Doentes mentais morrem nas mãos da polícia nos Estados Unidos

“As táticas que nos ensinam na academia nem sempre são as melhores para tratar alguém com crise”, reconhece um capitão da polícia de Filadélfia

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“As táticas que nos ensinam na academia nem sempre são as melhores para tratar alguém com crise”, reconhece um capitão da polícia de Filadélfia

Por Judith Scherr, da IPS/Envolverde

Pelo menos metade das 375 a 500 pessoas que morrem por ano pelas mãos da polícia nos Estados Unidos sofrem uma doença mental, segundo pesquisa dos jornais Portland Press Herald e Maine Sunday Telegram. Um desses casos é o de Kayla Xavier Moore, que sofria de esquizofrenia paranoica.

Pouco antes da meia-noite do dia 12 de fevereiro, o vizinho de Kayla Moore ligou para o 911, número de emergência que conecta polícia, bombeiros e serviços de saúde. Moore, de 41 anos, não havia tomado seus medicamentos e estava muito agitada. Seu vizinho pensou que a levariam para um hospital psiquiátrico, a medicariam e devolveriam para sua casa em 72 horas, como de costume.

Mas não foi o que aconteceu. A polícia da cidade de Berkeley descobriu que Moore tinha uma ordem de prisão pendente e decidiu detê-la. Quando os agentes tentaram algemá-la, ela, que também era afro-norte-americana, e transgênero, resistiu e morreu. O médico legal determinou que seu falecimento se deu devido a obesidade, consumo de drogas e doença cardiovascular, mas a família de Moore acusa a polícia.

Moore não protagonizou um distúrbio que representasse algum perigo, contou sua irmã, Maria Moore, representante dessa comunidade do Estado da Califórnia em uma reunião sobre o incidente. “Quando você coloca suas mãos em alguém esquizofrênico paranoico, que não confia na polícia, essa pessoa vai resistir”, afirmou. “Se os policiais tivessem parado por um minuto para ouvir e entender a situação, Kayla estaria viva”, acrescentou.

Kayla Moore, na foto com sua sobrinha, sofreu uma crise mental e morreu sob custódia policial.  Sua irmã, Maria Moore, lembra dela em uma comemoração por seu aniversário (Foto Doug Oakley/IPS)

Arthur Moore recorda o dia em que trouxe seu primogênito do hospital para casa e a alegria que Xavier trouxe à família (este artigo se refere a Xavier, em sua infância, com gênero masculino, e a Kayla, adulta, com o feminino). “Xavier sempre foi uma criança feliz. Qualquer coisa a que se dedicava fazia com muita alegria e intensidade”, recordou o pai, em uma entrevista em sua casa. “Tinha curiosidade por tudo”, acrescentou. Na medida em que crescia, Xavier se escondeu duas vezes por períodos prolongados, algo que a família depois considerou como um sinal de sua enfermidade.

Na idade adulta, Kayla Moore ouvia vozes inexistentes e muitas vezes preferia consumir drogas em lugar dos remédios. Conhecida por seus amigos e família como poeta, talentosa cozinheira e excelente imitadora, Moore viveu em abrigos, na rua, hotéis baratos, na casa da família e, por fim, em um apartamento subsidiado. Quando se instalava em um novo lugar, “de repente, pessoas invisíveis no apartamento começavam a persegui-la e ela era obrigada a se mudar novamente”, contou Elysee Paige-Moore, madrasta de Kayla.

Os relatórios policiais indicam que em princípio Kayla cooperou com os agentes na noite em que morreu, saindo do apartamento para falar com eles. Porém, quando lhe disseram que seria levada presa, correu para dentro e exigiu uma confirmação do Escritório Federal de Investigações (FBI). Os policiais pediram reforço para dominar Kayla, de 157 quilos, até que a colocaram de bruços sobre um colchão no chão. Vários agentes se colocaram por cima dela para algemá-la e prendê-la pelos tornozelos. Quando deixou de lutar, a colocaram de lado. De acordo com a polícia, nesse momento ela respirava, mas logo deixou de fazê-lo e não foi possível revivê-la.

Vários policiais de Berkeley fizeram um curso de 40 horas em Capacitação para Intervenções em Casos de Crise (CIT), mas nenhum esteve presente durante a detenção de Moore, e a Equipe Móvel para Crise, integrada por técnicos em saúde mental, já havia encerrado suas atividades às 23 horas. “Se for ter uma crise de saúde mental em Berleley, garanta que seja no horário de funcionamento do escritório”, disse o comissário de Saúde Mental da cidade, Paul Kealoha, em uma reunião comunitária. A CIT se baseia no princípio de que as pessoas que experimentam angústia devido a doença mental necessitam de compaixão e tratamento, não de prisão.

“As táticas que nos ensinam na academia nem sempre são as melhores para tratar alguém com crise”, reconhece o capitão da polícia de Filadélfia, Fran Healy, em Um Enfoque Integrado de Pacificação e Minimização do Uso da Força, publicado pelo Fórum Executivo de Pesquisa Policial. “Reiteramos aos nossos oficiais que devem desativar o ‘modo polícia’ nessas situações. A CIT dá aos agentes a consciência de quando têm que mudar seu enfoque e ativar mais o modo trabalhador social”, escreveu.

Iniciado em Memphis, no Tennessee, em 1988, o curso ensina aos agentes como reconhecer problemas de saúde mental, técnicas de pacificação e a forma de “derivar as pessoas com doenças mentais graves do sistema de justiça penal para o sistema de cuidados comunitários”, explicou Jeffrey Shannon, coordenador do CIT em Berkeley. Apenas 8% dos policiais de Berkeley têm treinamento CIT, mas Shannon espera que o número suba para 20%. A maioria das duas mil comunidades com esses programas só treina uma fração da força policial. A cidade de Portland, no Estado do Oregon, treina todo o departamento.

A colaboração com a comunidade de saúde mental é fundamental para a capacitação, opinou Laura Usher, diretora do programa CIT com a Aliança Nacional de Doença Mental, uma das organizações que criou o curso em Memphis. É uma parte do curso, as pessoas “só contam suas histórias, como é ter uma doença mental, estar em crise e o que se sente quando em recuperação”, contou. “Os agentes dizem que é a primeira vez que veem alguém com doença mental que não está em crise”, e se dão conta de que são pessoas como eles, afirmou.

Muitas comunidades têm Equipes Móveis para Casos de Crise integradas por profissionais de saúde que atendem pessoas com esse tipo de problema. A equipe de Oakland, na Califórnia, trabalha em conjunto com a polícia e está disponível nove horas por dia. Stephanie Lewis, que dirige a equipe, explicou que, quando a polícia recebe uma chamada dizendo, por exemplo, que uma pessoa está agitada ou gritando, primeiro confirma que a situação seja segura, depois os médicos tentam entrar em contato com a pessoa, chamando-a pelo nome que preferem, modulando seu tom de voz e, sobretudo, com respeito.

A colaboração com a polícia tem mais de dez anos, pontuou George Karabakakis, diretor da Health Care & Rehabilitation Services, a organização sem fins lucrativos que contrata o pessoal da equipe.

Em Berkeley, uma coalizão liderada pela Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor (NAACP), o grupo de direitos civis mais antigo dos Estados Unidos, reagiu à morte de Kayla pressionando as autoridades da cidade para implantarem equipes móveis de crise 24 horas por dia e limitando a participação policial em casos de saúde mental com situações de perigo. “Temos que dar sentido à morte de Kayla. Temos que conseguir alguma mudança nisto”, enfatizou Maria Moore.

Pedidos de ajuda que terminaram mal

No dia 6 de novembro, em Burlington, no Estado de Vermont, a mãe de Wayne Brunette chamou a polícia e lhes disse que seu filho, adulto, com histórico de doença mental, estava agindo de maneira irracional. O chefe de polícia disse ao jornal Burlington Free Press que, quando os policiais chegaram, Brunette saiu “com um pau comprido e pontiagudo e avançou ameaçador contra eles”. Dois minutos mais tarde, a polícia disparou e matou Brunette, pai de dois filhos.

Em maio deste ano, Else Cruz, de New Rochelle, Nova York, ligou para o 911 buscando ajuda médica para seu marido, que estava agitado. Quando os agentes chegaram, ela lhes disse que o marido sofria de esquizofrenia e transtorno bipolar, e que não estava armado. Minutos mais tarde, o homem morreu após receber disparos no peito.

Em 25 de setembro de 2012, Mohamed Bah, de 28 anos, estudante de finanças do Bronx Community College, foi morto a tiros pela polícia de Nova York no bairro do Harlem. Como em outros casos, o incidente aconteceu logo depois de sua mãe ligar para o 911 e pedir ajuda médica, esperando uma ambulância.



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