A pergunta que continua no ar

Após 40 minutos de torturas nas quais quatro policiais se revezaram, Amarildo Dias de Souza estava morto. Até o fechamento desta edição, seu corpo ainda não havia sido encontrado

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Após 40 minutos de torturas nas quais quatro policiais se revezaram, Amarildo Dias de Souza estava morto. Até o fechamento desta edição, seu corpo ainda não havia sido encontrado

Por Igor Carvalho. Fotos de Sub.Coop. Ilustrações de Alexandre De Maio

Esta matéria faz parte da edição 128 da revista Fórum. Compre aqui.

Carioca e flamenguista, Amarildo Dias de Souza se tornou um símbolo da violência policial nas periferias do Brasil quando desapareceu em 14 de julho. O pedreiro cresceu e morreu na Rocinha, comunidade de onde partiu a pergunta que tomou conta do país por quase quatro meses: “Onde está o Amarildo?”.

A família de Amarildo, que hoje vive na casa da sobrinha do pedreiro

Hoje, a Rocinha e sua família lutam para ter seu corpo de volta, pois seu destino já é sabido. Amarildo está morto. Foi assassinado por agentes da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) local. A família está pedindo à força policial, que ocupa a comunidade desde 12 de setembro de 2012, que entregue os restos mortais do pai de Milena (6 anos), Alisson (10), Ana Beatriz (13), Amarildo Jr. (18), Emerson (20) e Anderson (21) (ver box na pág. 11).

Familiares contam que os pais de Amarildo chegaram à Rocinha vindos de Petrópolis, onde trabalhavam na área rural. A história da família permanece viva graças à oralidade, pois os documentos dos antepassados se perderam com o tempo, ou nunca existiram. A sobrinha Michelle Lacerda conta que os avós do pedreiro eram escravos em Petrópolis. Mas não tem certeza. “A gente acha isso, pois uma tia nossa sempre fala dessa história, mas não temos como provar.”

Com 12 anos, Amarildo começou a trabalhar vendendo limões. Nunca se alfabetizou. Sabia escrever apenas o nome e nada lia. Por isso, sempre quis que os filhos frequentassem a escola. Casado por mais de 20 anos com Elizabeth, a Bete, teve seis filhos com a companheira; dois deles não têm o nome do pai no documento: Amarildo Jr. e Emerson Gomes da Silva. “Tivemos uns problemas para registrar, mas decidimos que agora eles vão colocar o nome do pai nos registros”, explica Michelle. Apesar de ser um Souza, o pedreiro deu o sobrenome da sua mãe a todos os filhos: Silva.

Boi

Ainda jovem, aos 13, Amarildo começou a trabalhar como ajudante de pedreiro. Por 30 anos, exerceu a mesma profissão. “Aqui [na Rocinha], tem muita gente que mora em casa que ele levantou. Por isso, também, ele era muito conhecido”, lembra Bete. Por mês, como pedreiro, Amarildo não conseguia ganhar mais do que R$ 400, por isso fazia bicos. Emerson conta como o pai completava a renda. “Ele fez de tudo um pouco, mas recentemente estava carregando areia e cimento para um depósito.” O pedreiro ganhava R$ 80 para carregar 25 sacos de cimento e era o “único na comunidade que carregava dois sacos de uma vez nas costas”, lembra Amarildo Jr.

“Carregar” é um verbo que explica a origem do apelido de Amarildo, que se tornou “Boi” ainda com 11 anos, após um incêndio no barraco em que morava, ocasião na qual conseguiu resgatar dois irmãos que estavam presos no local. Mas não conseguiu ajudar uma das irmãs, que faleceu.

Já na fase adulta, Amarildo continuou “carregando”. “Toda vez que alguém passava mal aqui no morro, ligavam e ele saía correndo, pegava a pessoa no colo e descia”, recorda Amarildo Jr. “Alguns dias antes de morrer, ele tinha ajudado uma senhora a carregar todas as sacolas dela aqui para cima. Estava sempre ajudando as pessoas. E morreu assim…”, lamenta Bete.

“Onde está o Amarildo?”

Amarildo desapareceu em 14 de julho de 2013. Logo cedo, às 6h, o pedreiro saiu para pescar nas rochas de São Conrado, sua atividade preferida, realizada toda semana. “Ah, se ele não conseguia ir na sexta-feira por causa do trabalho, sempre ia no domingo”, conta Bete. “No final de semana, sempre comíamos os peixes que ele trazia.”

Quando voltou da pescaria, por volta das 18h, Amarildo começou a limpar os peixes. “O cara era cuidadoso, abria, tirava tudo e depois temperava para assar”, afirma Emerson. A limpeza era feita na escada de frente para sua casa, de onde podia ver os seus seis filhos. Antes de levar ao forno, o pedreiro deu conta de que esquecera algo. Não havia limão e alho em casa, ingredientes necessários para temperar o pescado. Era preciso sair para comprar.

Já fora de casa, Amarildo e Bete depararam com o soldado Douglas Roberto Vital Machado, vulgo “Cara de Macaco”, que apenas os fitava. Instantes de silêncio precederam a partida de Amarildo rumo ao beco do Cotó, onde ficava o Bar do Júlio. De forma pouco discreta, Vital se pôs imediatamente a seguir o pedreiro.
Bete foi atrás. “Percebi que algo aconteceria, pois ele começou a seguir o Amarildo e tinha toda a história do nosso filho [Emerson].” Já na porta do bar, o pedreiro é cercado por oito agentes da UPP e colocado na viatura, que arranca rumo à sede da Unidade de Polícia Pacificadora. “Tentei seguir os policiais, queria ir com ele. Sabia que fariam algo com meu marido, mas não me deixaram ir. Foi a última vez que o vi.”

“Toda a história do nosso filho”

Em outubro de 2012, Emerson foi levado à 15ª Delegacia de Polícia por Lopes Atanazo, policial da UPP da Rocinha, por porte de maconha. O flagrante teria sido forjado, segundo o filho de Amarildo. “Ele é que pegou uma droga e disse que estava comigo. Fiquei preso cinco meses por causa disso aí”, diz o rapaz.

Após esse período recluso aguardando julgamento, Emerson foi inocentado da acusação de tráfico, e sua prisão criou uma celeuma entre a família e os agentes da UPP. “Quando o filho foi preso, Amarildo estava trabalhando. Assim que soube, foi tirar satisfação com os policiais, e isso gerou confusão. Nossa família começou a ser perseguida na Rocinha”, recorda Bete.

Uma senhora, que mora próximo à casa da família de Amarildo e prefere não se identificar, explica a perseguição. “É muito comum que os policiais batam nos meninos aqui na Rocinha. Todo dia tem gente sendo esculachada, apanhando, com arma apontada na cara. Se você reage e procura seus direitos, eles começam a perseguir.” A acusação da vizinha é confirmada por Michelle Lacerda. “Tem que apanhar e ficar quieto. Como Amarildo reclamou, fomos perseguidos. Os policiais acham que não podemos ter atitude alguma.” Após as reclamações do pai, Emerson se tornou alvo constante dos agentes.

Um morador da Rocinha, que será chamado de Jorge nesta matéria por alegar estar sendo perseguido, confirma as torturas. “Meu irmão foi torturado. Ele tomou tapa na cara, socos, tentaram estrangular e sufocar ele. Na hora de colocar o saco, viram uma vizinha que observava. O Medeiros [tenente Luis Felipe de Medeiros, subcomandante da UPP da Rocinha], então, mandou parar a tortura.”

Jorge explica que o problema é recorrente na comunidade. “As torturas acontecem desde que a UPP chegou aqui, mas começaram a ficar mais evidentes e comuns neste ano. Antes, o que acontecia muito era auto de resistência forjado. Meu irmão foi torturado e, desde que denunciei, sou ameaçado de morte pelo major Edson e por outros agentes.”

O major Edson Santos, ex-comandante da UPP da Rocinha, teria envolvimento direto com as ameaças a Jorge. “O major me falava que era muito fácil me ‘forjar’, era fácil me prender. Passei um ano e meio sofrendo tortura psicológica e sendo perseguido, me ameaçaram de morte. Invadiam minha casa e, quando eu perguntava sobre mandado, me ameaçavam.”

Quando é liberado, em Bangu 1, após ficar encarcerado cinco meses, Emerson volta à Rocinha. Alguns dias após conseguir sua liberdade, o filho de Amarildo encontra o soldado Vital. “Quando o Vital me viu, saiu logo falando: ‘Pô, neguinho, tu tá na rua de novo? Vou jogar a pistola em cima de tu e dizer que foi troca de tiro. Eu vou te matar’”, lembra Emerson, que passou a se esconder por conta de ameaças. “Nem em casa eu dormia mais, só ficava lá em cima, na rua 1, na casa da minha namorada.”

14 de julho

No dia 13 de julho, começou, na Rocinha, a “Operação Paz Armada”, de repressão ao tráfico na comunidade. A imprensa divulgou a ação da UPP e esperava-se que os agentes lograssem êxito na captura de armamentos na região. Porém, após 36 horas, sequer um canivete havia sido apreendido.

Às 18h05, já do dia 14 de julho, o futuro de Amarildo começou a ser selado. Nesse horário, tocou o telefone do soldado Vital. No outro lado da linha, um informante avisa que Amarildo tinha a chave de um paiol onde traficantes esconderiam armas. O agente segue até a casa do pedreiro e o encontra saindo para comprar limões e alho, no Bar do Júlio.

UPP da Rocinha, local em que Amarildo foi torturado e morto

Já no estabelecimento, Vital alcança Amarildo e, junto com outros sete agentes, o obrigam a entrar na viatura e seguir até a sede da UPP. Ligações interceptadas pelo Ministério Público mostram que, em conversa com Vital, o major Edson determina que Amarildo deve ser levado para a UPP e “trabalhado”, sinônimo, no jargão policial, de “torturado”.

Na reconstituição do crime, a Divisão de Homicídios descobriu que Vital simulou fazer uma ligação para a UPP tentando averiguar se havia um mandado de prisão contra Amarildo. Em seguida, o agente alega que não conseguiu fazer a chamada e que teria de levar o pedreiro até a unidade para “averiguações”.

No carro, o agente se vira para o detido, que está no banco de trás, e sentencia: “É, Boi, acabou. Você perdeu.” O que se constrói, a partir desse momento, é um cenário de horror. O Ministério Público do Rio de Janeiro remontou o que teriam sido as horas finais de Amarildo com base em 133 depoimentos e mais de 32 mil ligações interceptadas, além de provas periciais, como a análise das vozes de policiais envolvidos na operação que culminou na morte do pedreiro.

Quando chega à sede da UPP, o pedreiro é levado para um depósito, que fica atrás dos contêineres que abrigam a  unidade. Lá, teria sido torturado por quatro agentes: o sargento Reinaldo Gonçalves, o tenente Luis Felipe de Medeiros, o soldado Anderson Cesar Soares Maia e o soldado Douglas Roberto Vital Machado. Todos estão presos e indiciados por tortura, ocultação de cadáver, formação de quadrilha e fraude processual.

Durante 40 minutos, Amarildo é exposto a três tipos de torturas, intercaladas: com taser, asfixia com uso de saco plástico na cabeça e afogamento em um balde de coleta de água de ar-condicionado.

Amarildo nada fala sobre traficantes e nem armas. Não confessa ter a chave do paiol e não fornece nenhuma pista aos policiais que o torturam. “Ele nem sabia da existência dessa chave. É obvio que o Amarildo não tinha chave nenhuma, ele nunca se meteu com isso. Se tivesse, entregava, mas não morreria”, acredita Bete.

Oito agentes da unidade são obrigados a ficar dentro dos contêineres. Ali, escutam os pedidos por socorro de Amarildo e acompanham a tortura. Uma soldada contou que estava dentro da UPP quando ouviu gritos de dor atrás da unidade. Ela disse que foi até a parte da frente da sala e tapou os ouvidos para não ouvir mais. Ao concluir que um homem estava sendo torturado, teria comentado com duas colegas: “Isso não se faz nem com um animal.” A mesma agente confirmou que escutou risos após Amarildo ser morto. Do lado de fora, 12 policiais cercavam os acessos à unidade, impedindo familiares e moradores de se aproximarem do local.

Quando é constatada a morte de Amarildo, os agentes o enrolam na capa de uma motocicleta, envolvida com fita crepe, e retiram o corpo pelo telhado. O cadáver é levado para a mata, nos fundos da unidade, e nunca mais é visto. Para impedir que a retirada do corpo fosse vista, a soldada Thaís Rodrigues Gusmão desligou as luzes externas da área.

Em busca do crime perfeito

Após o corpo ser retirado. O major Santos ordena que seja jogado óleo no chão do depósito onde Amarildo foi torturado. A técnica, aplicada pelo tenente Medeiros, ajuda a limpar as manchas de sangue no local. Para além de eliminar as provas materiais, era necessário criar um “assassino” para o crime, livrando qualquer suspeita sobre os verdadeiros criminosos.

Um adolescente, de 16 anos, morador da Rocinha, foi recrutado, no começo de 2013, pela equipe do major Edson para servir de informante da UPP. “Esse menino recebia R$ 100 por informação dada aos policiais para indicar quem eram os traficantes e onde estavam as armas”, conta a promotora Marisa Paiva, da 15ª Promotoria de Investigação Penal, de onde partiu a investigação sobre a morte do pedreiro. Questionada sobre a legalidade da “contratação” do informante, de forma independente, ainda mais se tratando de um adolescente “sem autorização dos pais”, Marisa é taxativa. “É ilegal, anticonstitucional e imoral, como tudo que cerca esse grupo de bandidos, porque é isso que esses policiais são, bandidos.”

Um dos cômodos da casa de Michelle, na qual moram hoje 17 pessoas

O major Santos sabia que o telefone do adolescente era monitorado e resolveu forjar uma ligação. Sabendo que a conversa seria gravada, um policial liga para o menino e avisa que é o Catatau, um traficante da região. Durante a chamada, avisa o informante que ele é “X-9” (gíria utilizada para delatores) e que vai fazer com ele o mesmo que fez com o “Boi” (Amarildo). No final, o agente que se passa pelo criminoso assume a responsabilidade pelo assassinato. Após realizar uma perícia, a Coordenadoria de Segurança e Inteligência (CSI) do MP identificou que a ligação forjada foi realizada pelo soldado Marlon Campos Reis, que também está preso.

Marisa encontrou o adolescente por acaso. “Ele tomou um tiro de bandidos da região e foi parar no hospital. De lá, foi encaminhado para a 15ª, onde tive acesso ao seu depoimento.” Para a promotora, a mãe do menino contou que foi subornada pelo major Edson. “O major pagou o aluguel de uma casa fora da Rocinha ao garoto, pois ele estava sendo perseguido na comunidade por conta das denúncias feitas à UPP e ameaçou falar o que sabia, que era a ligação forjada para imputar o assassinato do Amarildo ao Catatau”, afirma Marisa.

Em julho, a mãe do adolescente afirmou em depoimento ao Ministério Público que Catatau a expulsou da comunidade e ameaçava matar seu filho, como havia feito com Amarildo. Após o filho ter sido vítima de um atentado, a mãe resolveu procurar o major Edson e pedir ajuda, argumentando que, se não conseguisse sair da Rocinha, teria de contar a verdade. O major, então, ofereceu um aluguel à família em troca do silêncio.

Porém, em 11 de setembro, a mãe procura o delegado Rivaldo Barbosa, da Delegacia de Homicídios (DH), Orlando Zaccone, da 15ª DP, e os promotores Homero das Neves e Marisa Paiva, para mudar o depoimento. Ela confessa que recebeu dinheiro e que tudo não passou de uma farsa. De acordo com a promotora, o adolescente chegou a morar com a mãe na casa alugada pelo major, mas por pouco tempo. “Hoje, ele está fora do Rio de Janeiro e integra o Sistema de Proteção à Testemunha, junto com sua mãe.”

O relatório da empresa Emive, responsável pelas câmeras do circuito interno da Rocinha, mostra que, das 80 câmeras espalhadas pelo Complexo, apenas duas pararam de funcionar, exatamente no dia 14 de julho: as que vigiam a sede da UPP. Naquela noite, coincidentemente, o GPS das viaturas que conduziram os policiais e Amarildo até a unidade da UPP estavam desligados. Isso impossibilita saber qual o percurso feito pelos carros e se eles chegaram a sair da comunidade.

Ao todo, 25 policiais da UPP da Rocinha foram indiciados por tortura, formação de quadrilha, ocultação de cadáver e fraude processual. Apenas quatro agentes estão enquadrados em todos os crimes. Do total de acusados, 13 estão presos e 12 respondem em liberdade. Todos os envolvidos negam as acusações e a participação nas torturas e desaparecimento do corpo do pedreiro.

“E aí, acharam o Amarildo?”

Desde a morte de Amarildo, Bete e cinco dos seis filhos dividem um cômodo de 3 metros quadrados na casa de Michelle Lacerda. Lá, divididos em dois quartos, sala, cozinha e o banheiro, moram 17 pessoas no total. A família, contudo, deve se mudar em breve, pois conseguiu uma casa própria, na Rocinha, por meio do projeto “Somos Todos Amarildo” (movimento criado para cooperar financeiramente com a família do pedreiro), capitaneado pela produtora Paula Lavigne.  Mesmo com o processo em andamento e o indiciamento de policiais, os familiares seguem sendo alvo dos agentes da UPP.

“Agora mudou, eles não nos batem mais, sabem que, se algo acontecer, o Brasil inteiro vai para cima deles. Mas eles ficam fazendo gracinha. Quando passamos, os policiais ficam rindo e perguntando: ‘E aí, acharam o Amarildo?’”, relata Michelle. Bete, os seis filhos, Michelle e Eunice Souza (irmã de Amarildo) conseguiram, na Justiça, o direito a tratamento psicológico no valor de R$ 300 por sessão. Semanalmente, a família frequenta o consultório profissional para o tratamento. Além disso, estão recebendo uma pensão mensal no valor de um salário mínimo. F



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