Belchior escuta estrelas

Ouve-se um grande lamento dos empresários que cercam o cantor: não podem surfar na onda da peculiaridade e capitalizar o exotismo das atitudes do músico

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Ouve-se um grande lamento dos empresários que cercam o cantor: não podem surfar na onda da peculiaridade e capitalizar o exotismo das atitudes do músico

Por Guilherme de Paula

A Época publicou, na semana passada, uma muito bem escrita reportagem, assinada por Marcelo Bortoloti, sobre o que poderia ser “A divina tragédia de Belchior”, provavelmente a melhor história contada sobre um personagem da música brasileira de 2013.

Marcelo não escuta Belchior e nem sua parceira, mas faz um bom trabalho ao recontar os passos da jornada que o senhor latino-americano experimenta, por escolha, desde 2009. Escapa certa má vontade com a “militante de esquerda radical” – apresentada no enredo como uma espécie de Eva que apresenta ao artista o pecado original, mas sustenta a racionalidade por trás de atos impensáveis para um homem que poderia ser, num termo que se usa hoje em dia e nem se percebe a violência que o compõe, “produtivo”.

Belchior não adotou esse tipo de vida pra atrair a atenção de ninguém, não desapareceu porque queria dar um “golpe de marketing” (http://www.flickr.com/photos/fabiodutra/)

A questão – o problema mesmo – é que, e isso não é culpa nem de Marcelo nem da atitude peculiar de Belchior, mas sim da maneira como “nosso tempo” tem tratado as coisas da vida, este desaparecimento (acho que é essa a palavra mesmo) do compositor cearense tem dado à memória sobre ele construída no imaginário cultural destes dias um caráter de exotismo. Bom, ser considerado exótico, vá lá, não é exatamente degradante – mas é, no mínimo, reducionista, se falamos de um dos maiores escritores da música brasileira em todos os tempos.

Aliás, esse parece ser o grande lamento dos empresários que cercam o cantor: não poder surfar na onda da peculiaridade e capitalizar o exotismo. O empresário Jackson Martins diz que recebe constantes pedidos para shows, mas não consegue localizá-lo desde 2007. “Pago as dívidas dele se ele voltar”, diz. Outro empresário que trabalhou com Belchior por quase 30 anos, Hélio Rodrigues, diz que o desaparecimento fez aumentar o interesse do público. “Depois do escândalo, ele consegue lotar qualquer casa de espetáculo. Com dois shows em São Paulo, eliminaria as dívidas”, diz”.

A grande notícia é que Belchior parece não dar a mínima. Não adotou esse tipo de vida pra atrair a atenção de ninguém, não desapareceu porque queria dar um “golpe de marketing” (argh!). Os motivos ninguém vai saber, são dele. Mas pelo que cantava, e parecia de fato sincero, o tipo de sociabilidade para qual virou as costas não deve estar fazendo tanta falta. Porque “a vida realmente é diferente, quer dizer, a vida é muito pior“.

Segundo os relatos, Belchior não canta mais – o que poderia ser uma contradição com sua promessa mais poderosa, numa paródia respeitosa a Olavo Bilac guardada pro fim da sua referência mais substantiva a Dante, a música “Divina Comédia Humana”: “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto, que enquanto houver, espaço, corpo e tempo e algum modo de dizer não, eu canto”.

Bom, é bem verdade que suas músicas são poderosas e duradouras e seguem dizendo não, e seguirão, porque têm a capacidade de superar os contextos e a época em que foram escritas. Mas mais que isso, Belchior mesmo segue dizendo não. Sem cantar, mas diz; o que acaba por ser, no final das contas, também uma bem interessante canção.

E a sociedade do nosso tempo, dos memes e das piadas, da superficialidade e da canalhice, dirá a Belchior, como o amigo incrédulo disse a Bilac, quando este garantiu conversar todas as noites com as estrelas: “Tresloucado amigo! Que conversas com elas? Que sentido Tem o que dizem, quando estão contigo?”. E Bilac responderá por ele e pelo senhor que ainda tinge o bigode, mas que desde jovem soube que o novo sempre vem: “Amai para entendê-las! Pois só quem ama pode ter ouvido Capaz de ouvir e de entender estrelas”.

 



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14 comments

  1. Benedito Gomes Rodrigues Responder

    Grande texto! Belchior já está eternizado em sua música.

  2. André Crevilaro Responder

    Belchior, é música pra cabeça e o coração e não tá nada aí com isso não, vida longa ao mestre!

  3. Matheus Moura Responder

    ícone e eterno

  4. Irlan Simões Responder

    “A vida realmente é diferente, quer dizer, ao vivo é muito pior”.

    Bom texto! O caso de Belchior chocou todo mundo, mas enquanto conversava com meu pai, que também é fã dele, numa viagem “a 100 por hora”, demos uma pausa e ouvimos o seguinte:

    ” “E então, my friends?Bastou vender a minha alma ao diabo
    E lá vem vocês seguindo o mau exemplo
    Entrando numas de vender a própria mãe
    Alguém se atreve a ir comigo além do shopping center? hein? hein?
    Ah! Donde eston los estudiantes?
    Os rapazes latinos -americanos?
    Os aventureiros? os anarquistas? os artistas?
    Os sem destino? os rebeldes experimentadores?
    Os benditos? malditos? os renegados? os sonhadores?
    Esperávamos os alquimistas, e lá vem os arrivistas
    Os consumistas, os mercadores
    Minas, homens não há mais?
    Entre o céu e a terra não ha mais nada que sex, drugs and
    rock ‘n’ roll?
    Por que o adeus as armas
    Ahhh! Não perguntes por quem os sinos dobram
    eles dobram por ti.
    Ora, senhoras, ora senhores
    uma boa noite lustrada de néon pra vocês
    o último a sair apague a luz do aeroporto
    e, ainda que mal me pergunte
    -a saída, será mesmo o aeroporto?””

    É um trecho “perdido” numa música pouco conhecida dele. Uma que não foi cantada por um grande interprete, uma que não teve clipe no Fantástico, uma que não tem um refrão fácil, e uma que provavelmente ninguém saiba cantar de cor.

    O que é mais “BELCHIOR” que isso? Genialidade sem limites, sem vaidade, sem glamourização. Outro patamar de ser humano, muito a frente do seu tempo, desapegado dos vícios que acometeram a imensa maioria dos seus contemporâneos.

    Mesmo aqueles que belas mensagens de negação às “coisas mundanas”. E pra isso ele também nos deixou “Os Profissionais”. Que já explica tudo e um pouco mais.

    1. Arthur Responder

      É meu camarada, aqui ” uma que provavelmente ninguém saiba cantar de cor.” você está redondamente enganado.
      A primeira vez que escutei essa música fiquei tão impressionado que na semana seguinte já havia decorado.
      Abraço, rebelde experimentador!

  5. Gilberto Bombardieri Responder

    a matéria do Bortoloti é um festival de preconceitos construído a partir de versos muito bem pinçados, só que a pinça tratou de pegar aqueles versos capazes de relacionar criador e criatura de forma a provar que ambos são meros fetiches e Belchior um fracassado se olhando no espelho. “Deixem que eu decido a minha vida. / não preciso que me digam / de que lado bate o sol”, e “João, o tempo andou mexendo com a gente sim / John, eu não esqueço(oh no, oh no), a felicidade é uma arma quente,” e época é um lixo que há muito tempo perdeu seu tempo

    1. João Responder

      Fracassado pq disse não ao capital? Pq desistiu deste modo de viver capitalista, que dita as pessoas quais os próximos bens de consumo que devem ser adquiridos? Que tem uma mídia que te manipula exaustivamente? Provavelmente este é o conceito de bem sucedido do Bombardieri. Que pobreza de espírito heim amigo?

    2. João Responder

      Fracassado pq disse não ao capital? Pq desistiu deste modo de viver capitalista, que dita as pessoas quais os próximos bens de consumo que devem ser adquiridos? Provavelmente este é o conceito de bem sucedido do Bombardieri. Que pobreza de espírito heim amigo?

  6. emerson sousa Responder

    Apesar de todas as dicussões que podemos ter, o que queria era apenas mais um show.Mesmo em local aberto, sem alto falantes, somente sua voz e seu violão.
    Abraço amigo. Sempre estaremos lhe esperando porque tb somos rapazes latinos americanos sem dinherio no banco.

  7. eric pinheiro amorim Responder

    Belchior, suas poesias emocionam os corações de seus fãs!

  8. Adenilson Responder

    É amigos, eu também queria esse show, nem que fosse o ultimo. Mas parece que vamos ter que nos contentar com o que ele deixou. Pois acho que não vamos mais ter o prazer de vê-lo soltar sua voz tão contundente e suas letras tão profundas que chegam a ser cortantes.
    Vida longa ao nosso ídolo…

  9. TULIO HANDEL Responder

    Caro Belchior….não posso deixar de me sensibilizar com seus problemas. Se quiser coloco meu escritório ao seu dispor para que volte a fazer seus shows. Meu telephone para contato é o 61-8160-4775.
    TE AGUARDO.

  10. Aldair Responder

    Gente, Belchior é gênio e como tal tem que ser respeitado em sua obra, seus desejos, suas decisões…Não nos cabe julgar. Nos cabe apenas esperar e torcer para que este ‘monstro’ da arte da música retorne para nós.


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