A espionagem que ajudava a sustentar a ditadura

Há registros de bisbilhotagem norte-americana no Brasil desde a década de 1940, mas o ápice da atuação intervencionista ocorreu durante o regime militar, quando agentes da CIA chegaram a treinar brasileiros para atuar nas ruas contra o “inimigo vermelho”

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Há registros de bisbilhotagem norte-americana no Brasil desde a década de 1940, mas o ápice da atuação intervencionista ocorreu durante o regime militar, quando agentes da CIA chegaram a treinar brasileiros para atuar nas ruas contra o “inimigo vermelho”

Por Igor Carvalho

Esta matéria faz parte da edição 127 da revista Fórum.

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As revelações de que o governo brasileiro e empresas como a Petrobras foram alvo de espionagem feita pelos EUA não são exatamente a primeira ingerência conhecida do serviço secreto norte-americano aqui ou em países da América Latina. Em 1940, quando o presidente Franklin Roosevelt instituiu o Serviço Especial de Inteligência (SIS, sigla em inglês), a atuação do governo estadunidense em relação aos países da região começou a tomar outras formas.

Capa do livro Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo

O empenho em expandir seu controle por outros territórios fez com que, já em 1942, houvesse 137 agentes do FBI locados entre a América Central e a do Sul. Porém, não estava previsto que o SIS treinasse militares e policiais de outros países, como aconteceria posteriormente. Ainda em 1942, em carta ao Departamento de Estado dos EUA, o cônsul do país em Natal, capital do Rio Grande do Norte, relatou sua preocupação com William Bradley, “um tipo de agente secreto, e tudo indica que do FBI”. O diplomata reclamava que o espião mantinha um “olhar vigilante sobre o pessoal norte-americano.” O registro da carta foi publicado no livro Polícia e Política: Relações Estados Unidos/América Latina, da socióloga americana Martha Huggins.

Porém, o que ainda não estava previsto à época em que Roosevelt criou o SIS era que o órgão treinasse militares e policiais de outros países. Em 1943, o assistente do cônsul dos EUA em São Paulo solicitou que um agente do FBI fosse enviado à capital paulista para servir de instrutor da polícia. Oito anos depois, em 1951, policiais do Rio de Janeiro solicitaram que a embaixada norte-americana os enviasse para estudar o modelo dos EUA de combate ao tráfico de drogas. Mediante um financiamento misto, que envolveu o Departamento de Estado dos EUA e o Rotary Club carioca, os militares foram levados para o treinamento.

Plano Ponto Quatro

Harry S. Truman, cujas diretrizes serviram como base para o Plano Ponto Quatro (Frank Gatteri / U. S. Army Signal Corps)

Para preencher as 732 páginas do livro Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo, o jornalista Mário Magalhães pesquisou durante anos o período que antecedeu o golpe militar, além dos próprios anos de chumbo do regime. Esse estudo aprofundado fez com que o biógrafo notasse que a atuação de espiões americanos em terras brasileiras era realmente antiga. “A CIA age intensamente no Brasil desde o fim da Segunda Guerra. É o que comprova o monumental acervo de documentos da agência, relativos ao país, alguns já liberados.”

O governo dos EUA começava a movimentar suas peças no tabuleiro internacional contra a União Soviética no pós-Segunda Guerra, quando se iniciou o período da Guerra Fria. No final da década de 1940, criaram o Plano Marshall, orientado para servir na reconstrução de nações europeias vitimadas pelo conflito. Nos mesmos moldes do projeto econômico, nasceu o Plano Ponto Quatro.

O plano estava dentro das diretrizes preconizadas pelo presidente Harry S. Truman em seu discurso de posse, em janeiro de 1949. “Embarcaremos num programa novo e ousado, a fim de tornar os benefícios de nosso avanço científico e progresso econômico disponíveis para o avanço e crescimento econômico das áreas subdesenvolvidas.” Embora tenha nascido em 1949, o Plano Ponto Quatro se tornou lei em 1951 e dialogava com o anseio de que a prosperidade econômica desses países pobres, bem como o enrijecimento das instituições, freassem a possível influência comunista. “De modo particular, a teoria da ‘contenção’ [ao comunismo] que se desenvolvia ligava-se cada vez mais ao ‘desenvolvimento econômico’”, descreve a socióloga em seu livro.

Franklin Roosevelt, que instituiu o Serviço Especial de Inteligência (SIS) (Elias Goldensky / Wikipédia)

Com o Programa Ponto Quatro, os EUA poderiam transferir tecnologia e ciência para outros países, e, de acordo com Martha, também se previa o aprimoramento da segurança interna desses países, a fim de que suas polícias dessem conta de atuar como linha de frente no combate aos comunistas, evitando assim a tomada de medidas extremas como a intervenção militar e, por vezes, a implantação de ditaduras.

Começaram aí os intercâmbios policiais, que também contribuíam para a cooptação ideológica. Ambas as práticas são confirmadas pelo ex-delegado do Dops do Espírito Santo Cláudio Guerra, que assumiu a chefia do órgão repressivo em 1972. “Ah, mas isso mesmo antes da ‘Revolução’ já era doutrina, o ódio ao comunismo. A cartilha americana era clara, tínhamos que acabar com o comunismo na América Latina”, recorda.

Documentos divulgados da CIA ajudaram Martha a reconstruir um diálogo entre um general do Exército brasileiro e seus comandados, em 1971, quando ele pedia que eles “assumissem plena responsabilidade por todos os elementos de segurança, bem como o controle deles, e que se declarasse imediatamente uma guerra total aos terroristas”. A socióloga ressalta que a orientação passada pelo militar teria partido da CIA.

Ensinando a torturar

Estudantes da PUC-SP presos em protesto contra a ditadura: De que lado os EUA estavam? (Carlos Namba / Editora Abril – Imagens)

Em sua tese de doutorado, na USP, a cientista política Thaís Battibugli narra o surgimento de uma organização norte-americana que passou a exercer influência entre os militares brasileiros, o Escritório de Segurança Pública (Office of Public Safety, OPS), oficialmente subordinado à Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), que, por sua vez, havia substituí­do a Administração de Cooperação Internacional (ICA) em 1962.

A ICA era o órgão responsável por auxiliar as polícias. “Em setembro de 1956, cinco guardas-civis paulistas foram enviados aos EUA para um curso de especialização em trânsito cuja duração era de seis meses. Os guardas receberam bolsas de estudo do ICA-Ponto IV por solicitação do governador Jânio Quadros”, descreve Thaís.

O OPS mantinha um compromisso estreito com a CIA e se reportava diretamente a um assessor do presidente estadunidense. No livro Polícia e Política: Relações Estados Unidos/América Latina, Martha afirma que o ex-diretor do OPS, Byron Engle, confessou que a Usaid relutava em “treinar policiais estrangeiros”, mas que acabou cedendo às pressões do presidente John F. Kennedy (1961-1963).

Um dos agentes notórios que trabalhou no OPS foi Dan Mitrione, que começou sua jornada no continente pelo Brasil, onde atuou entre 1960 e 1967. Após sua morte, passou a ser conhecido como “o maestro da tortura.” Com ele, militares brasileiros aprenderam, por exemplo, como aplicar choques nas vaginas das presas, utilizando palha de aço e também aplicando com precisão a técnica de se enfiar agulhas sob as unhas. “Vários oficiais brasileiros fizeram curso na Escola das Américas e depois voltaram para nos ensinar. Em Minas Gerais, os americanos mantinham uma casa onde ensinavam como torturar”, conta Guerra. O ex-delegado afirma não se lembrar do nome do professor-torturador, mas pode ter sido Mitrione, que passou dois anos em Belo Horizonte, onde, em 1971, chegou a ser nome de rua.

Em 1969, Mitrione chegou a Montevidéu depois de um período de dois anos na Academia Internacional de Polícia, em Washington. No Uruguai, foi registrado como funcionário do consulado americano no país. Por dois anos ensinou militares uruguaios a torturar. Mas, em 1970, foi sequestrado e assassinado pelos tupamaros. Inicialmente, o grupo revolucionário queria apenas trocá-lo por 150 presos políticos, mas, com o passar do tempo, acabou matando o agente.

Influência bélica

“Agentes da CIA nos treinaram.” A afirmação é do ex-delegado do Dops, que lembra dos “cursos” ministrados pelos americanos. “Estive no Cenimar, no centro do Rio de Janeiro, em uma aula ministrada por dois agentes da CIA, e eles nos instruíam sobre como montar campana, como seguir um suspeito, como montar uma escuta, enfim, detalhes da atuação nossa no dia a dia das operações”, conta.

Porém, a influência do serviço secreto dos EUA não se restringia aos treinamentos militares: eles iam às ruas e combatiam os opositores do regime militar. Apesar de reconhecer que nunca saiu em operações com espiões e policiais estadunidenses, Guerra afirma que “vários companheiros disseram que estiveram em ações com agentes da CIA”.

Como prova da influência interna exercida pela CIA nos quartéis brasileiros, Guerra cita um dos episódios mais dolorosos da repressão em São Paulo, a “Chacina da Lapa”, que ocorreu em 1976. “Teve influência da CIA. Toda a informação dessa movimentação foi passada pelos americanos. Eles nos deram a informação de que ali se realizaria uma reunião de remanescentes da guerrilha do Araguaia, e foi feita a campana e vários foram presos na noite anterior. Depois, desencadeou-se a operação e morreram várias pessoas. Em seguida, foram plantadas as armas no interior da casa.” Questionado sobre o quanto da aparelhagem de inteligência e armamentos, utilizados pelos brasileiros, vieram dos EUA, Guerra responde que “99%”. “Tudo que tinha no Brasil era sucata. Os agentes andavam com 38, e alguns já eram doações.”

Mas não era apenas com treinamento que os Estados Unidos deram sua contribuição à manutenção da ditadura brasileira. Antes de ser delegado do Dops, Guerra era um dos agentes do SNI “encarregado de planejar alguns atentados”, como ele mesmo descreve e, para isso, contava com o auxílio de Jone Romaguera Trotte, outro agente da CIA. Foi em um escritório da Polícia Federal, no Rio de Janeiro, na sala do delegado geral à época, Cláudio Barrouin, que Guerra conheceu Trotte. O agente entregava para o ex-delegado armas e injeções envenenadas para que fossem utilizadas contra opositores do regime militar. “Veja bem, naquela época era difícil conseguir um grampo, quem trazia era o Jone. Ele trazia umas coisas sofisticadas para gente, muitas armas mesmo, AR-15 e pistolas automáticas. Além de silenciadores, que eram raros no País”, relembra.

Guerra conta que retirava “pessoalmente as armas na casa de Trotte”, vindas por meio de voos da Varig. Quem também se beneficiaria das remessas ilegais de armas, de acordo com o ex-delegado do Dops, era o ex-governador do Rio de Janeiro Heli Ribeiro, proprietário da usina de açúcar Cambahyba, na cidade de Campos. O fazendeiro estocava o armamento, entregue pessoalmente por Guerra, para se proteger, pois temia os efeitos de uma possível reforma agrária. Em troca, Ribeiro teria aceitado incinerar os corpos de dez presos políticos assassinados pela repressão em sua usina. As vítimas seriam: Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira e Eduardo Collier Fiho (ambos da Ação Popular Marxista Leninista – APML); Luiz Ignácio Maranhão Filho, David Capistrano, João Massena Mello e José Roman (todos do Partido Comunista Brasileiro); João Batista, Joaquim Pires Cerveira, Ana Rosa Kucinsk e Wilson Silva. Os detalhes da operação são narrados no livro Memórias de uma guerra suja (Editora Topbooks), de Rogério Medeiros e Marcelo Netto, com depoimentos de Guerra, que confessa ter arquitetado todo o plano para queimar os cadáveres.

Em 3 de setembro de 1982, os venenos trazidos por Trotte podem ter causado a morte do operador da Companhia Telefônica do Rio de Janeiro (Telerj) Heráclito de Souza Faffe, que, mais tarde, descobriu-se que trabalhava para o SNI, montando escutas. O técnico morreu após dois homens lhe aplicarem a injeção com a substância tóxica.

O motorista Malavasi

Carlos Marighella, um dos mais importantes e resguardados nomes da resistência à ditadura militar no Brasil, também foi vigiado bem de perto por agentes norte-americanos. Quem afirma é o seu biógrafo, o jornalista Mário Magalhães.

“Agentes de inteligência do Consulado dos Estados Unidos em São Paulo, seguramente vinculados à CIA, conseguiram infiltrar um informante na cúpula da Ação Libertadora Nacional (ALN) em 1968. O informante se chamava Alessandro Malavasi, era italiano e se tornou motorista de Carlos Marighella e Joaquim Câmara Ferreira, os dirigentes que compartilhavam o comando da ALN”, afirma Magalhães.

O Fusca, conduzido por Malavasi, servia de transporte para os guerrilheiros e tinha todas as suas prestações pagas pelo consulado americano em São Paulo. Apesar do vínculo da CIA, Magalhães afirma que não houve envolvimento da agência americana no assassinato do líder da ALN, porém, houve uma tentativa anterior, frustrada. “No dia 7 de maio de 1969, os agentes dos EUA ‘entregaram’ Marighella, a quem acompanhavam desde 1968, ao Dops de São Paulo. Foi montada uma grande cilada para prendê-lo, mas não deu certo.” F




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1 comment

  1. CAMILO TAVARES Responder

    Parabens pela seriedade e pesquisa historica!
    Qdo possivel assitam ao filme
    O DIA QUE DUROU 21 ANOS
    ABS!
    Camilo Tavares


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