Pedágio, desaparecidos, incêndios e a ameaça de “derramamento de sangue”

Moradores de Humaitá (AM) acusam tenharins por sumiço de três pessoas e atacam instalações indígenas. Índios prometem explodir pontes caso a ofensiva continue

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Moradores de Humaitá (AM) acusam tenharins por sumiço de três pessoas e atacam instalações indígenas. Índios prometem explodir pontes caso a ofensiva continue

Por Redação 

(Foto: Antonio Cruz/ABr)

Os índios tenharins decidiram retomar, a partir de 1º de fevereiro, a cobrança de pedágio na Transamazônica (BR-320), em Humaitá, a 675 quilômetros de Manaus. A decisão foi comunicada após o encontro entre o general Eduardo Villas Bôas, comandante militar da Amazônia, com o cacique Aurélio Tenharim.

A reunião entre as duas lideranças ocorreu na reserva indígena Tenharim Marmelos, em Humaitá. O general lembrou o drama vivido pelos índios com a construção da rodovia, mas pediu o fim da tarifação. “Não há dúvida do sofrimento que esse processo trouxe para o povo Tenharim. Mas a questão é a seguinte: a cobrança do pedágio não vai resgatar isso, nem trazer de volta as crianças que morreram”, afirmou Villas Bôas.

O cacique corrigiu o general e lembrou do extermínio da etnia. “A gente não fala de pedágio, fala de cobrança de compensação. Nós éramos 30 mil tenharins, hoje somos 800”. O indígena afirmou que aguardou o governo por “quatro anos” para “sentar na mesa e negociar.”

Aurélio Tenharim foi enfático sobre o significado da tarifação na rodovia. “A Transamazônica tem história de massacre, de estupro de nossas índias, escravos, violação de direitos. Quem vai pagar isso?”. O cacique continuou argumentando e citou uma  festa de rodeio, a que ele teria ido, para comparar com a cobrança do pedágio. “Tinha um monte de lanterninha, encosta aqui, aí falei, quanto paga: dez reais. Tem legalidade? Não tem. Uma vez cortou a estrada e passamos por uma fazenda, e sabe quanto o fazendeiro cobrou? 50 reais. É legal?”

Conflito

O desaparecimento de três homens no trecho da Transamazônica que passa pela aldeia, somada à questão do pedágio, gerou um conflito entre os indígenas e a população local. Os moradores de Humaitá incendiaram, no Natal, a sede da Funai na cidade, além de carros e barcos usados para atender aos índios.

Em contrapartida, os indígenas prometeram explodir as pontes que dão acesso à região, isolando a aldeia, caso os moradores continuem atacando instalações dos índios.

Após falar com os indígenas, o general Villas Bôas se reuniu com o prefeito de Humaitá, José Cidinei Lobo (PMDB) e lideranças da região. O bispo Dom Francisco Merkel afirmou ao militar que “outros corpos vão surgir e a questão não pode ser resolvida ao nível local. Brasília tem de acordar.”

O advogado das famílias, que aguardam a investigação sobre o paradeiro dos desaparecidos, afirmou ao general que a cobrança de pedágio é uma “tragédia anunciada com derramamento de sangue”, segundo o jornal O Estado de S. Paulo.



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