Cultura e Estudos Culturais

Dia desses, publiquei um post revoltadinho no facebook. Como texto revoltadinho não leva ninguém a lugar nenhum, aqui...

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Dia desses, publiquei um post revoltadinho no facebook. Como texto revoltadinho não leva ninguém a lugar nenhum, aqui vai um comentário mais elaborado sobre uma questão que considero importante.
A proposta desta disciplina “Cultura e estudos culturais”, umas das quatro que farei nesse primeiro semestre (lembrando que o ano acadêmico no hemisfério norte não coincide com o ano civil), é levar-nos a uma reflexão sobre o desenvolvimento dos estudos culturais em determinada cultura. No caso, a inglesa, porque é a área de interesse da professora, inglesa.
A nossa primeira leitura obrigatória foi “Cultura e Anarquia”, de Matthew Arnold, pai dos estudos culturais na Inglaterra. O ensaio de Arnold exorta os homens a procurarem a perfeição, por meio da cultura, que é o resultado da doçura e da luz, doçura, beleza, luz, inteligência. Para Arnold, essa é a vocação maior do ser humano, independentemente de sua classe (baixa, média ou alta, classes bem determinadas e estanques), e qualquer outro tipo de prática social e política que não considere esse ideal máximo de iluminação nos levaria a um estado de anarquia e obscuridade.
A segunda leitura foi “Ficção e o público leitor”, em que Quenny Leavis faz um estudo detalhado sobre o fenômeno dos best-sellers no início do século XX. É uma tese de doutorado, cujo argumento principal é o de que o aumento “descontrolado” do letramento na sociedade inglesa levou a uma deterioração da qualidade do gosto popular. Se nos séculos XVI, XVII, e até meados do século XVIII não havia tantos leitores, pelo menos o que se lia era de qualidade: difícil, elaborado, com um bom vocabulário: Shakespeare. Ao contrário do que se vendia em profusão na atualidade dela, livros de fácil digestão, que retratavam personagens vulgares – tão vulgares como o público ao qual se destinavam. Basicamente, ela classifica como de “baixa cultura” tudo o que depois Ian Watt identificou como o gênero mais amado até os nossos dias: o romance.
Vocês podem imaginar o sofrimento que foi para os alunos do doutorado em literatura e cultura, que têm entre suas pesquisas principalmente a valorização das vozes de quem foi sempre tachado como “subalterno”, que tentam enxergar o mundo sob uma ótica mais igualitária e justa, ler esse tipo de texto preconceituoso e elitista. O sofrimento virou revolta no debate em sala de aula, claro. Mas a proposta era lermos como de cabeça aberta, procurando validar os argumentos apresentados, afinal, eram textos que foram fruto de muita reflexão.
E então percebemos que, ainda que para nós cada linha pareça absurda e ofensiva, ainda hoje não seria – não é – difícil encontrar quem não veja problema algum nesse tipo de argumento, o de que há uma elite culta que deve selecionar o que é bom e o que é ruim, baseando-se em critérios estéticos imparciais e universais, e recomendar fortemente o que for considerado bom para a maioria inculta, para que dessa forma todos possam um dia, lentamente, atingir um estado elevado de cultura. 
Para Arnold, o padrão de beleza e bondade eram os ideais clássicos. Para Leavis, o drama elizabetano: Shakespeare (leiam shakespeare ou não leiam nada!). Ambos estavam seriamente preocupados em estabelecer padrões mínimos de qualidade, e não deixar que as massas estivessem sempre alienadas pelas coisas de má qualidade que eram vendidas sob boas propagandas. Que mal há nisso, não é mesmo? Quem de nós não quer que as pessoas parem de assistir big brother e comecem a ler Machado de Assis?
(a Leavis não quereria, Machado é romancista, e romance é coisa de gente preguiçosa)
Bom, ainda que esteja cheio de boas intenções, como o inferno, esse tipo de discurso não leva em consideração uma coisa um tanto quanto importante para nós, que defendemos um modelo humanista de educação: a autonomia de cada pessoa. Sim, por que quem vai definir o que é “bom”? o que é essencialmente de “qualidade”? Que poder é esse que a elite econômica e intelectual se arroga de determinar o que presta e o que não presta? Baseada em quê? Tradição? Como se essa própria tradição fosse algo imutável, indiscutível, estanque. Houve tempos em que os clássicos não serviam mais como modelo de perfeição. E depois eles voltaram, e depois foram embora, e depois voltaram de novo. E o romance? O que hoje é considerado erudição, ontem era folhetim de quinta, feito pra vender jornal. E amanhã, quem garante que o nosso must-to-hate Paulo Coelho não será o baluarte da grande literatura brasileira?
Além disso, que valor pretensamente universal de qualidade é esse que vai dizer que o que é bom para a sociedade aristocrata inglesa é bom também pra mim, brasileira, mulher, negra, “pós-colonial”, enfim, criada em numa realidade prática totalmente diversa, heterogênea, desigual? 
Um pensamento que se proponha considerar todas as pessoas como iguais em direitos e capacidades, não pode admitir que algumas delas são mais capazes de discernir o que é bom e o que é ruim do que outras. É óbvio que não estou defendendo de forma nenhuma as gerações atuais parem de educar as gerações seguintes – eu sou professora por formação!
O que estou dizendo é que “educação” pode significar várias coisas. Pode ser instrumento de dominação ou de liberdade. Depende do tipo de regime que o impõe. Se, num contexto micro, os pais educam seus filhos para que continuem a obedecer o que os pais acham correto, verdadeiro, sublime, importante, e não se deixem corromper por interferências externas, o que esperar de um regime político governamental que quer evitar todo e qualquer tipo de rebelião, contradição, desordem, insurreição?
Pois é, não é tão simples assim. Não é questão de ponto de vista: esses autores não só estavam defendendo seus próprios gostos: pelo contrário, trata-se ali de defender o que é, por excelência, bom, não é um gosto pessoal, “por acaso”, eu gosto do que é bom, e você, pobre coitado, não. “Por acaso”, eu, letrado, educado em boas escolas, intelectual, erudito, classe média alta ou rico, sei o que é bom, e você, ralé, não. Mas não se preocupe: sou tão legal e gente boa e desprendido que posso até te ensinar. Você só vai ter que renegar tudo o que você experienciou como válido e bom até agora e começar comigo do zero. Me agradeça depois.
Essa aparente “neutralidade” é que é o problema. Porque ela não existe, é falsa. Os nossos gostos são condicionados por milhões de influências e contatos, que por sua vez são resultados de relações de poder. Nós, intelectuais, não podemos negar a qualquer pessoa, sim, qualquer pessoa o seu direito ao pensamento autônomo, ou melhor, não podemos deixar de reconhecer em qualquer pessoa a sua capacidade potencial de desenvolver um pensamento autônomo. Se tem que haver educação, e é claro que tem, ela deve ser baseada em princípios de liberdade, de escolhas: a educação formal deve oferecer ferramentas de desenvolvimento e refinamento do pensamento, e não respostas prontas e inquestionáveis.
Por isso, não faz sentido falar de cultura em nível qualitativo. Existem culturas diferentes, que se constituem como conhecimento compartilhado, que podem originar comportamentos positivos ou negativos sob certos aspectos. Isso vai  sempre depender dos critérios de avaliação que estão sendo adotados, e estes devem ser expostos como parciais – porque o são – e devem identificar a sua filiação ideológica de maneira clara e honesta (sonhar não custa, né?).
Enquanto esse surto de honestidade não acontece, cabe a nós, pensadores da cultura do século XXI, dar a conhecer o que está por trás desse desejo benevolente, no caso, inglês do fim do séc XIX, começo do XX, de ter, um dia, com ordem e hierarquia, e com as pessoas “certas” no comando, uma sociedade iluminada e culta. Preconceito, ignorância, presunção, arrogância e, mais importante, um profundo apego ao status quo de centro pensante do mundo, são algumas das idéias perigosas e autoritárias que enformam esse tipo de discurso, e que, de maneira preocupante, sobrevivem até hoje. Temos muito trabalho pela frente.


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