As ruas não pertencem mais à esquerda na França

Aquele período recente onde as ruas, os protestos e a insubordinação eram propriedade quase exclusiva da esquerda é agora uma fábula do passado

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Aquele período recente onde as ruas, os protestos e a insubordinação eram propriedade quase exclusiva da esquerda é agora uma fábula do passado

Por Eduardo Febbro, da Carta Maior. Tradução Marco Aurélio Weissheimer

“Onde estarão?, pergunta a elegia…” (Borges). Não estão. Aquele período de um passado recente onde as ruas, os protestos e a insubordinação eram propriedade quase exclusiva da esquerda é agora uma fábula do passado. Esses cenários urbanos pertencem à direita. Desde o ano passado são forças conservadoras que, em nome de diversos valores, ocupam as ruas que antes pertenciam à esquerda. As bandeiras vermelhas, os retratos do Che, os cânticos e os slogans anticapitalistas, os rostos e as mãos marcadas pelos rastros do trabalho ingrato foram desaparecendo das ruas de Paris. A esquerda não se mobiliza mais. Os novos proprietários das ruas são movimentos de direita agrupados em torno de múltiplos grupos que protestam com a obstinação e o estilo com que, certa vez, a esquerda soube fazer.

“Recuperemos a rua”, convoca em sua página na internet o Novo Partido Anticapitalista (NPA). Mas a rua está deserta. Nas colunas do jornal Le Monde, o cientista político francês Gaël Brustier sintetiza: “frente a uma esquerda cravada no solo, que não chega a ter influência na sociedade, o protesto passou para a direita”.

Desde que o presidente socialista François Hollande foi eleito em maio do ano passado, os grupos contestatórios da direita e da extrema-direita surgiram ao ritmo de leis votadas pela maioria socialista. A rapidez e a força com que estes movimentos ganharam as ruas surpreenderam não só a maioria governante como aos próprios partidos de direita, pouco habituados a fazer da rua seu território de reivindicação. Entre moderados e radicais, cerca de dez grupos nasceram no lado da oposição à tíbia e insossa socialdemocracia que governa a França. O mais importante deles, a “Manif pour Tous” (Manifestação para Todos), nasceu em agosto do ano passado. Criado por uma militante católica, Frigide Barjot, este movimento surgiu em oposição à lei da ministra da Justiça, Christiane Taubira, que legalizou o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo.

A Manif Pour Tous e Le Printemps Français se apresentaram como defensores dos valores da família (Reprodução)

Ao lado dele, cresceu um ramo dissidente, Le Printempos Français (A Primavera Francesa), igualmente oposta à lei da ministra. Entre novembro de 2013 e maio de 2013, ambos os grupos, aos quais se somaram a extrema-direita e pequenos grupos de ultra-católicos como Civitas, mobilizaram dezenas de milhares de pessoas. A partir dessas duas locomotivas reacionárias, foi se plasmando uma sólida frente de protestos em forma de uma galáxia dispersa que, a cada ocasião, apareceu no cenário político sem que os partidos afins a suas ideias tenham antecipado sua irrupção, ou, posteriormente, tenham aproveitado seu impacto. O ex-ministro Laurent Wauquiez, hoje deputado do partido de direita UMP, reconhece que “os manifestantes já não estão submetidos a nosso partido porque tem o sentimento de que não defendemos as suas reivindicações”.

Neste contexto, é legítimo assinalar que cada um destes movimentos que ocupam a rua defende interesses setoriais. A Manif Pour Tous e Le Printemps Français se apresentaram como defensores dos valores da família. Os “pigeons” estão formados por empresários do setor de alta tecnologia contrários a um projeto fiscal do governo; os “poussins” se levantaram contra a reforma do estatuto dos empresários autônomos; os “dindons” são das escolas contra a reforma dos horários escolares; os “moutons” contra o aumento da tributação para os independentes; os “dodos” se opuseram a uma mudança do regime dos taxis; as “cigognes” saíram às ruas para exigir uma mudança no estatuto das parteiras, enquanto que os “bonnets rouges” (gorros vermelhos) protestaram de maneira estrondosa contra um imposto ecológico, a “ecotaxa”, na região da Bretanha.

Este último movimento obrigou o governo a retroceder. O movimento dos “gorros vermelhos” é formado por agricultores e empresários da Bretanha. Seu nome remete a uma luta que ocorreu em 1675 na Baixa Bretanha contra o Rei de França que pretendia aplicar um novo imposto nessas regiões.

Ainda que todos sonhem com uma convergência final, estes grupos atuam de maneira local e setorial e, tirando seu engajamento contra os socialistas, não compartilham outra base. Uma ideia obsessiva os acompanha: provocar a renúncia do presidente François Hollande, a quem julgam débil, hesitante e sem legitimidade. Cada um deles é igualmente objeto da mesma recuperação: a extrema direita se junta a suas marchas e reivindicações e termina contaminando as premissas originais desses grupos. No entanto, de forma repetida e eficaz, estas queixas setoriais terminam por criar uma espécie de galáxia de resistência cidadã cujo cenário é a rua. Desfilam, em muitos casos, copiando a metodologia e o estilo das históricas manifestações da esquerda dos anos 60.

O cientista político Roland Cayrol observa que embora “não haja um corpo comum, os núcleos de contestação vão se agregando”. Esta adição e sua radicalidade deixam os partidos da direita, principalmente a UMP fundada pelo ex-presidente Nicolas Sarkozy, quase sem voz nem voto. A radicalidade das ações e a rua como cenário não pertencem à cultura política desse partido em geral, nem da direita francesa em particular. Liberais, católicos, extrema-direita, ultra-católicos, conservadores tradicionalistas, operários, artesãos, burgueses ou simples estudantes, a composição social destes novos atores da revolta é mista e rompe com as ideias de um aglomerado. A união global, por agora, não vai além de ações pontuais nas ruas.

Em uma ampla coluna de reflexão publicada no Le Monde, o sociólogo Serge Guérin e o geógrafo Christophe Guilluy estimam que “o que explode aos nossos olhos não é somente um modelo econômico, mas também nossas representações das classes sociais”. Os autores apontam a “emergência de uma contra sociedade que não acredita mais nos modelos antigos”. A análise é mais do que pertinente. No entanto, essa “contra sociedade” não se move mais para a esquerda e sim para a direita. A historiadora Chantal Delsol afirma que “a esquerda perdeu o povo”. A esquerda no governo ficou sonolenta e a esquerda militante e das ruas se diverte com jogos de videogames enquanto o povo de direita e de extrema-direita toma as ruas. Uma nascente revolução ao contrário perfeitamente encarnada no slogan declarado por seus integrantes: “um maio de 68 ao contrário”.

Uma densa maré conservadora mais radical que os próprios partidos que defendem suas ideias e sem opositores visíveis. Raramente há uma “contra-manifestação da esquerda. Sua ausência nas ruas se expande para o campo das ideias. As palavras e os valores vergonhosos são moeda corrente: negação do direito aos homossexuais, racismo, racismo biológico, antissemitismo, anti-islamismo, impugnação do direitos das mulheres, extremismos. Tudo isso circula como um bando de pássaros em pleno voo. E a esquerda, ou o que alguma vez foi esquerda, dorme o sono terno de suas mitologias enquanto a realidade inunda seus territórios.



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