Espionagem da NSA é econômico-financeira

Só haverá real pressão para que se construam sistemas seguros de comunicação por internet quando as empresas descobrirem que o próprio bem-estar delas depende disso

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Em declaração, a NSA negou que algum dia tenha espionado para beneficiar empresas norte-americanas (National Security Agency/Wikimedia Commons)

Só haverá real pressão para que se construam sistemas seguros de comunicação por internet quando as empresas descobrirem que o próprio bem-estar delas depende disso

Publicado em Moon of Alabama: “The NSA’s Economic Spying Slowly Comes Into View”. Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu em Redecastophoto

Continua a publicação de segredos da Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA, em inglês). Guardian,Spiegel e o New York Times noticiam os esforços para ouvir novas conexões por satélite. Foram feitos testes contra uma “base de dados alvo” (partitial), e seus resultados revelam o que contém aquela “base de dados alvo”.

Lá estão organizações internacionais como a Unicef, organizações não governamentais como Médecins du Monde, altos funcionários da União Europeia, empresas, como a gigante de petróleo Total e a indústria Thales de eletrônica e equipamento militar. Lá estão também muitos chefes de Estado e instituições estatais, além de alguns ditos “terroristas”. Alguns dos números alvos foram obtidos de funcionários dos EUA, que partilharam com a Agência de Segurança Nacional dos EUA seus caderninhos privados de telefones.

A espionagem que a Agência de Segurança Nacional dos EUA faz, de todos os telefones nos EUA, ajudou decisivamente a evitar ZERO casos de ataques terroristas,o que é muito diferente dos 54 casos de que falou a Agência.

A lista real de alvos internacionais tampouco visa, primariamente, a espionar “terroristas”, como diz a Agência. E duvido muito de que vise, principalmente, a espionar políticos ou entidades políticas.

Estou convencido de que, quando se souber mais, saberemos que a maioria dos alvos são entidades econômicas, e que essa é a razão real da tempestade internacional que se está formando contra a espionagem internacional da Agência de Segurança Nacional dos EUA. Observem que o palavreado que a NSA usa, para responder perguntas sobre espionagem econômica e comercial e financeira, é sempre mais elaborado, e inclui mais conversa fiada, sempre que a pergunta surge.

Aqui, por exemplo, um trecho da matéria do NYT acima referida:

Em declaração, a NSA negou que algum dia tenha espionado para beneficiar empresas norte-americanas.

“Não utilizamos nossas capacidades e competências de inteligência estrangeira para roubar dados comerciais secretos de empresas estrangeiras em benefício de – nem cedemos inteligência coletada por nós a – empresas norte-americanas, para aumentar a competitividade delas ou ampliar sua área de manobra” – disse Vanee Vines, porta-voz da NSA-EUA.

Mas ela acrescentou que alguma espionagem econômica justificou-se por necessidades da segurança nacional.

Os esforços da comunidade de inteligência para entender sistemas e políticas econômicas, e para monitorar atividades econômicas anômalas, são críticos para prover os políticos com a informação de que carecem para tomar decisões bem informadas que visam ao melhor interesse de nossa segurança nacional” – disse a sra. Vines.

Como alguém algum dia detectará “atividades econômicas anômalas”, se não espiona rotineiramente as atividades econômicas “normais”? Bobagem. A frase enrolada, aí, revela a verdade sobre as reais atividades da Agência.

Há também a história das atuais atividades de espionagem:

Os documentos examinados também sugerem que a dragnet satélite é provavelmente uma continuação da legendária rede Echelon de vigilância global, que foi objeto de investigação por uma comissão do Parlamento Europeu em 2000.

No relatório final, em 2001, os investigadores europeus apresentaram imensa quantidade de provas de que muita espionagem industrial acontecera através da rede Echelon (…).

Quando a porta-voz da Agência de Segurança Nacional diz “[não] cedemos inteligência coletada por nós a empresas norte-americanas”, a pergunta imediata tem de ser: a quem, então, a Agência entrega a tal inteligência “econômica” e a quem essa entidade (provavelmente a CIA, como no caso dos dados da rede Echelon) entrega aqueles segredos?

Só haverá real pressão sobre políticos não-norte-americanos para que se construam sistemas realmente seguros de comunicação por internet, quando as empresas, nos vários países, descobrirem que o próprio bem-estar delas depende disso.

Com novas revelações sobre a Agência de Segurança Nacional dos EUA ainda por vir, é muito provável que se veja que o aspecto comercial, econômico, do escândalo da espionagem norte-americana – e a reação das partes que realmente têm muito a perder nesses “negócios” – é uma das principais questões, se não a parte principal, de todo esse affair.



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