No caso de Romário e modelo transexual Thalita Zampirolli, a transfobia ultrapassa o affair

Esqueceram de dizer para o ex-jogador e deputado que ninguém nasce mulher, torna-se mulher

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Esqueceram de dizer para o ex-jogador e deputado que ninguém nasce mulher, torna-se mulher

Por Neto Lucon, do Blog NLucon

Preconceito gera preconceito: Thalita que acha ofensivo um beijo LGBT em público e 
Romário que não considera mulher uma mulher transexual (Reprodução/Facebook)

“Transexual sai com Romário e diz: ‘Somos amigos bem íntimos’”, diz a chamada do jornal O Dia desta terça-feira, 17, mostrando uma foto da modelo Thalita Zampirolli de mãos dadas com o ex-jogador. Num primeiro momento, pensei: E daí? Não é de hoje que sabemos que belas travestis e mulheres transexuais se envolvem com jogadores. Depois, pensei que o romance assumido de uma trans com um ídolo do futebol poderia contribuir com a causa trans e para a naturalização do relacionamento – que geralmente cai no amor clandestino ou “na pegadinha do Mallandro”. Até que lamentavelmente vi a enxurrada de transfobia (ou despreparo) sendo derramada pela publicação, pela própria trans, por Romário e pelos leitores – muita gente na minha própria timeline compartilhando com deboche.

Primeiro, o jornalista tratou do affair como se fosse o acasalamento da mulher macaca. Perguntas óbvias como ‘Rola beijo na boca?’ ou agressivas e insistentes como ‘Qual é o seu nome de batismo?’, ‘Mas você tinha um primeiro nome, não é?’, ‘Ninguém diz que você é transexual… Ou diz?’ foram despejadas em cima da modelo. Questões que certamente não teriam o menor cabimento se o jornalista não estivesse munido da ideia de que o relacionamento com uma trans fosse digno de piada. Ou de que uma mulher transexual nada mais é que uma mulher e que tais perguntas destinadas a uma pessoa que lutou pela identidade feminina são no mínimo desrespeitosas.

Depois, senti meus ouvidos doerem com as respostas despolitizadas e munidas apenas de vaidade de Thalita – algo comum em algumas mulheres transexuais, que após passarem pela cirurgia de redesignação e mudança de documentos decidem viver apenas da passabilidade cisgênera, renegando a condição trans. Tanto que, ao receber o elogio de que tem a voz feminina, ela diz que por causa de sua aparência prefere viver de forma diferenciada, longe das lutas LGBTs e da prostituição. ‘Sou criticada por não apoiar manifestações LGBT. Eu vivo em outro mundo. Não apoio. Muitas manifestações pedem respeito, mas você vê hoje em dia nas paradas gays muita falta de respeito. Eles se beijam [???], transam na areia… Não apoio isso. Trabalho com vários gays, eles têm um padrão de vida diferente da maioria e poderiam pedir respeito de forma diferenciada”.

O que Thalita não poderia imaginar – talvez por ser “diferenciada” e não estar informada sobre o cenário T no Brasil (e este é um direito dela, mas infelizmente o mundo é um só) – é que Romário, seu amigo íntimo, fosse manifestar contra o romance público e negar tudo, dizendo que ‘ela não é mulher’ e que, por esse motivo, não teria rolado nada entre eles. Em seu Facebook, o ex-atleta alegou que Thalita é gente boa, sangue bom, é sua camarada, mas garantiu que certamente ‘casamento não iria rolar’, soltando uma gargalhada logo em seguida. ‘Disse que respeito o gosto pessoal de qualquer pessoa, mas volto a afirmar: eu gosto de mulher!’, escreveu.

“Ela é sangue bom, mas eu gosto de mulher”, disse Romário (Wikimedia Commons)

Surgiram ainda a onda de comentários espinhosos abaixo da entrevista. ‘Quem diria o Romário pegando traveco…kkkk’, ‘Doutor Romário dando o ré no quibe’, ‘Quem diria… Romário que sempre foi um cara ‘machão’… Nada contra a opção homossexual, mas a gente se surpreende quando descobre que uma pessoa do perfil do Romário faz essa opção’. Um feedback claro de como a transfobia está presente no discurso, de como uma mulher transexual não tem a sua identidade feminina legitimada, de como o órgão genital ainda é visto como o destino, e de como uma transexual é percebida como um homem querendo se passar por quem não é. Ou seja, “uma farsa que deve ficar somente entre quatro paredes – jamais em público”.

Porém, esqueceram de dizer para Romário (e para muita gente) que ninguém nasce mulher, torna-se mulher [como bem disse Simone de Beauvoir] por uma construção social e física. Esqueceram de dizer que a transexualidade não é o mesmo que homossexualidade e que o genital não define o gênero. Esqueceram de dizer ainda que a atração sexual não se explica, não é digna de questionamento e muito menos de deboche. Por fim, esqueceram de avisar a todos que (um pouco) de informação, respeito e consciência política faz bem para a sociedade em geral. Inclusive para nós mesmos e para a quebra dos nossos preconceitos internalizados, que nos fazem reproduzir muitas vezes o discurso do opressor.

Afinal, enquanto ficamos presos a esse tipo de desserviço na mídia, Thalita continua considerando o beijo LGBT em público um desrespeito, Romário continua querendo abafar o relacionamento com uma transexual e deslegitimá-la como mulher, o leitor continua propagando as suas fobias na rede. E o que poderia ser uma linda história de amor, se transformou em mais uma triste manifestação de transfobia e outros preconceitos. E o pior: de todos os lados.

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20 comments

  1. Sonia Januario Responder

    parabens Neto Lucon… excelente texto e ponto de vista perfeito!!!!! Nao suporto qq tipo de preconceito e o Romario me decepcionou muito nesse episodio….

    1. Hique Responder

      Mas você está sendo preconceituosa com relação ao cara. Ele não se nega sequer a andar DE MÃOS DADAS com a amiga trans dele, e ainda assim é “preconceituoso”?

      Quer dizer que eu, por ter amigos gays, eu sou OBRIGADO a gostar de me relacionar homoafetivamente? Essa discussão já ultrapassou todos os patamares da falta de bom-senso.

      1. Liziane Zanetti Responder

        Ninguém está obrigando o Romário a ter uma relação homoafetiva.
        A questão é que a Thalita É MULHER independente do sexo biológico que lhe foi atribuído ao nascer. E ela é uma MULHER HETEROSSEXUAL, portanto quem tiver uma relação com ela não terá uma relação homoafetiva, mas sim uma relação heterossexual.
        Não sei se foi falta de informação ou se foi homofobia, mas a colocação dele ao dizer “eu gosto de mulher” foi infeliz, pois a Talita É mulher!!! Simplesmente!

        1. Roberto Brito Arcanjo Responder

          TRANSEXUAL É MULHER? DESDE QUANDO?

      2. solange. Responder

        É verdade, esta história de preconceito já esta ultrapassando o limite da verdade. Ele não é obrigado a se relacionar com ele só para mostrar que não tem preconceito. É só uma questão de gosto, ele não gosta e pronto, mas respeita como tal..

  2. Hique Responder

    Quanta babaquice num post só. Quer dizer que eu, por não curtir mulher ruiva eu sou “ruivófobo”? Ou se uma mulher chega pra um cara e diz que não curte nerds é “nerdófoba”? Ele tem todo o direito de não curtir gays, lésbicas ou transexuais.

    E, para seu governo ninguém se torna mulher. A menos que altere seu código cromossômico. Quanta sandice.

    1. João Rodrigues Responder

      Mulheres ruivas ou nerds passam por algum tipo de luta diária para serem aceitas? Têm dificuldade de arranjar emprego, de se aceitarem? São escondidas do meio público? São alvo de chacota o tempo todo? Você realmente acha que é minimamente comparável a cor do cabelo de alguém com a identidade de gênero?
      Não confunda as coisas, meu caro. Todos temos o direito de gostarmos ou não de algo, afinal isso não se escolhe. Mas quando lidamos com “grupos” historicamente hostilizados, há que se refletir muito melhor sobre nossas opiniões.
      Quanto à segunda afirmação, bem… interpretação de texto básica é tão importante quanto biologia; tenha isso em mente.

      1. solange. Responder

        só para completar, os nerds lutam sim para mostrarem que são pessoas normais, passam por constrangimentos e são muitas vezes hostilizados, a própria palavra nerd já é usada de forma preconceituosa.

    2. Gabril Albanez Responder

      sabias palavras

    3. Deivid Filipe Responder

      Acho que você deixou escapar algumas das entrelinhas do texto e lhe falta alguma reflexão sobre o assunto.

      Primeiro, ”mulher” é um termo cuja definição já abre muita discussão. Oque é uma mulher? o termo pode definir uma função social, uma identidade sexual, um individuo fêmea da especie humana entre outros. Em todo caso, pra todas essas definições existem nuances, das quais falar aqui não é muito usual. Trocando em miúdos, é possível sim se tornar mulher e eu diria que existem varias formas de se tornar mulher.

      Segundo, oque o texto afirma é que a fala do Romário, assim como a sua, nega esse direito de fluidez na identidade sexual das pessoas. ninguém criticou as preferencias de ninguém, mas sim o entendimento equivocado sobre elas.

  3. josehrio Responder

    Texto meio confuso, o que dá pra entender é que o cabra macho lá ds terra do RC virou mulher e quer aparecer, e para isto precisa de machões do tipo pegador…
    ela é parceira de muitos, como diz o Deputado, então, ser mulher é eternamente dar pra quem quiser…
    este aí que fala mal de Ronaldo e de Pelé, parece que gosta de uma viola escondida…mesmo que a viola não tenha maios nenhuma corda…
    tá na cara, falou mal, leva o troco algum dia.

  4. josehrio Responder

    As tendências humanas são dificeis de explicar, porém as preferências são iguais e fáceis de compreender… se Ronaldo gosta por que Romário não gostaria também?

  5. Marco Túlio Carvalho Responder

    Nossa… Parabéns pelo excelente e esclarecedor texto. Assunto mais bem pontuado, impossível.
    Basta de hipocrisia! Abaixo o preconceito, seja ele qual for!!!

  6. Sam Responder

    Parabens as Thalita. Essa revista Forum e muito boa em tirar toda potencia politica que ela tem, por que e literal,não ve entrelinhas e segue essa gramatica do politicamente correto,que higieniza e homogeniza e portanto exclui qualquer singularidade pessoal,por ela ter um codigo moral particular que não se encaixa nesses discursos de agenda, o escritor desse texto reproduz o mesmo pensamento do preconceituoso, pq segunda a eugenia dos “ativistas” o corpo dela pra se torna um corpo politico ela tem que ter o discurso homogenizante, na logica dos ativista a contradição não pode existir,nem nossas potencias como seres humanos ridiculo esse texto ,abaixo a esse tipo de “minoria”,.

  7. Allysson Navaggio Responder

    Eu acho graça da autoridade pelos quais o texto foi escrito e pelos quais as pessoas aqui nos comentários DETERMINAM suas posições! “Ela é isso, ela é aquilo”… Grupos “rivais” vem até aqui determinar suas posições e respalda-las em nada além de poesia.

    Não há inocentes em nenhum dos lados, nem do tal jornalista que fez perguntas maliciosas, nem do autor do texto que interpretou da maneira que quis, nem do ciclano ou beltrano que jura de pés juntos que a ciência já alcançou o patamar de transformar inquestionavelmente um homem em uma mulher e vice-versa…

    Ninguém respeita ninguém e o ativismo digital continua sendo uma piada. “Sem graça”…

  8. Carlos Vieira Filho Responder

    um “homem” dizendo que ninguém nasce mulher, torna-se mulher, mulher nasce mulher, homem nasce homem, fora disso é hermafrodita…não tem outra escolha!.

  9. Ahvah Responder

    Na boa, pode chamar do termo que quiser, mas não de mulher. Para eu, se não for XX, é macho que cortou o pinto fora e acabou.

  10. SOPF Responder

    Eu não tenho nada contra os transexuais, acho que cada um tem o direito de mudar o que não tiver satisfeito, seja a cor do cabelo ou o sexo; mas verdade seja dita, para um cara com fama de “mulherengo” como o Romário sempre teve, isso deve ter sido “o fim” pra ele, bem feito, foi merecido!

  11. Rukiafan Rukiachan Responder

    kkkk, pegaram o romario no fraga!!!1 kkkkkkkk

  12. kau Responder

    Não h[a cirurgia que faça o centro de gravidade do corpo de um homem se deslocar para o lugar que ocupa no corpo de uma mulher. Seria preciso trocar pélvis inteira para isso. Portanto todo transexual, para efeitos de gravidade, continua sendo um homem.


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