Sobre zumbis, caixões e seus cemitérios

E as lojas piscam, e, como zumbis, os mortos vão para a luz, e depois voltam com o céu dentro de sacolas, e entram nos seus caixões e rumam para a cova. Lar, doce lar

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E as lojas piscam, e, como zumbis, os mortos vão para a luz, e depois voltam com o céu dentro de sacolas, e entram nos seus caixões e rumam para a cova. Lar, doce lar

Por Ferréz

A matéria abaixo faz parte da edição 117 de Fórum, compre aqui.

Avenida principal, não se anda um metro com o carro, o calor, a cor do asfalto, o fantasma da gasolina que sai do escapamento, o suor do desespero, um ciclista filho da puta passa por todos, uma bicicleta de 200 reais vale mais que o carro de um milhão, isso é desigualdade de verdade, pensa o motorista do Hyundai.

Vielas lotadas, atalhos famosos, esquinas complicadas, engenharia de tráfego é piada.

Um pedestre passa, todos olham com raiva, ele anda, se mexe, avança no tempo, mas o que todos veem é mais um farol fechado. E de novo abre e de novo fecha e ninguém se mexe, água gelada, cabo pra celular, tudo se acaba, tudo se desgasta.

Um homem esbarra numa mulher, não pede desculpa, joga o papel da sorte no chão com raiva da cidade, olha o trânsito, tem nojo, desceu do ônibus de revolta, chutou a porta, seu time na segunda divisão, a conta de luz veio o dobro do mês passado, mas que diabo, mas que inferno.

(Marcos Paulo Dias / Blog do Mílton Jung)

Ela não liga, não vai fazer barraco por um esbarrão, quando pode, foge pra praia, valoriza as cidades do interior, mas acha tudo muito lento. Mesmo assim, pensa que vai embora em poucos anos, ganhar mais algum, guardar mais algum, quando tiver bastante sairá sem olhar pra trás pra não virar sal, oh! lugar maldito.

O homem que jogou o papel no chão trata com mais interesse as coisas do prédio onde mora. Fora dele, tudo é lixo; dentro, tudo é ordem, dentro do seu apartamento, seu filho e sua mulher são seu mundo, os outros moradores que se danem, que não se metam com ele, que seu condomínio tá em dia, e sua vaga na garagem ele alugou para ganhar um extra, ter carro pra quê? Pra ser extorquido por estacionamento quando for trabalhar, for passear, for levar o menino para tomar um ar longe daquele apertamento de 50 metros quadrados? Melhor ficar ali, dizer que está a pé mesmo que ninguém lhe cobra, ninguém lhe enche o saco.

O motorista o encara, jogaria o carro nele se pudesse, tem inveja do seu andar, toda vez que está no começo de algum engarrafamento fala “maldito lugar do inferno”.

São Paulo é um cemitério, ele vê gente morta pela Avenida Paulista, vê zumbi na Vila Olímpia, jura que já viu flores em seus corpos, algodão em seus narizes.

O motorista que está atrás, com o caminhão de entrega, tem hora para circular, mas a hora tá chegando e não consegue sair dali, contou ao cunhado que viu caixões jogados nas calçadas, parados em grandes áreas, mais que os caixões da Fensa, esses que ele viu, andam, se mudam para um lugar e outro, param em áreas grandes, são lavados, limpos e depois reutilizados.

O cunhado duvidou, mas ele insistiu, os caixões que ele vê tem várias marcas: Chevrolet, GM, e tem até caixões importados.

Seu cunhado, que trabalha de motoboy, também tem nojo do trânsito, buzina e ninguém deixa ele passar, esses dias ele chutou um retrovisor, quase caiu no rio, castigo de Deus, mas começou a perceber quando teve que parar na Marginal para socorrer um amigo de profissão. Viu os caixões, várias cores, vários detalhes, modelos, notou que as pessoas podem ser atropeladas por eles, tem gente que paga até um milhão em alguns desses caixões, mas quando morrem não são enterrados neles.

Caixões com IPI reduzido, parcelados, financiados, reformados, sorteados em promoções.

Voltou pra casa exausto, tomou um banho para tirar sujeira da rua que ficou no seu rosto, resto de asfalto, pó, pele, desilusão.

O chuveiro ligado, a água correndo, ele pensando nos estacionamentos, o que seriam, então? Túmulos bem preparados, tem grandes aglomerados de lojas chamadas de shoppings que enterram centenas deles todos os dias, e os que serão enterrados ainda pagam para estarem mortos por algumas horas.

E as lojas piscam, e, como zumbis, os mortos vão para a luz, e depois voltam com o céu dentro de sacolas, e entram nos seus caixões e rumam para a cova. Lar, doce lar. F



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