Esse texto não é sobre o Lulu e o Tubby

Quem realmente acha que o Lulu está sendo um equilíbrio, uma revanche completa de toda a objetificação que as mulheres sofrem diariamente, nunca conversou com qualquer mulher

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Quem realmente acha que o Lulu está sendo um equilíbrio, uma revanche completa de toda a objetificação que as mulheres sofrem diariamente, nunca conversou com qualquer mulher

Texto de Felipe Pacheco publicado no Blogueiras Feministas

Estou faz tempo para escrever sobre isso. De toda a polêmica de Lulu/Tubby o que mais me incomoda – e assusta – é a noção do que é igualdade para alguns homens. Algo próximo ao nível de pensamento de uma criança de 12 anos.

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Tenho coletado vários exemplos de hashtags que vários caras disseram que gostariam de taguear as mulheres em um aplicativoinverso do Lulu. Algumas deles são: #BucetaFedida, #DáNoPrimeiroEncontro, #DáABunda, #DáDeQuatro, #FazComMaisDeUm, #MamaEuEUzamigos. Isso sem contar o que o Tubby já promete, como #EngoleTudo e #CurteTapas. Em todas as reclamações que vi de caras que davam exemplos de hashtags, não encontrei nenhuma que não fale de sexo.

Aí que começa o que tem me incomodado. Essa noção de “Putz, ela falou que uso Rider, deixa eu revidar falando que ela tem uma buceta fedida!” ou “Vadia, disse que eu valho menos que um pão na chapa. Vou lá escrever que ela dá a bunda pra todo mundo saber a putinha que ela é”. Uma coisa não é a revanche da outra, não. Existe até uma política do Lulu de, em coisas relacionadas ao sexo, ele fala bem, mas não fala mal. Tanto que #TrêsPernas existe e o #NãoFazNemCócegas já saiu na última revisão porque viram que não tinha a cara do aplicativo.

Nem preciso entrar no assunto da diferença da opinião pública entre o “homem bom de cama” – o que #CaiDeBoca, o #SafadoNaMedidaCerta – e a “garota boa de cama” – que #EngoleTudo, que #CurteTapas –, né? É só perguntar quantos caras gostariam de ser vistos com essas hashtags e quantas mulheres, considerando a sociedade “é puta” em que vivemos.

A mesma coisa com a visão do “homem objetificado”. Quem realmente acha que o Lulu está sendo um equilíbrio, uma revanche completa de toda a objetificação que as mulheres sofrem diariamente, nunca teve uma namorada ou nunca conversou com qualquer mulher. Nunca teve que acalmar uma garota que volta chorando de raiva depois de ser assediada na rua. Nenhum cara chega na garota no metrô, encosta o pau na bunda dela e fala em seu ouvido: “você tem uma carinha de quem curte Romero Britto”. Não, caras. Estamos bem longe de sofrer o que qualquer uma delas sofre.

A gente vive num mundo em que a garota que beija o brasão do time na camiseta e mostra sem querer o sutiã – SUTIÃ! – na transmissão do jogo de futebol vira piadinha não só na internet, como dos próprios comentaristas do jogo na televisão. Jornalistas que formam opinião, que deveriam ajudar na educação.

Aí, depois ainda tem gente que fala que o homem branco é quem sofre preconceito, que ele é injustiçado, que nada trabalha ao seu favor. Que é um absurdo existir Delegacia da Mulher, mas não existir uma para homens. Quem dera não precisar existir uma delegacia só para mulheres, é aí que teríamos igualdade. Não quando existe uma delegacia para mulheres e outra para homens, mas quando todos se tratassem como iguais a ponto de NÃO PRECISAR existir.

Ah! Ainda tem aqueles que acham que não precisa de Delegacia da Mulher mesmo. Ou pior! Aqueles que afirmam que, por causa da Lei Maria da Penha, por exemplo, “as mulheres os desrespeitam mais”. E não são poucos que pensam isso, não! 37%! MAIS DE UM TERÇO. Vale dizer que esses são, normalmente, os que dizem que “o homem só bate porque a mulher provoca” (29% dos homens). Isso sem contar os milhares de casos de estupro cuja culpa é da roupa que a garota usa e não do estuprador, né? E isso não é opinião de qualquer um não. É opinião de policiais, juízes, o que for, homens que definem as leis. Realmente… Não precisamos de delegacia para mulher.

É claro que, nas redes sociais, conversamos com gente com um nível de educação parecido e tal, onde “uma situação dessas seria improvável” (sic) e, por isso, acredito que muita gente tenha esse tipo de visão do que é o equilíbrio de direitos entre homens e mulheres.

Enfim, esse texto não é sobre Lulu, Tubby, nem nenhum outro aplicativo com vida útil limitada. É sobre essa visão distorcida de que o homem precisa de um Tubby, de uma delegacia para homens ou de qualquer outro artifício para “se defender das feminazi”, de que isso sim é igualdade. Ah vá, né cara? Uma dica? Conversa um pouquinho mais com as garotas que vc conhece, ouça suas histórias e pelo que passam todos os dias.

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Felipe Pacheco é publicitário e trabalha com planejamento em redes sociais. Apaixonado por viagens, abandonou a agência para ter a liberdade de viver em qualquer lugar do mundo. Este texto foi originalmente publicado em seu perfil no Facebook.



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18 comments

  1. Yuri Almeida Responder

    Gostaria só de problematizar uma coisa sobre a Lei Maria da Penha e a Política Criminal Brasileira. Embora a mesma tenha nascido de uma ideia nobre, será que tem eficácia plena? Atento para os seguintes pontos: Falta de conscientização sobre a existência da lei e como ela funciona; brechas na técnica de escrita da mesma; mulher utilizando esta lei por revanchismo; falta uma política de médio-longo prazo para tratar do assunto (ou então de publicidade da dita política). Se fazer lei resolvesse o problema, a lei de crimes hediondos teria acabado com o homicídio, o tráfico e o estupro. Não estou dizendo que o texto disse que resolve, apenas problematizando o pensamento que as pessoas tem sobre a Lei Maria da Penha.

  2. Thais Linhares Responder

    Ei, Felipe. Bem colocado. Acho que eu estava em outro planeta (melhor que este) pois estava por fora desta polêmica toda. A frase de ouro sua foi: “Quem realmente acha que o Lulu está sendo um equilíbrio, uma revanche completa de toda a objetificação que as mulheres sofrem diariamente, nunca teve uma namorada ou nunca conversou com qualquer mulher.” – que também poderia ser: nunca amou ou foi amado, daí ser recalcado e misógino. Seria de dar pena, não fosse o fato desse ódio arraigado ser a causa de tanta violência irracional. Uma pergunta que valeria fazer a cada um destes machistas revoltados seria: prefere uma mulher que lhe ame ou uma que lhe odeie? Pois da forma como ser comportam, deveriam todos morrer virgens de coração. Bom mesmo será o dia em que inventarem uma identificação para esses tipos: meninas, mantenham distância! Quem sabe assim ficarão todos felizes, e sós.

  3. Raphael Coraccini Responder

    Vale lembrar que as hash tags do Lulu já estavam criadas. Não acredito que, nesse mundo de cretinices exista um menos tolo que o outro. As babaquices femininas são tais as babaquices masculinas. Como diz Freud, “quando João fala de Pedro, João fala mais de João do que de Pedro”… serve igualmente para Maria.

  4. Steffanie Responder

    Ai, finalmente alguém que não sai por aí falando um monte de besteira sem nem ter realmente pensado sobre isso.

    Um garoto com quem estudei a vida toda e eu acreditava ser uma pessoa bem educada, com uma visão de mundo aberta, inteligente, postou no facebook falando sobre as garotas que estavam dletando seus perfis criticando-as! Quando falei sobre o direito de casa uma de não ter sua imagem exposta o garoto se revoltou, deletou meus comentários, visto que várias de suas próprias ~amigas~ haviam curtido e ainda me deletou da rede social. rs

  5. Hique Responder

    Quanta asneira.

  6. Mônica Laís Storolli Responder

    Felipe….obrigada!! adorei a clareza do seu texto!!

  7. Patrícia Responder

    Tenho me perguntado muito sobre o quanto do machismo é, na verdade, pura infantilidade. Estou me referindo aos homens em específico quando questiono isso, embora saiba muito bem que é praticado por mulheres. Explico: entre si, homens tb tomam atitudes infantis. Em escritórios, se um se destaca e os outros ficam com inveja, surgem comentários de ordem… Sexual. “É viadinho”, “Isso só pode ser pau pequeno”, e coisas afins. Não que mulher não tenha suas infantilidades, também tem, e muita. Mas tenho me perguntado, pelos comportamentos que leio e vejo, se muito, mas muito mesmo do que se discute, não é mais infantilidade do que machismo. O que mais me salta a vista é a incapacidade de muitos caras de se conterem, eles simplesmente não acham que precisam fazer isso. E não é só com mulheres. Junto, vem a incapacidade de aceitar frustração.

  8. Lucas C. Responder

    boring!!!

  9. Guest Responder

    Objetificação é objetificação. Não tem maior ou menor. As mulheres sofreram e sofrem? Claro! Mas daí tirar a relevância de algo que tenta categorizar, acima do gênero, o ser humano, é limitar-se ao valor político do aplicativo. Querem justificar ou dizer “não é tão ruim perto do que as mulheres sofrem”. É ruim perto do que as mulheres sofrem, sim, porque é opressão, e opressão não se compara; se destrói!

  10. Rafael Jubelini Responder

    Textinho mequetrefe

  11. Andressa Mendes Figueiredo Responder

    concordo com tudo.. mas tb acho q nem esse lulu deveria ter existido! Nós mulheres exigimos respeito e temos o direito a tê-lo, mas os homens tb o merecem, e esse lulu convenhamos que não os dá nem um pouco! algumas futilidades na vida são benéficas, mas essa futilidade (leia-se lulu) passou longe de ser algum benefício.

  12. Angel Paiva Responder

    Engraçado como todo mundo que está criticando o texto ou dizendo que ‘objetificação é objetificação’, ‘é tudo a mesma coisa’, ‘babaquices masculinas e femininas são iguais’ é…. homem! Oh que surpresa! Mais uma prova de que o Felipe está certo: homens não sabem nem nunca vão saber o que uma mulher passa todos os dias. Parabéns ao Felipe e a outros que eu conheço por pelo menos tentarem.

  13. Marcos Jacoby Responder

    Senão vejamos.
    Se eu não der umas tiradas a mulherada fala à boca pequena que eu nem valho a pena. Se dou em cima sou tarado. Se faço sexo sem invencionices sou massante, sem graça, etc. Se invento mil e uma posições sou sádico e por aí vai…
    Então a mulherada acha ruim levar cantada todo dia e ter a homarada em cima delas o tempo todo?
    Quero ver o que fariam se simplesmente as ignorássemos!
    Temos que ter meio termo?
    As mulheres também tem que ter.
    Agora o problema é saber o que é meio termo prá um homem e prá uma mulher.
    E isto genéricamente falando, porque o que é meio-termo prá mim pode não ser pro meu irmão, meu amigo, colega, vizinho, enfim…..
    O grande problema que a homarada não se deu conta ainda é que mulher não se empiriquita toda por causa dele. Ela fz isso é prá mostrar prás outras que ela tá podendo ou pode mais.
    E aí começa a competição entre elas e os babacas ficam achando que estão abafando quando na realidade tão valendo tanto quanto um vibrador.
    Tirando uns abestados, a homarada até entra nessa do eu tenho o carro mais potente, mais veloz, etc mas por uma questão de competitividade entre lees, não para atrair mais mulheres.
    Já as mulheres competem entre si pra ver quem consegue o cara mais bambambam ou que vai com mais caras ou que deixa mais caras no chinelo que as outras…
    Homens competem entre si para mostrar para uma ou mais que tá na ótica dele valendo mais a pena.
    Mulheres competem entre si prá mostrar prá eleas mesmos a que pode mais saindo ou ficando com ou o mais mais ou com a maior quantidade.
    Simples assim…
    A mulher objeto é para o homem o seu sonho para realizar suas fantasias sexuais, principalmente de dominante. Pode até contar vantagem com os outros, mas não é o motivo principal ou não é o único. Sempre tem o desejo de fazer ao menos sexo com uma mulher.
    O homem objeto é só um objeto, como se fosse uma jóia, um vestido ou qualquer outro item qualquer prá mostrar prás rivais que tem poder de fogo. Se vai rolar ou não pode até nem ser o fator, inclusive podendo ser uma briga de foice prá ver qual consegue engatar mais manés e dar um belo pé-na-bunda do cara. Tem até competição prá ver qual dá o melhor fora.
    Tem portanto um abismo entre mulher-objeto e homem-objeto.
    Só que a cosia é sempre vista pela ótica do garanhão reprodutor e cada dia que passa a mulherada se dá conta e se aproveita disso. Ainda leva umas rasteiras mas está cada dia mais atrevida.
    Quem mandou enfiar na cabeça delas que o ideal é sair dando? Agora elas estão competindo prá ver quem dá mais…..

  14. '-' Responder

    Acredito que a maioria das mulheres que utilizam o tal aplicativo Lulu, e reclamam e falam varias asneiras dos caras por ai, nunca, repito, NUNCA, foram assediadas na porra de um metrô, levou cantada de pedreiro na rua (porra até isso os miseráveis não fazem mais com medos de serem presos), nunca sofreram tentativa de estupro, violência doméstica, desprezo por serem mulheres e blablabla. Você, mulher que se dá o valor, que tem ética e moral, que faz o que faz dentro de 4 paredes e ninguém precisa ficar sabendo, que se respeita em dadas as circunstâncias (e não venha me falar que ficar bêbada e pagar peitinho pra geral numa festa é normal e é direito das mulheres, pq se um cara sai pelado no meio de uma festa vocês ficam horrorizadas), que é uma MULHER de verdade, e não uma vagabunda maria gasolina medíocre, não deveria dar a mínima e nem estar se preocupando com tais aplicativos, aliás, uma mulher mesmo nem se utilizaria de tal aplicativo e usar isso como pretexto para continuar a discussão homem x mulher e dar mais movimentação e ibope para blogs, jornais e afins na internet. Homens tem que ter limites, mulheres também. Isso se chama respeito.

  15. KUKU Responder

    Dois aplicativos inúteis que não servem para nada além de escrotizar o ser humano. – só virgem usa isso –

  16. outsider Responder

    Felipe, você é tão compreensivo. Já deixou de assistir a uma partida de futebol na TV, com seus amigos, para dividir a louça com sua namorada? Aposto que não. Desconfiem quando um homem fala do feminismo ignorando a opressão diária à qual o homem também se submete. E se você, Felipe, é incapaz de vê-la, então, parabéns, pois você figura entre os privilegiados e “bem resolvidos”. O resto? Ah, para você, o resto é só um bando de “virgens”, “inseguros”, “losers”, “recalcados” ou apenas “se cobram demais”. Não merecem ter suas inquietações levadas a sério. Certamente têm problemas. Não é isso, Felipe?

  17. Jeferson Responder

    Mulheres e homens discutindo machismo e feminismo mais uma vez. Muita gente falando de opressão, de direitos iguais, como se sofressem perseguição a vida toda. Mulheres, chega desse papo de machismo, hoje vocês tem direito defendido por lei a tudo que o homem tem e inclusive com leis específicas a vocês, parem de falar que sofrem isso ou aquilo sendo que a maioria de vocês que está aqui nunca sofreu um abuso grave sequer. Homens também sofrem discriminações, são julgados, sofrem assaltos, são assassinados a sangue frio, são espancados, e nem por isso estou aqui com um pensamento machista radical defendendo o direito do homem sem julgar e analisar fatos concretos. Se a mulher é exposta na mídia com imagem pejorativa infelizmente é por que as mulheres estão se vendendo para isso, não joguem a culpa em nós, cada um tem que saber o que faz de sua vida. O começo da igualdade é parar de se achar inferior ou menosprezado, se estão sofrendo algum abuso conheçam homens de bem e de respeito primeiro, mudem essa sua vida, afastem-se de pessoas ruins que podem ser tanto homens como mulheres, isso não depende do sexo, não generalizem todos os homens pelos casos de agressão que vocês assistem na TV ou ouvem falar. Só depende de vocês ter uma vida melhor com pessoas de valor, parem de julgar todos e serem tão radicais, comecem analisando a vida que vocês levam e pensando como mudar e ser uma pessoa melhor.
    Quanto ao assunto abordado no texto, minha namorada e eu acessamos para ver como funciona esse aplicativo, e uma garota com quem me relacionei tinha me avaliado, minha namorada ficou bastante incomodada com isso mas graças a deus ela é madura o bastante para entender que foi antes de conhecê-la e que isso é futilidade. Excluimos meu perfil e tudo ficou bem, mas posso com certeza afirmar que nem todo mundo reagirá da mesma forma que ela, e isso poderá estragar muitos relacionamentos. Esse aplicativo não agrega nada de bom e fere os direitos de privacidade descritos na constituição, pois sua conta é criada sem seu conhecimento ou consentimento. Infelizmente é a cultura que é difundida hoje, julgar e invadir a privacidade dos outros se tornou algo divertido e lucrativo. Mas não generalizem também, dizendo que o mundo de hoje está perdido e que a inversão de valores não tem volta, não esqueçam que a poucos séculos atrás pessoas eram queimadas vivas em praças públicas ou perseguidas e mortas por expressarem suas opiniões, regredimos em alguns aspectos sim mas evoluímos em muitos outros.


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