Delegado Zaccone explica caso Amarildo

Responsável pela linha de investigação que desvinculou associação do pedreiro ao tráfico, Orlando Zaccone acredita que há um “processo de desqualificação da vítima” da ação policial

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Responsável pela linha de investigação que desvinculou associação do pedreiro ao tráfico, Orlando Zaccone acredita que há um “processo de desqualificação da vítima” da ação policial

Por Redação

Delegado titular da 15ª DP (Gávea), do Rio de Janeiro, Orlando Zaccone rejeitou as investigações que indicavam que Amarildo e seus familiares faziam parte do tráfico de drogas. E que essa seria a causa do desaparecimento do pedreiro da Rocinha. Zaccone não concordou com o pedido de prisão da esposa de Amarildo, Elisabete Gomes da Silva, surgindo assim duas linhas de investigação sobre o caso.

“Até Amarildo desaparecer, ele não tinha relação nenhuma com associação ao tráfico. Quando Amarildo desaparece, começam a surgir algumas coisas misteriosamente”, disse o delegado, que participou do 19º Curso Anual do Núcleo Piratininga de Comunicação, realizado no Rio de Janeiro desde quarta (20) até este domingo (24).

Para Zaccone, ocorre no Brasil um “processo de desqualificação da vítima”. “A investigação sobre a morte de alguém por ação policial não é uma investigação de como se deu o fato em si, é uma investigação sobre quem morreu”, afirmou. “A desqualificação da vítima no sentido de sua identificação como inimigo criminoso faz com que ela fique despida de qualquer direito.”

Segundo o delegado, isso ficou claro na diferença entre os dois relatórios de investigação sobre o sumiço de Amarildo. Enquanto o relatório de Ruchester MarreIros tentou associar Amarildo ao tráfico, o de Zaccone o desviculou. “A construção de Amarildo e seus familiares como traficantes legitimaria, infelizmente, a explicação para o seu desaparecimento”, explicou Zaccone.

A própria mídia, de acordo com o delegado, muitas vezes insistia na versão de que o pedreiro tinha sido assassinado por traficantes. Ele conta que atendeu diversos repórteres que questionavam essa hipótese. Segundo Zaccone, quando se falava que existiam duas linhas de investigação – ou Amarildo tinha sido morto pelo tráfico ou por policiais – havia um desejo por parte da imprensa de que a do tráfico fosse verdadeira.

Zaccone critica as práticas de tortura ainda presentes na polícia, mas alerta que é preciso tomar cuidado para que a sociedade não reforce ainda mais o “poder punitivo”. “Essa passagem de herói para monstro para o policial é um pulo, o poder político não vai se responsabilizar, vai colocar sempre aquela situação como um desvio de função individualizada, a culpa, a responsabilidade individual. Evidentemente que os responsáveis por um ato brutal como esse não podem ficar sem nenhuma responsabilidade, agora jogar os policiais numa fogueira, queimar esses policiais como bruxas, só incrementa o poder punitivo.”

Assista abaixo ao depoimento de Zaccone no 19º Curso Anual do NPC: 

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1 comment

  1. JustiçaJá Responder

    A mídia a favor da versão q Amarildo tinha envolvimento com o tráfico? Q lunático… seria interessante se realmente este delegado tivesse investigado esta versão… de repente ele acharia o motivo de os próprios traficantes terem soltado fogos qdo os pms ACUSADOS foram presos -_-


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