O aplicativo Lulu e a reprodução do machismo

Aplicativo permite que mulheres avaliem seus amigos do Facebook; situação inédita estimula o debate masculino sobre a objetificação do ser

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Aplicativo permite que mulheres avaliem seus amigos do Facebook; situação inédita estimula o debate masculino sobre a objetificação do ser

Por Isadora Otoni

Ao tentar acessar o Lulu, os homens são barrados. Porém, existe a opção de remover o perfil do aplicativo

Lançado no Brasil no dia 20 de novembro, o aplicativo Lulu gerou uma polêmica em torno da objetificação masculina, problema do qual as mulheres são historicamente vítimas. No aplicativo, os homens são avaliados pelas suas amigas do Facebook com notas e hashtags em quesitos como: aparência, humor, educação, ambição, compromisso, beijo e sexo. As hashtags são padronizadas e divididas entre “melhor” e “pior”, sendo que “#PagaAConta” e “#TrêsPernas” podem ser consideradas o melhor do ser avaliado, e “#LoserFriends” é uma qualidade ruim.

Em um primeiro momento, o Lulu foi considerado um instrumento feminista, mas o aprofundamento do debate online mostrou que se tratava de uma reprodução de conceitos machistas, como o cavalheirismo e a própria objetificação. “Obviamente, ele não é um aplicativo feminista. Um dos conceitos principais do feminismo é a ideia da igualdade entre homens e mulheres, não de superioridade e não de reprodução do que os homens fizeram com as mulheres historicamente”, opina Bruna Giorjiani, do Coletivo Ana Montenegro.

Algumas análises sobre o aplicativo consideram legítima a oportunidade das mulheres avaliarem os homens. Isso porque se trataria da conquista de um direito igual, do empoderamento feminino e da compensação histórica. Bruna, no entanto, discorda: “Não é igualdade. Porque o conceito não é liberdade para reproduzir as opressões. Opressão nunca é bom. Ser oprimido ou ser opressor nunca é bom”.  A militante também teme a deturpação do sentido do movimento feminista: “Ele é muito perigoso para o senso comum e para o que as pessoas pensam sobre o que é feminismo”, diz.

“Ele [aplicativo Lulu] também é bem heteronormativo e homolesbotransfóbico”, opina Luka (Reprodução / Facebook)
Luka Franca, colaboradora do Blogueiras Feministas, aprofunda as críticas: “Achei o aplicativo bobo, na verdade. Parecia uma porta de banheiro do ensino médio. Ele também é bem heteronormativo e homolesbotransfóbico”.

Em troca, a notícia de um novo aplicativo surgiu na internet. Trata-se do Tubby, que promete avaliar o desempenho sexual feminino. “Aparecer o Tubby é meramente uma forma de pensar a questão apenas do empoderamento individual, e não pensar o como essa forma de objetificação e mercantilização das pessoas é algo estrutural da nossa sociedade. Isso é a mercantilização das nossas vidas e corpos”, argumenta Luka. Bruna completa: “Agora eles têm a desculpa de nos avaliar, porque nós os avaliamos primeiro. Mas isso é uma questão histórica muito maior”.

Mesmo que superficialmente, o aplicativo tem um ponto positivo: estimular o debate masculino sobre um problema predominantemente feminino. Apesar de não ter a pretensão de transformador social e não criticar a violência machista, o sentimento masculino de ser objetificado é inédito. “Realmente, é bom mostrar aos homens o que nós sentimos há séculos. Ainda que seja muito engraçado, por outro lado, tem limite. Se você pensar direito, não é algo a ser incentivado”, diz Bruna.



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3 comments

  1. outsider Responder

    Como é que é? Engraçado? Então você acha engraçado homens serem objetos de preconceitos? Acha isso um problema predominantemente feminino???? Porra, quer monopolizar a opressão agora, então, diga logo! Hipócritas! Desde que o aplicativo foi lançado, achei um absurdo e nem por isso vou baixar essa merda de Tubby. Mas pelo visto agora já sei o que as feministas pensam: “Oh, eles estão apenas provando um pouco do que fizeram conosco!” Sempre, sempre é assim. Tudo sempre tem que girar em torno do que vocês sentem. Tsc…hipócritas, hipócritas, hipócritas e, mais uma vez….hipócritas!

    1. outsider Responder

      Só quem é homem e se sente alvo das mais variadas formas de estigmatização social é que consegue sentir a merda que isso representa. Já ouvi muitas feministas dizerem que nós, homens, jamais conseguiremos compreender a condição da mulher justamente por termos valores da criação à qual fomos submetidos. Mas não ignorem o fato de que não somos robôs, e que existem aqueles que também experimentaram muitos conflitos – e ainda experimentam – somente porque não se situa nos padrões que a sociedade espera. Somente por não corresponder às expectativas que a cultura lhe faz pesar sobre a consciência.

      1. outsider Responder

        Assim, sob o mesmo raciocínio utilizado pelas feministas, eu digo: não achem que saberão dizer o que sentimos. Não ousem falar em nosso nome. Não, não ousem. Vocês são mulheres e jamais saberão o que pode ser, para diferentes homens, ser um homem.
        Provavelmente, algumas de vocês, hipócritas,dirão que o que faço é “mimimi”. Poderão me chamar de “loser”, “ressentido” ou “rancoroso”. Não me surpreenderei. Não é por isso que vou me desfazer de minhas convicções anti-sexistas. Nem espero coerência da parte de vocês, feministas – hipócritas.


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