Detalhes tão pequenos da cobertura sobre corrupção

Pode parecer picuinha de quem se dedica a observar a imprensa, mas na verdade a localização de uma notícia pode determinar as possibilidades de maior ou menor repercussão

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Pode parecer picuinha de quem se dedica a observar a imprensa, mas na verdade a localização de uma notícia pode determinar as possibilidades de maior ou menor repercussão

Por Luciano Martins Costa, do Observatório da Imprensa

Os jornais paulistas de circulação nacional – Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo – publicam em suas editorias de Política as reportagens sobre o caso de licitações fraudulentas no sistema de transporte por trilhos na região metropolitana de São Paulo e, nos cadernos de assuntos locais, o escândalo da chamada “máfia dos fiscais”. O Globo, do Rio de Janeiro, publica o noticiário sobre os dois escândalos na mesma seção País, que apresenta os assuntos de política.

Na Folha, as notícias de política são agrupadas no primeiro caderno, sob a designação genérica de Poder, enquanto os assuntos locais ficam no caderno Cotidiano. No Estado, política está em Política mesmo, e os assuntos da capital estão na seção do primeiro caderno chamada Metrópole.

Aparentemente, não há motivos para chamar a atenção do leitor ou leitora para esses detalhes tão sutis da organização dos jornais. Afinal, dirão alguns, tanto faz se um assunto está no começo ou no fim de um caderno, ou se questões de administração pública saem misturadas a notícias sobre o efeito das chuvas de verão.

(http://www.flickr.com/photos/62693815@N03/)

Só que, na realidade, não é bem assim. Não há escolhas aleatórias na organização do noticiário. Empresas jornalísticas costumam fazer pesquisas contínuas para analisar o efeito de seus produtos noticiosos, porque precisam desses dados para acompanhar a repercussão das escolhas editoriais entre os leitores. Até mesmo o preço dos anúncios é diferenciado, não apenas de acordo com o número de pessoas que são atraídas para determinada área do jornal, mas também conforme o nível de atenção produzido por cada seção de notícias.

Quando os editores responsáveis definem que um escândalo estadual deve sair na seção de Política e um escândalo municipal vai para o noticiário local, é porque encontraram boas razões para isso. Mas essas razões não serão, necessariamente, aquelas do interesse do leitor.

Muitos haverão de se perguntar, por exemplo, o que diferencia um caso de corrupção envolvendo autoridades estaduais de um escândalo envolvendo autoridades municipais. Não seria tudo, afinal, corrupção, ou seja, casos de mau uso do poder político?

Em banho-maria

Na quarta-feira (11/12), por exemplo, o Globo traz no primeiro caderno, na seção País, a notícia de que a Justiça Federal em São Paulo enviou ao Supremo Tribunal Federal o inquérito sobre a prática de cartel no sistema metropolitano de transportes, com suspeitas de pagamento de comissões, porque há indícios de envolvimento de deputados federais no escândalo. Na mesma seção sai também publicada a reportagem contando que o Ministério Público cruza dados de empresas e pessoas físicas suspeitas de pagar propina a auditores em troca da redução do Imposto sobre Serviços.

Já os jornais paulistas separam os dois assuntos, mantendo o noticiário sobre o cartel de trens no primeiro caderno, com as questões nacionais, enquanto o caso de pagamento de propinas na Prefeitura é publicado junto aos assuntos locais.

Diriam, aqueles que gostam de simplificar as coisas, que, para um jornal carioca, questões paulistas são temas nacionais, portanto, faz sentido que estejam todas elas concentradas na seção País do Globo. Mas, como explicar a segregação das duas pautas nos jornais paulistas, se são igualmente casos de corrupção?

Em condições normais de umidade e temperatura política, a imprensa tem por norma fazer o noticiário convergir para seus protagonistas, quando todas as informações lhes dizem respeito. Da mesma forma, se integrantes de um determinado partido são acusados de um crime na esfera federal, outros crimes a eles atribuídos, sejam estaduais ou municipais, são agrupados no mesmo pacote de reportagens.

Não seria o caso de considerar que os dois escândalos apontam para a mesma direção, ou seja, para o grupo político que governa o Estado de São Paulo há vinte anos e que governou a Prefeitura da capital até o ano passado?

Pode parecer picuinha de quem se dedica a observar a imprensa, mas na verdade a localização de uma notícia pode determinar as possibilidades de maior ou menor repercussão.

Esses detalhes tão pequenos de todos os dias é que vão definir se um acontecimento vai virar tema de escândalo nacional ou se vai ser cozido em banho-maria no noticiário local até cair no esquecimento.



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