na sociedade, que não mais deve admitir que alguém seja descartado e a explicitação do valor educação e do valor cultura como prioritários e imperativos para o desenvolvimento social. Por isso o analfabetismo deve ser tratado a partir da Cultura e não mais pela estrutura engessada da Educação.

Nossa meta de governo (e de agenda de país) deve ser: declarar o Brasil território livre do analfabetismo em 4 anos. Ou seja, menos de 2% de analfabetos, que é o padrão da UNESCO. E só a coligação PSB/REDE tem condições de apresentar esta meta; isso porque nós temos história, nós temos experiência (com a implantação dos Pontos de Cultura) e nós temos determinação. E já na campanha eleitoral poderemos apresentar forma e cronograma de implantação, metas e custo.

Segunda medida: Agentes Jovens de Cultura Cidadã. Se a sociedade admite que os jovens sejam deslocados do trabalho e dos estudos pelo período de um ano para serviço militar, por que não fazer o mesmo para um serviço de paz? Imaginem um milhão de jovens por ano, trabalhando em atividades culturais comunitárias, em escolas abertas em finais de semana, em Pontos de Cultura, em Museus, em Coletivos Ambientais. Seria uma formação em processo, 20 horas de atividade por semana, pelo qual os jovens poderiam ganhar R$ 400,00/mês. Não seria tanto, R$ 4 bilhões por ano. O governo desperdiça tanto dinheiro, por que não reservar esta quantia para o cuidado com os nossos jovens? Ao longo de 20 anos seriam 20 milhões de pessoas que, por um ano, teriam passado pela experiência de cuidar de seu povo, de fazer cultura, arte, de promover o ambiente, o lazer. Em 20 anos será possível mudar o habitus, a maneira de ser e de pensar de uma geração.

Terceira medida: Griôs, mestres e mestras da cultura tradicional. Griô é uma palavra que vem da África. No tempo do holocausto da escravidão, os portugueses perceberam que entre os escravizados, havia homens que vestiam roupas estranhas, gritavam e cantavam coisas de forma ininteligível para os europeus. Eram os genealogistas, os brincantes, os músicos e as bibliotecas vivas dos africanos. A estes, os portugueses deram o nome de “Gritadores”, daí o Griot afrancesado e agora o Griô abrasileirado. Vamos trazer este conhecimento ancestral, transmitido pela oralidade, para o desenvolvimento do Brasil. Rezadeiras são também botânicas, farmacêuticas, conhecem o segredo das plantas. Há também as parteiras, como com a experiência desenvolvida no Amapá, no governo Capiberibe, e que hoje é modelo para mundo. Os Griôs e mestres da Cultura Popular, com todos seus saberes e fazeres, de um mestre de capoeira a um pajé ou construtor de Taiko, os tambores japoneses, os contadores de histórias, todos os detentores do saber ancestral, independente da origem étnica, podem e devem ser incorporados no processo de formação educacional e cultural de nossa juventude. Uma boa meta seriam 100.000 Griôs e Mestres da Cultura Tradicional recebendo uma bolsa mensal para desenvolver atividades lúdicas e formativas nas escolas e Pontos de Cultura espelhados pelo Brasil. O custo seria de R$ 1 bilhão, não é muito frente ao reconhecimento de tudo que contribuíram e contribuem para o patrimônio cultural do povo brasileiro, religando os fios de nossa história mais escondida, mais profunda e, por isso mesmo, mais humana.

E há muito mais por fazer com e pela Cultura. Isso porque a Cultura é tudo e está presente em cada um de nós. E assim seguiremos, construindo o programa PSB/REDE, para além, até mesmo, do programa de governo Eduardo Campos/Marina Silva, pois desejamos ir além, construindo uma agenda de país. Isto porque, para se mudar uma realidade, primeiro é preciso sonhar.



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5 comments

  1. Acauã Rodrigues Responder

    .
    Muito bom, Celio ! Falou de cátedra ! Não resisto de complementar sua frase inicial, que na verdade foi a frase de encerramento.
    Olha só que sincronia…

    “Para se mudar uma realidade, primeiro é preciso sonhar”

    Celio Turino

    “É preciso sonhar,
    mas com a condição de crer em nosso sonho,
    de observar com atenção a vida real,
    de confrontar a observação com nosso sonho,
    de realizar escrupulosamente nossas fantasias.
    Sonhos, acredite neles.”

    Vladimir Ilitch Lenin
    .

  2. lolo Responder

    ótimos pontos seu moço.

  3. Fernando Simões Responder

    Muito boa a iniciativa de transferir a meta contra o analfabetismo para o Ministério da Cultura, realmente nos passa outro significado, de que o País transcende a responsabilidade de uma forma mais profunda, como se estivesse no sangue de cada brasileiro. Agora, “obrigar” um serviço de Paz é complicadíssimo. Não podemos de uma hora para outra selecionar os melhores a fazerem os serviços de boa vontade. Esse processo que consiste em comparar o processo de seleção das forças armadas com os futuros “Agentes Jovens de Cultura Cidadã” é equivocado demais. Os jovens que se alistam não tem interesse nenhum porque são obrigados e sabem que no alistamento não existirá perspectiva de crescimento.

    Agora… Uma dica… Porque o PSB/REDE não cria a iniciativa do Ministério da HONRA? Brincadeiras a parte. A questão é que não se tem honra. Por que não mudamos a Cultura brasileira de uma forma que os Mestres em educação sejam mais valorizados e respeitados? Uma cultura onde os alunos no ensino fundamental e no ensino médio tenham como referência a carreira de Professor? Quando eu estava no ensino fundamental, porventura eu ficava fascinado no simples pensar de um dia tornar-se um professor. Você deve estar se perguntando.. Nossa, como ele mudou totalmente de assunto. Mas a questão é que se não adotarmos uma cultura PROGRESSISTA/SUSTENTÁVEL a nossa Cultura Atual nunca irá mudar.

    Outro assunto seríssimo que deveria ser debatido nas reuniões do PSB/REDE é um tratado ou acordo para que os futuros cargos de empresas/hospitais/escolas entre outras organizações sejam apenas efetivados por pessoas competentes e que façam parte desse ramo, não beneficiando os partidos com divisões de cargos e deixando a merce do nada a administração pública.

    1. celioturino Responder

      Fernando, obrigado por seu comentário e desculpe a demora em responder (estava fora do pais, em uma série de conferencias e lançamento de livro). A intenção com o Agente Jovem de Cultura Cidadã não é m serviço obrigatório, mas abrir a alternativa, de modo que, ao prestar este serviço os jovens se exercitem na cidadania. Quanto à ocupação de cargos públicos, já escrevi artigo neste site em que proponho (conforme vc sugere) um quadro de critérios e ocupação para cargos públicos, profissionalizando e qualificando a gestão pública.

  4. Geraldo Lobo Responder

    UM PAÍS SEM EXCELÊNCIAS E MORDOMIAS

    Criticar pode ser um tiro no pé. São tantos escândalos que a massa acaba ficando anestesiada e o poder mais cínico. Talvez seja melhor propagar virtudes. Talvez os alienados consigam perceber que o mundo não é só isso que se vê aqui.

    Poucos sabem, mas existe um lugar que é o oposto do Brasil: a SUÉCIA.

    O povo sueco vê seu país como uma riqueza que deve ser preservada e aprimorada, cada vez mais, para o bem de todos os seus cidadãos. Já o brasileiro vê o Brasil como urubu na carniça, acha que deve devorar o que puder e o mais rápido possível, porque festa acaba.

    Quem não acreditar leia este livro: “Um país sem excelências e mordomias”, de Cláudia Wallin.


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