Karol Conka: Vou fazer rap e ser mulher

As músicas e histórias de Karol Conka compõem o mais belo e singelo retrato de combate não violento ao machismo e ao racismo. “É como se meu disco fosse um remédio. Cada letra, cada música eu fiz pensando no que vivi e escrevendo pra...

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As músicas e histórias de Karol Conka compõem o mais belo e singelo retrato de combate não violento ao machismo e ao racismo. “É como se meu disco fosse um remédio. Cada letra, cada música eu fiz pensando no que vivi e escrevendo pra mim, me colocando no lugar das pessoas, o que eu gostaria de ouvir de uma artista negra”

Por Pedro Alexandre Sanches

Esta matéria faz parte da edição 127 da revista Fórum.

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“Terminou? Agora lava a louça.” Estamos num rap torto, de levada soul. A intérprete-compositora terminou de descrever como governa seu próprio prazer, como comanda o namorado no sexo, como direciona o parceiro sexual segundo seus próprios desejos e preferências: “Dá o que eu mereço sem hesitar/ capricha no começo pra firmar/ mostra o que tem pra me oferecer/ se eu achar que tá bom vai permanecer.” A letra de “Que delícia” já acabou, mas ainda há o recado final ao parceiro, seguido por um saboreado riso derradeiro: “Terminou? Agora lava a louça.”

(Karla Gironda)

Karol Conka, rapper excêntrica, paranaense de Curitiba, atualmente com 26 anos, assina em “Que delícia” mais uma subida de degrau no palácio do hip-hop nacional. Uma tradição feminina vem sendo garimpada com discrição e sob dificuldades por nomes como Dina Di, Sharylaine, Negra Li, o grupo Atitude Feminina, Nega Gizza, Carol (do grupo Realidade Cruel), Cris (do SNJ), Shirley (do Ca.Ge.Be), Lurdez da Luz, Quelynah, Dryca Rizzo. Com Karol, as mulheres do rap conquistam posição de sujeito desejante, autônomo, audaz, afirmativo.

“As minhas letras passam um raio feminista, né?”, ela constata durante nossa entrevista num café em São Paulo. “E eu não sou. Ou então eu sou e…” É claro que você é, eu discordo. “Acho que eu sou. Acho que eu sou. Sou realmente assim. ‘Eu comando, meu amor.’ ‘Meu querido, terminou? Agora lava a louça’.”

A frase da louça ela gravou no mesmo dia em que a havia proferido para o namorado atual (e chileno). “Ele lava a louça pra mim, porque fico com a unha toda descascada quando lavo”, ri Karol, que acaba de apresentar ao público brasileiro seu álbum de estreia, Batuk Freak. “Tem o santo forte e a proteção dos orixás/ (…) nunca quis pilotar fogão, lampião/ ela arrasa pilotando coração/ voa sem ter asa”, rima o parceiro Rincon Sapiência, em participação especial no ragga-rap “Sandália”. Talvez sejam meros tijolos protofeministas, mas convém nunca esquecer que estamos falando de um edifício que já foi estrita e hostilmente masculino.

O componente racial se mistura e interpenetra com o feminino no discurso e na música de Karol, nascida num bairro periférico da capital de um estado e de uma região silenciosamente percebidos pelos brasileiros como os mais brancos e “europeus” do país. “A princípio, eu não pensava em cantar rap”, explica. “Já sabia que queria ser artista, entrei pro teatro do colégio, minha mãe me colocou no balé contemporâneo. Mas aí conheci o rap, levada pelo primeiro namorado. Entrei naquele universo e achei sensacional. Só estranhei a maneira que eram as meninas no rap. Achei estranho não ter muitas mulheres como exemplo, e, quando tinha, elas se masculinizavam. Aquilo me deixou um pouco incomodada. Saí dali com uma vontade tipo ‘vou fazer rap e vou ser mulher’.” Diz que não sabia se ia ser aceita da maneira que era, “de saia e rímel”. Mas foi assim que decidiu se impor.

Pelo que conta, chegou outsider num circuito outsider de uma cidade outsider para um circuito cultural que finge ser integrado apenas por Rio de Janeiro e São Paulo. “Não tinha contato com ninguém, não era amiga de ninguém, não tinha rabo preso com ninguém, não pegava ninguém. E as meninas ficaram no veneno comigo. Começaram a me chamar de ‘vagabunda’, ‘essa menina dá pra todo mundo’. Eu tinha 16, 17 anos e era toda puritana, virgem. Não sabia do que estavam falando.”

Karol traz pistas da pedreira de encontrar um caminho próprio num mundo não exatamente amistoso. “Vi que tem muito preconceito no rap. Sofri preconceito dentro do rap, não por ser mulher e nem por ser negra, mas por ser alegre, cômica. Numa época, me vi tentando forçar um lado mais Mano Brown. Mas não consegui.”

Um largo intervalo separa a adolescente “puritana” da rapper sexualizada, linda e de discurso livre (ouça e veja o videoclipe de “Gandaia”, por exemplo). Nesse tempo, aconteceu uma guerra épica, entre o desejo íntimo autoafirmativo e um mundo inóspito e beligerante ao redor. “Fui me sentir melhor, alguém que presta, depois que me dediquei à música”, revela. “Dizia à minha mãe que ia ser artista, e era muita gente me falando: ‘Não, você não vai’. Pus na minha cabeça que nada ia me bloquear, nem o pensamento negativo das pessoas.” No disco, a faixa “Você não vai” afronta simbolicamente todos os nãos que sempre ouviu: “Meto os meus pés na estrada e enfrento o que vier / justamente por ser mulher e não ser uma qualquer/ minha atitude carrega vitória/ vou te lembrar disso sempre que eu puder..

Havia um pai e houve um filho entre o momento 1 e o momento 2. “Meu pai era uma pessoa muito alegre e sorridente, minha mãe também, minha família inteira. Ele era muito alegre, cômico, mas tinha um grande problema: era alcoólatra, o que dificultava o relacionamento de pai pra filha. Achava ele tão querido, tão herói, por que tão bêbado?” Desde criança, Karoline dos Santos de Oliveira virou “Karol com K” (porque havia uma Caroline com C na mesma sala de aula). “Foi meu pai que escolheu meu nome, e fez questão de pôr o K. Falava que tinha que ter, porque o K é mais bonito”, recorda.

A conversa toma feições de depoimento, em diversas passagens: “Sou do Alto Boqueirão, perto da Cohab. Hoje moro no centro de Curitiba, pra facilitar o trajeto. Sofri muito preconceito. Fui me sentir bonita sendo negra quando entrei pro rap. Eu me sentia bonita negra só em casa, na família, porque meu pai enchia minha bola.”

Mas, Karol, você SABIA que era linda, não sabia? “Na verdade, não. Achava que eram minha mãe e meu pai falando. Mas chegava no colégio e queria que o menininho me olhasse como ele olhava minhas amigas, e ele não me olhava. Um dia, cheguei da escola e falei pro meu pai: ‘Um menino me chamou de feia. Você fala que eu sou linda, mas eu sou feia. Ele falou que eu sou preta’. Meu pai falou: ‘Não, quem falar que você é feia tem problema.’ Fiquei a vida inteira acreditando nisso, até hoje. Se alguém acha alguma coisa, falo: ‘Sou linda, sou poderosa, sou negra. Ele é que tem problema’.”

Os pais se separaram quando Karol tinha 11 anos. Quando tinha 14, o pai morreu, sufocado no próprio vômito – tinha 34 anos. A mãe, até hoje funcionária pública na prefeitura de Curitiba, levou a família adiante. “Meu pai era parecido com Seu Jorge. Quando vi Seu Jorge na televisão, chorei muito: ‘Meu Deus, meu Deus, é o meu pai’.”

Aos 19 anos, Karol teve Jorge, seu primeiro (e único) filho, com um namorado que, diz, é hoje seu melhor amigo. “Na hora pensei: ‘Acabou todo o meu sonho. Vou cair numa depressão, vou engordar e vou cuidar da casa’. Mas pensava: ‘Não, tive um filho agora pra poder viver uma carreira mais além’. Fiquei dois anos me dedicando para o Jorge, sendo mãe. Deixei o resto de lado. E, quando voltei, voltei com muita vontade, de ser, fazer, acontecer alguma coisa.”

Essa “alguma coisa” é uma carreira artística suada, que precisa ser revalidada todo dia, dia após dia: o dia de lançar disco próprio, o dia de ganhar prêmio de “revelação”, o dia de lançar o inspirado videoclipe celebratório de “Toda doida” (do projeto dance-funk-rap Boss in Drama): “Quiero besar tu boca/ a negrita tá doida.” Todo dia, afirma, é dia de se lembrar que é preciso não se deslumbrar com os cantos de sereia.

E houve, também, o dia de conversar olho no olho com Seu Jorge. “Foi no VMB, não aguentei: ‘Seu Jorge!, você é lindo!’, comecei a chorar. ‘Desculpa, Seu Jorge, você me lembra meu pai’. E ele: ‘Que bacana, como faço pra conhecer seu pai?’ Falei: ‘Morrendo’”, diverte-se.

O pai (e não só ele, mas toda a família) resta homenageado na faixa final de Batuk Freak, uma regravação samba-rapper de “Caxambu”, clássico do partideiro Almir Guineto – que, na opinião de Karol, a gravou “chumbalhado” em 1986. Os erês do candomblé dançam ao som do batuque freak, sob o combustível perigoso do álcool (“nossa, quem vê pensa que eu vivo bêbada”, constata, sozinha, a certa altura).

O cabelo que não jogava

(Lucas Costa)

O fato me parece até inusitado diante de toda uma cultura de tabus, mas Karol gosta muito de conversar sobre preconceito, racismo, machismo, homofobia (“o que mais gostei é do público gay nos meus shows”). Não são poucas as histórias de dor que tem para contar – e todas surgem suavizadas (se é que isso é possível) por largo sorrisão.

“O que mais me impressiona hoje, vendo o passado, é como o professor atrapalha no processo. Ou ele se omite diante de uma situação de preconceito ou rejeição, ou ele participa ativamente daquilo. Eu tinha um cabelão enorme, black, e minha mãe fazia trancinhas. Ia toda linda pro colégio. Tinha uma professora muito sacana, que um dia tirou todas as trancinhas. Eu tinha 5 anos, me lembro até hoje dela rindo e das crianças rindo muito, e eu chorando, porque não queria que soltassem meu cabelo.”

Karol explica, para si própria e para cada um de nós, por que insistimos em negar bravamente as discriminações que (todos) sofremos: “Muitos negros falam que nunca viram preconceito em Curitiba, ‘nunca sofri’. Na verdade sofrem, só que é tão ruim que a pessoa apaga e não quer falar que sofreu. Tive uma professora que falava: ‘Todo mundo senta. E você também, sua macaca.’ ‘Eu não sou macaca.’ Nisso, todo mundo ria e batia na carteira: ‘Macaca! Macaca!’. E ela falava: ‘Tá, chega, gente. Senta, Karol. Vamos lá.’ E continuava a aula tranquilamente. Mas ela não via que tinha aberto um buraco dentro de mim. Eu ia pra casa, me sentia linda. Ia pro colégio, me sentia feia.”

O espinheiro a atravessar foi trocando de nome: infância, adolescência, vida adulta. “Com uns 18 anos, fui pro Colégio Estadual do Paraná, onde um professor de artes chamado Sérgio assumiu o racismo dele na sala de aula. Falou que o brasileiro é vacinado contra o preconceito e que negro não raciocina, um monte de asneira. Disse, olhando pra mim: ‘Veja essa criatura. O que resta para os negros? Ou jogar bola ou cantar ou virar Pepê & Neném.’ Ele era racista de propósito, falou que ia levar livro de filosofia de Hitler. Fiquei tão indignada que fiz barraco. Ele dava aula de argila, comecei a sujar ele de barro, deixei marrom. E ele: ‘Estão vendo? É assim que um negro se comporta.’ Acabou me ensinando a ter mais classe ao me defender sozinha, porque você perde a razão se passa dos limites.”

A emergência do racismo explícito acabou por alavancar a emergência da artista: “Foi ali que acabei tendo uma visibilidade maior, porque fiz um poema sobre o que aconteceu, e descobriram, foi usado em outros lugares. E comecei a fazer música, tudo ao mesmo tempo.”

Outra história do passado expõe como arte e violência podem se confrontar e se confundir: “Quando fazia balé contemporâneo, eu era a única negra. As coreografias legais eu não fazia, porque não tinha o cabelo pra jogar. Meu cabelo era duro, então ele não jogava. ‘Professora, por favor, uma peruca, qualquer coisa’. ‘Não vai dar, vai destoar, Karol.’ ‘Vai destoar o quê?’. ‘É que você é escurinha, vai destoar das meninas.’ Olhei a coreografia, todas bem brancas, eu pensava: ‘É verdade. É mesmo, né? Vai destoar’. Eram dez meninas, e uma delas andava acordando as outras e elas bailavam. Eu pensava: ‘Por que eu não sou essa uma que acorda as outras?’. Pra que separar? Pra que achar que vai destoar? Aí parei o balé.”

Não pensemos que histórias tenebrosas como essas pertencem ao passado. Elas estão acontecendo exatamente agora, na curva dos tempos e dos preconceitos que (des)unem uma tia e uma prima de Karol. A primeira, no passado: “Minha tia abandonou a escola, irritada com tanto xingamento. Era muito quietinha, acho que guardou tanto que descontou tudo de uma vez num menino e o espancou. Ele foi parar no hospital. E nunca mais ela foi pro colégio.” A segunda, no presente, mais uma vez fazendo Karol remeter a si própria. “Ajudo muito a minha priminha, que tem 8 anos e não quer mais ir pro colégio. Assim como eu, ela pedia pro Papai Noel pra ser branca. Quando eu era pequena, cheguei a me molhar de água sanitária e fiquei esperando reagir na pele, porque um menininho falou pra eu tomar banho de água sanitária.”

Assim como não se define feminista, Karol também afirma não ser militante racial. Não percebe – ou melhor, percebe e faz de conta matreiramente que não – que suas músicas e histórias compõem o mais belo e singelo retrato de combate não violento ao machismo e ao racismo. Mas quem dirá que não está plenamente consciente disso? “É como se meu disco fosse um remédio. Cada letra, cada música eu fiz pensando no que vivi e escrevendo pra mim, me colocando no lugar das pessoas, o que eu gostaria de ouvir de uma artista negra.”

Temos de chegar a “Trepadeira”, o samba-rock-rap suprageracional entre Emicida e o veterano Wilson das Neves (baterista da banda de Chico Buarque), que despertou ira devido a um teor suposta e/ou factualmente misógino. “Adoro essa música. Achei sensacional. Está falando uma verdade, tenho várias amigas trepadeiras assumidíssimas. Que mal tem falar trepadeira? Que mal tem a mulher ser trepadeira? Qual é o problema de a mulher gostar de dar? A mulher não é menos porque gosta de dar. Dê”, declara-se.

Karol faria um rap em resposta a “Trepadeira”? “Então, eu tenho. Já tem um ano que escrevi, é ‘Maracutaia’ [declama]: ‘Só na maracutaia, não pode ver uma saia/ ao invés de aplausos ele recebe uma vaia.’ É meio tirando sarro de um amigo meu que é muito mulherengo, ‘pensa que apavora/ as mina doida dá e ele comemora/ assim que é, assim que é/ em vida de vadio não se deve pôr a colher.’” Conta que o amigo não apreciou a conversão masculina que fez ao imenso universo de xingos misóginos. “Meu amigo ficou assim: ‘Ai, Karol, não acredito que você fez isso, você está me ofendendo, me chamando de vadio.’ ‘Mas é assim que você é!’”, cutuca.

Já classificada como “Criolo de saias”, Karol volta à carga na autoafirmação feminina. Trata-se de uma designação machista, não? “É bem machista. Fico honrada por ser o Criolo, que é fantástico, mas, por outro lado, por quê? Por que tem que ser sempre o ‘alguém de saia’? Por que não posso ser eu?” A pergunta é, em si, uma resposta certeira e precisa. Lavemos a nossa própria louça. F




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2 comments

  1. Wesley Lobo Responder

    Vráaaaaa!!!!! Karol Conka arrasando demais.
    Adorei ler um pouco da história dela. Todos arrasaram. Parabéns também ao redator da matéria. Muito bem elaborada e descrita. Lavaremos nossa própria louça. De preferência ouvindo Batuk Freak no volume máximo!
    Vô ali pegar sabão,

  2. kuka Responder

    beijos fortes
    beijos abraços
    enjajados
    engajados
    sua sempre gaúcha paulistinha betty crazy é nós na fita
    TE AMO


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