Os muitos olhares das manifestações

Durante os protestos capitaneados pelos professores na capital fluminense, diversas expectativas e anseios se misturavam na multidão. Confira alguns desses sentimentos e pontos de vista

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Durante os protestos capitaneados pelos professores na capital fluminense, diversas expectativas e anseios se misturavam na multidão. Confira alguns desses sentimentos e pontos de vista

Por André Lobão. Fotos Mídia Ninja

Esta matéria faz parte da edição 128 da revista Fórum. Compre aqui.

Mais um dia de manifestações nas ruas do Rio de Janeiro. Na caminhada entre a Lapa e a Candelária, lojas fecham as portas e pessoas saem mais cedo do trabalho num misto de alegria e desconfiança sobre o que virá a seguir. Tapumes são colocados nas portas dos bancos. Policiais estão enfileirados em vários quarteirões.

Para Alexandre Rozemberg, a beleza e a importância do Black Bloc está no fato de, ali, haver causas que vão além das pedidas por faixas e cartazes das manifestações

Tudo demonstra que as coisas continua­riam exatamente como vinham acontecendo desde o início das manifestações na cidade, em junho. Dessa vez, o movimento não é mais pelos 20 centavos, mas sim a já clássica luta de professores municipais e estaduais por melhores condições de trabalho. Junto a isso, a revolta pela ação policial ao longo das manifestações. Se houvesse um hino para a repressão, poderia ser a primeira frase do funk de Valeska Popozuda: “Aqui é tiro, porrada e bomba”.

Apesar da apreensão que multidões cercadas pela polícia sempre causam, a chegada à Candelária é tranquila. Por volta das 17h, professores, vendedores ambulantes, policiais, jovens black blockers e muitas, muitas pessoas com câmeras fotográficas e de vídeo se misturam à voz que já começa a sair do carro de som. É o começo da passeata. E tudo parece, até ali, uma massa única, da qual a maioria se orgulha em fazer parte.

Não sou Black Bloc

Máscara no rosto, cabelo moicano estilo Neymar e 17 anos de idade. “Você é black blocker?”, perguntamos. “Não. Eu sou do movimento punk”, responde “Mancha”, um garoto franzino de Campo Grande, zona norte do Rio. Cercado de amigos que formam uma espécie de time ao redor dele, Mancha afirma que, nas quatro manifestações de que participou, seu intuito nunca foi o de depredar o patrimônio ou atacar a polícia. “Nós fazemos sempre uma passeata pacífica. Quando nós quebramos, reivindicamos. Quando vamos contra eles, quando atacamos com paus e pedras, é porque a gente está se defendendo”, explica. Anarquista, Mancha diz que não tirou seu título de eleitor.

Dessa vez, o movimento não é mais pelos 20 centavos, mas sim a já clássica luta de professores municipais e estaduais por melhores condições de trabalho

Em sua análise, um dos grandes problemas da política brasileira é o movimento midiático que vem em torno dela. “A única coisa que eles sabem é colocar a mídia sensacionalista como a Globo, Band e todas essas mídias para influenciar as pessoas e acabar com a sua ideia [sic]. As pessoas vão porque querem. Mas nós viemos para resistir. Nós somos uma parte pequena.”

Quando lhe perguntamos se ele acredita no Brasil, Mancha não hesita em responder: “Eu não acredito no Brasil, não sou nacionalista. Acredito no povo, acredito na nossa resistência.” Fim de entrevista, e o garoto de Campo Grande segue a multidão: cercado dos amigos, máscara no rosto, moicano na cabeça e com apenas 17 anos de idade.

Guerra Fria

Do outro lado da Candelária, Renato Fialho conversa com amigos sob o coro das vozes que ecoa cada vez mais na concentração da passeata em meio ao caótico trânsito na confluência da Avenida Presidente Vargas com a Avenida Rio Branco. Com uma camisa vermelha estampando as letras CCCP, iniciais em russo da antiga União Soviética, o professor do estado Renato Fialho é mais um descontente.

Desconfiado, ele recebe um pedido para um depoimento. Sociólogo, é freudiano ao explicar o contexto da insatisfação coletiva dos dias de hoje. “Existe hoje um mal-estar geral na sociedade causado pelas políticas neoliberais. Essas políticas estão avançando de uma forma muito forte no mundo inteiro e acho que o Brasil não é a exceção”, argumenta.

Em seguida, Fialho recorre ao velho fantasma da Guerra Fria. “Os EUA têm mais de mil bases militares espalhadas no mundo inteiro, por quê? Para que tanta violência ou tanta ameaça pairando sobre o planeta inteiro? A gente está à beira de uma guerra nuclear”, diz, em tom alarmista.

“A mídia está emanando esse mantra do vandalismo e da destruição da cidade, mas acho que as pessoas têm que analisar direito o que está acontecendo”, acredita Thiago Santos

Para o professor, 2014 será um ano-chave no caldeirão partidário e político do Brasil. “Com a Copa do Mundo, é óbvio que o clima vai se acirrar. Vem um ano eleitoral, então há interesses eleitorais também dos partidos, muitos partidos que estão aqui só estão por causa da eleição. Agora, acho que devemos ser inteligentes, enquanto povo, para não permitir nenhum tipo de manobra dos eleitoreiros e nem dos que estão no poder há 510 anos, que querem impedir que a gente continue nas ruas”, conclui ele, que dá aulas há dez anos no ensino médio carioca.

O cortejo cidadão e diverso segue rumo à Cinelândia com gritos de ordem e cantos: “Ei, Cabral vai tomar no c..”. Há até uma bandinha do tipo charanga tocando mambo e marchinhas. Portando trompetes, saxofones, tumba e tarol, entre outros instrumentos, seus músicos animam e dão o tom na marcação alegre dos protestos.

No meio da multidão

Na imensidão da calçada, na Avenida Rio Branco, muitos passam e param para ver e aderir à passeata. Trabalhadores do comércio, office boys, secretárias, gente de todo o tipo. O advogado Mauro Marques é um deles. Reflexivo, ele faz um diagnóstico sobre o perfil de quem vai às manifestações. “São pes­soas de classe média ou, ainda que não componham a classe média, têm um nível cultural mínimo. Os governantes ainda detêm uma grande influência sobre as grandes massas excluídas, e esses ainda não estão participando das manifestações”, avalia, refletindo sobre a ausência do “povão”.

Marques é confiante em relação à mudança do cenário eleitoral e político em 2014. “Espero uma reviravolta muito grande nas eleições. Sem dúvida, haverá uma mudança no quadro eleitoral em 2014. A classe política que se perpetua no poder ao longo tempo terá surpresas no pleito do ano que vem”, acredita.

Samba, manifesto e futebol

A passeata é a favor dos professores e da educação, mas as faixas e cartazes sobre outras reivindicações começam aparecer em profusão. Tem até gente reclamando do seu time de futebol, no caso, o Vasco, que vive atualmente o drama de um novo possível rebaixamento no campeonato brasileiro deste ano. O “Fora Dinamite, eu quero um Vasco de verdade” é mais um desses cartazes empunhados em meio a tantos outros. O surreal fica engraçado no contexto da seriedade da manifestação. Faz parte…

Se tem o bloco negro para proteger a manifestação, tem também os defensores do bloco do cassetete, bomba de efeito moral e da ordem do Estado. Ela chega de mansinho, maquiada e com brincos grandes no formato de argola. De roupa azul, carrega um cartaz da mesma cor, em que está escrito apenas “PEC 300”, a proposta de emenda à Constituição que propõe igualar os salários dos militares estaduais de todo o Brasil (ativos e inativos) aos salários dos militares do Distrito Federal, trazendo assim isonomia aos profissionais que desempenham a mesma função. Maria Helena se apresenta como viúva de um oficial da Polícia Militar do Rio. Pede para falar, quer mostrar que está indignada com a repercussão contra a PM do Rio sobre os confrontos com os black blockers. “A categoria está sendo massacrada pela população e por falta de informação. Tudo isso por causa dos Black Blocs e também por vândalos que estão aderindo às passeatas. Os policiais querem trabalhar, o próprio movimento da PEC é muito injustiçado”, diz, afirmativa e quase chorosa.

Black Bloc é lindo

Final de caminhada. Na Cinelândia, em frente à Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, muitas pessoas ocupam a praça. Um vaivém de gente e a sensação de que, dali, não há muito para onde fugir. Black blockers se enfileiram nas escadas da Câmara como se protegessem a “casa do povo”. Sobem nas janelas, hasteiam bandeiras e estendem faixas. Não há policiais. Mas há defensores da causa indígena, jornalistas e um grupo de teatro que faz uma intervenção silenciosa.

No meio deles todos, Alexandre Rozemberg, músico. Alexandre, que observa a concentração dos Black Blocs com um amigo, começa nossa conversa dizendo: “Acho lindo isso aqui”, e aponta para as escadarias da Câmara tomada por garotos e garotas, todos de máscaras. Para ele, a beleza e a importância do Black Bloc está no fato de, ali, haver causas que vão além das pedidas por faixas e cartazes das manifestações. “A impressão que eu tenho é que eles estão lutando por uma coisa de vida, lutando contra algo que eles não aguentam mais. Eles lutam contra essa coisa opressora que é a sociedade. Por isso que eles quebram os símbolos que acham interessantes”, diz, quase encantado com o que vê.

Para 2014, a previsão do músico não é das melhores. Com a Copa do Mundo, acredita que as manifestações vão se intensificar. “Isso porque a Copa vai acontecer de qualquer jeito. E o povo vai para a rua, custe o que custar”. Cigarro aceso, Alexandre puxa o amigo e diz: “Fala com ele. Ele vai saber o que dizer.”

Desafiante

O amigo em questão é o também músico e professor de História Thiago Santos, de 27 anos. Tímido, apesar de frequentar palcos e estar acostumado a falar para plateias (de alunos), Thiago reluta em falar. Mas cede ao papo. E quando fala, o professor faz um balanço quase sociológico do que faz toda aquela multidão sair às ruas tantas vezes, mesmo com toda a violência da polícia nas manifestações.

“O Rio de Janeiro tem uma tradição em protestos de rua e, junto a isso, o governo do Rio é muito peculiar. Principalmente na questão do autoritarismo. E acho que esse autoritarismo acaba agregando a população contra o próprio governo.” Para Thiago, o que estamos vivendo na cidade já gerou mudanças práticas no cotidiano. “As pessoas falam de política o tempo todo agora”, reflete. E, assim como Alexandre, Thiago se coloca a favor dos Black Blocs. “É muito complicado falar de Black Bloc. Mas o que posso dizer é que muito da raiva que tenho do Estado, do que o Estado faz comigo, está nas pedras que os black blockers jogam.” E o professor emenda: “Eu gostaria de ver alguém ir a uma emissora de TV e falar do vandalismo que o Estado faz com o bolso do professor, com a educação das pessoas. Já tive alunos no oitavo ano do ensino fundamental que nunca tinham tido aula de História. E, para mim, isso é vandalismo.”

Quando pensamos que a conversa com Thiago acabou, ele pede para falar mais um pouco. “A mídia está emanando esse mantra do vandalismo e da destruição da cidade, mas acho que as pessoas têm que analisar direito o que está acontecendo. Por isso, desafio qualquer professor de História a vir na mídia e falar que os franceses, que lutaram por igualdade, liberdade e fraternidade, eram vândalos e que estavam fazendo uma coisa ruim para a sociedade. Vândalo é o Estado!” E aí, quem dá mais? F



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