Espionagem: um antigo hábito da humanidade

No ano 500 a.C., o general chinês Sun Tzu já afirmava que um bom sistema de espionagem é “o maior tesouro de qualquer governante”

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No ano 500 a.C., o general chinês Sun Tzu já afirmava que um bom sistema de espionagem é “o maior tesouro de qualquer governante”

Por Felipe Rousselet

Esta matéria faz parte da edição 127 da revista Fórum.

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Em maio deste ano, o ex-consultor da CIA Edward Snowden embarcou em um voo que saiu do Havaí, onde residia, com destino a Hong Kong. Já distante dos Estados Unidos, o jovem de 29 anos entregou ao jornalista Glen Greenwald, do jornal britânico The Guardian, detalhes sobre um sofisticado esquema mundial de espionagem de telecomunicações colocado em prática pela NSA, a Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos.

Documentos vazados por Snowden revelaram que nações, governos, empresas, cidadãos e representações diplomáticas em todo o mundo tiveram suas comunicações interceptadas pelo governo estadunidense. Em função disso, caso ele pise novamente em solo norte-americano, poderá ser julgado por espionagem e condenado à prisão perpétua. Ou seja, seria acusado exatamente do mesmo “crime” que o governo dos EUA comete há décadas, sendo o país um dos principais protagonistas dessa prática desde que iniciou sua caminhada para se tornar uma potência mundial.

Edição de bolso de A Arte da Guerra (Kallemax / Wikimedia Commons)

No livro A história da espionagem, o autor e veterano do Serviço de Inteligência do Exército dos EUA, Ernest Volkman, afirma que a espionagem sempre fez parte da existência humana. “Certa vez, perguntaram ao duque de Wellington o que ele fazia durante as longas horas solitárias da noite antes de uma grande batalha que deveria ocorrer. Não conseguia dormir, respondeu o duque, porque sua mente ficava obcecada com uma pergunta: ‘O que há do outro lado da colina?’ Jamais surgiu alguém com uma visão melhor do processo de Inteligência, nome formal mais conhecido como espionagem (ou pelo moderno eufemismo, ‘coleta de inteligência’. Seja qual for o nome, o processo tem sido parte integrante da existência humana desde o Homo sapiens, que, desde logo, se preocupou com a força e as intenções de clãs e tribos vizinhas. A espionagem nasceu ao mesmo tempo em que emergiu outro componente vital na história da humanidade, a luta armada”, conta Volkman.

Apesar de não ser possível precisar com exatidão quando a espionagem entre povos começou, tabuletas de barro gravadas em 3200 a.C pelo povo sumério já relatavam uma operação de inteligência na qual os “espiões” transmitiam informações sobre as defesas da Babilônia por meio de sinais de fumaça. Tão antiga quanto tais atividades são as ações para evitá-las, a chamada contraespionagem. Uma tabuleta da Mesopotâmia contém um dos primeiros registros da utilização de textos cifrados com o objetivo de evitar que as mensagens sejam lidas por povos inimigos. O código guardava um dos maiores segredos sumérios, a fórmula do esmalte, a principal vantagem da sua indústria cerâmica. A tabuleta avisava, ainda, que espiões de outras civilizações estavam procurando pela fórmula, que deveria ser preservada a qualquer custo.

Versão feita de bambu do livro A Arte da Guerra (Bluefootedbooby / Flickr)

Além dos relatos originais contidos em objetos descobertos por arqueólogos, as atividades de espionagem na Antiguidade também são relatadas em textos bíblicos. André Luiz Woloszyn, analista de Assuntos Estratégicos e consultor de agências e organizações em conflitos de média e baixa intensidade, no livro Guerra nas Sombras, cita uma passagem do Velho Testamento na qual Deus ordena a Moisés que envie homens para investigar a terra de Canaã. “Envie homens para espionar a terra de Canaã, que eu hei de dar aos filhos de Israel: de cada tribo de seu país enviareis um homem, sendo cada qual um príncipe entre eles”, relata o Velho Testamento no capítulo 13, entre os versículos 17 e 20.

Porém, a obra literária mais antiga que aborda a importância da coleta de informações sobre o inimigo é o cultuado A arte da guerra, de Sun Tzu, escrito por volta do ano 500 a.C. O célebre general chinês defendia na obra que os mais inteligentes homens de um exército fossem utilizados em serviços de espionagem. Sun Tzu divide os espiões em cinco classes distintas: nativos, internos, desertores, descartáveis e sobreviventes.

“Se estiverem em ação espiões dessas cinco classes, então ninguém sabe de sua atividade. Um sistema assim, tão fantástico, é o maior tesouro de qualquer governante”, escreveu o general chinês. “A condução bem-sucedida de uma guerra repousa sobre a camuflagem e o engano”, conclui Sun Tzu.

Agências de inteligência governamentais

Diante da importância da coleta de informações para obter vantagens estratégicas e para a defesa das nações, os Estados modernos criaram e formalizaram a estrutura de agências governamentais de inteligência, exclusivamente dedicadas à coleta de informações e à contraespionagem. Eric Frattini, autor do livro Santa Aliança: cinco séculos de espionagem no Vaticano, conta que o mais antigo serviço de inteligência governamental foi criado em 1566, pelo Vaticano, denominado Santa Aliança. Apesar de existirem poucas informações a respeito do órgão, que seria diretamente subordinado ao papa, Woloszyn defende que “quem possui arquivos secretos desde o século XVI certamente também necessita de um serviço de inteligência, especialmente em um Estado independente, como é considerado o Vaticano, que participa do jogo de poder e das intrigas internacionais tanto quanto as grandes potências mundiais”.

Frattini afirma que a Santa Aliança atuou tanto protegendo judeus durante o regime nazista na Alemanha quanto escondendo líderes nazistas, por meio da organização clandestina Odessa, após a Segunda Guerra Mundial. O autor diz ainda que o serviço de inteligência do Vaticano teria financiado golpes de Estado e apoiado ditaduras do seu interesse.

O segundo serviço de inteligência governamental mais antigo do mundo ainda em atividade foi criado na Inglaterra, em 1909, e recebeu o nome SIS (Secret Intelligence Service). Tido como uma referência para outras agências, o SIS foi fundamental durante alguns períodos históricos, como explica Woloszyn. “O SIS teve um papel decisivo durante a Segunda Guerra Mundial, notadamente na decifração de mensagens criptografadas dos países que compunham o Eixo, e durante a Guerra Fria, sendo o que mais detectou e neutralizou casos de espionagem interna, resultado de traições”, relata no livro Guerra nas sombras.

Enigma, máquina utilizada tanto para criptografar como para descriptografar mensagens secretas, utilizada na década de 1920 (Wikimedia Commons)

Outros dois serviços de inteligência governamentais que merecem especial destaque são a KGB, na antiga União Soviética, e a Stasi, na República Democrática Alemã. Ambos já extintos. O primeiro, criado em 1954, foi resultado da unificação dos serviços secretos da União Soviética (Cheka, OGPU, MGB e NKGB). Com mais de 500 mil agentes, era considerado na época o maior e mais eficiente serviço de inteligência do mundo. Formado por dezenas de departamentos, que eram denominados de “direção”, possuía escritórios nas repúblicas da URSS e atuava principalmente na segurança interna contra a chamada “subversão ideológica”, na guarda das fronteiras e na vigilância de cidadãos russos e estrangeiros.

“A espionagem no exterior era realizada pelos chamados residentes, agentes da KGB com identidade falsa que atuavam como funcionários das embaixadas da URSS. Pos­suíam imunidade diplomática, como proteção em caso de detecção, o que lhes permitia o benefício de expulsão do país, livrando-os da pena de prisão, que poderia ser perpétua, ou até mesmo da pena de morte por espionagem, considerada até hoje crime contra a segurança nacional na maioria dos países”, relata Woloszyn.

Por sua vez, a Stasi, criada na República Democrática Alemã em 1950, foi inspirada no MGB, órgão responsável pela segurança interna e externa da URSS antes da criação da KGB. O temido serviço secreto possuía 280 mil integrantes e focava suas atividades no monitoramento e na repressão dos cidadãos da Alemanha Oriental. Além de possuir uma rede de milhares de informantes espalhados por todos os cantos do país, a Stasi tinha como principal tática de vigilância o uso de câmeras de vídeos e escutas para monitorar o comportamento dos seus alvos.

Os EUA e a espionagem

Protagonista do maior escândalo de espionagem global de que já se teve notícia, os EUA sempre tiveram nas estratégias de inteligência e coleta de informações elementos essenciais da sua história. “A espionagem constitui um elemento essencial na história dos Estados Unidos, um país, que, em 235 anos de existência, desde a sua fundação em 1776, esteve envolvido em 214 anos de guerra, com pouco menos de 25 de paz. Durante a guerra da Independência (1775–1783), George Washington, em carta datada de 26 de julho de 1777, escreveu sobre a necessidade e urgência de coletar boa inteligência”, explica Moniz Bandeira (confira entrevista na pág. 15), doutor em Ciências Políticas e autor do livro Formação do Império Americano, pelo qual recebeu o Prêmio Juca Pato e foi eleito pela União Brasileira de Escritores (UBE) o Intelectual do Ano em 2005.

O cientista político explica que, com o desenvolvimento tecnológico, os norte-americanos desenvolveram um método para a interceptação e decifração de códigos antes mesmo da Segunda Guerra Mundial. Criado pela Marinha, o sistema recebeu o nome de Signals Intelligence Service (SIS). Segundo ele, o SIS norte-americano foi capaz de interceptar mensagens do exército real japonês, que demonstrava o seu interesse na base naval de Pearl Habor (Havaí), o que contradiz a tese de que o ataque que marcou a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial foi uma completa surpresa para os norte-americanos.

Após o fim da II Guerra Mundial, teve início o período que ficou conhecido como Guerra Fria (1945-1991), quando os EUA e a URSS travaram uma disputa política, militar, econômica e ideológica nas suas respectivas zonas de influência. A nova polarização do poder mundial entre as duas superpotências fez com que o então presidente dos EUA Harry S. Truman criasse uma nova agência de inteligência, a CIA (Central Intelligence Agency).

“A CIA foi criada, em 1947, pelo governo do presidente Harry Truman, como sucessora do Office of Strategic Services [OSS], e também não se dedicou somente à coleta de inteligência. Ela desenvolveu principalmente a técnica da subversão, através de covert actions, como instrumento de política externa dos Estados Unidos. Aperfeiçoou vários tipos de operações de guerra psicológica e paramilitares. Elas jamais deveriam ser atribuídas à CIA ou ao governo dos Estados Unidos, e sim a outras pessoas ou organizações”, diz Moniz.

Inserida no contexto da Guerra Fria, quando uma intensa corrida armamentista entre EUA e URSS estava em curso, a CIA ganhou cada vez mais relevância juntamente com o Pentágono. “A ‘segurança nacional’ tornou-se a justificativa para imensos gastos com defesa, operações encobertas, e a CIA converteu-se mais e mais em uma força paramilitar, além de suas funções de espionagem e coleta de inteligência. Durante a Guerra Fria, ela e o Pentágono adquiriram enorme relevância, quiçá maior do que o Departamento de Estado, na política externa dos Estados Unidos. Estimulou e patrocinou tanto golpes militares quanto assassinatos, sabotagens e as mais diversas atividades terroristas, visando à mudança de governos e à consecução dos objetivos táticos e estratégicos dos Estados Unidos”, explica o cientista político. Na reportagem a seguir, você pode conferir como o país interferiu na vida política de diversos países da América Latina. F



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