Em São Paulo, movimentos sociais promovem Copa Rebelde contra a Copa de 2014

Em São Paulo, 32 times se enfrentaram para se contrapor à elitização do futebol e à gentrificação dos bairros pobres

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Em São Paulo, 32 times se enfrentaram para se contrapor à elitização do futebol e à gentrificação dos bairros pobres

Por Roberto Brilhante, na Carta Maior

(Foto: Roberto Brilhante)

“Já pensou se tivesse isso aí todo domingo? Pra que deixar um terreno desses abandonado, cheio de mato, cheio de lixo… Podia ter criança brincando aí… Dinheiro pra Copa eles têm, mas pra cuidar aqui do bairro não aparece um”, dizia o dono do bar em frente ao que sobrou da antiga estação rodoviária, no bairro de Campos Elísios, centro de São Paulo. No último domingo (15), o terreno, baldio no dia a dia, foi palco da primeira Copa Rebelde dos Movimentos Sociais, que reuniu 32 times formados por homens, mulheres e crianças de diversas ocupações, coletivos e organizações políticas paulistanas e nacionais.

10 minutos, cinco na linha e um no gol, a arbitragem ficando por conta do entendimento entre as equipes. E assim gente de diferentes classes, cores, gêneros e orientações políticas fizeram um ato lúdico e político para se contrapor à elitização do futebol e à gentrificação dos bairros pobres de São Paulo, processos intensificados em tempos de Copa do Mundo. O time do Movimento Passe Livre em campo contra as máfias dos transportes e a favor de um verdadeiro direito de ir e vir; o da Marcha da Maconha jogando contra a criminalização da cannabis; o da Marcha Mundial das Mulheres driblando o machismo; o da Frente de Luta por Moradia na marcação cerrada contra o latifúndio urbano; o da Comissão Guarani Yvirupa dando um nó nas táticas dos ruralistas, e tantos outros levando suas bandeiras ao campo.

A escolha do local para a realização do torneio possui claramente um sentido político – o bairro de Campos Elísios, pejorativamente apelidado de “cracolândia”, é um dos principais cenários das disputas travadas entre a população e o capital especulativo na cidade de São Paulo. Uma das últimas regiões centrais disponíveis para a construção de empreendimentos imobiliários, Campos Elísios tem sido alvo de ações do poder público que visam “valorizar” os terrenos para o lucro das empreiteiras e a acentuação do processo de financeirização das moradias, no qual imóveis que deveriam possuir um valor social passam a ser encarados como ativos financeiros sujeitos a valorizações futuras.

O projeto “Nova Luz” – um dos principais projetos da gestão Kassab e que foi engavetado pelo atual prefeito, Fernando Haddad – era a expressão máxima da especulação imobiliária.

Consistia na desapropriação de dezenas de terrenos para que, dentro de uma parceria público-privada, os espaços fossem “revitalizados”. A suposta revitalização causaria um processo massivo de aburguesamento (ou, como costuma-se dizer, “gentrificação”): supervalorização dos imóveis, aumento dos aluguéis e expulsão daqueles que não podem arcar com os aumentos para as periferias da cidade.

Apesar do projeto Nova Luz não ter seguido adiante, outros projetos, como o do Complexo Cultural – Teatro de Dança (planejado para ser construído justamente no terreno da antiga rodoviária) ameaçam a população da região de ser expulsa pela força do capital especulativo. O Complexo, propagado como um empreendimento que trará desenvolvimento cultural e econômico à região, na verdade acarretará uma série de despejos. O problema está longe de ser a construção de aparelhos culturais, obviamente. A questão é que empreendimentos luxuosos como esse são instrumentos importantes dos processos de segregação do espaço urbano.

Outra face nefasta dos interesses econômicos na região é a da brutalidade policial contra os dependentes químicos em situação de rua (evidenciada pela mídia somente durante as operações policiais catastróficas do início de 2012, mas que são uma constante na vida destas pessoas). O intuito de dissolver a “cracolândia” através da força policial fracassou, e os dependentes químicos, que num primeiro momento se espalharam por diversas regiões da cidade, voltaram a se concentrar nas regiões da Luz, construindo inclusive uma série de barracos ao longo das grades que cercam o terreno da antiga rodoviária.

A presença dos moradores de rua usuários de crack na região é um dos principais entraves para sua valorização. Mas essa presença, em vez de ser tratada como um problema social e de saúde pública, tem sido criminalizada.

A realidade do Campos Elísios é uma realidade percebida no Brasil todo nestes tempos de Copa do Mundo. A construção de estádios e aparelhos públicos que possibilitarão a realização dos eventos tem desalojado milhares de famílias e causado impactos sociais muito pouco discutidos. Uma pesquisa intitulada “De olho nos direitos de comunidades atingidas por megaprojetos de impacto urbano e ambiental”, realizada por Paulo Romero, membro do Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico revela que “o processo de implementação da Copa do Mundo de futebol no Brasil serviu como ‘catalizador’ para acelerar e justificar uma série de obras e intervenções que há muito vinham sendo planejadas”.

Muito se fala sobre o legado que a Copa do Mundo de 2014 deixará para o Brasil. Mas qual será o legado a ser deixado pela Copa Rebelde dos Movimentos Sociais? Talvez a ideia de que as comunidades carentes de espaços para a prática esportiva são capazes de se organizar para promover um outro tipo de revitalização. Talvez também o da ideia de que somos capazes de realizar nossas próprias Copas, nas quais o sentido da prática esportiva não está em um ufanismo exagerado patrocinado pelos conglomerados financeiros, mas sim na possibilidade de compartilhar nossas crenças através dos elementos lúdicos do futebol.



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