12 homens e uma sentença (filmes)

Como uma das resoluções de ano-novo tenho o propósito de assistir um filme por dia em 2014 – como agora tenho tempo de sobra, não tenho desculpa pra não assistir, finalmente, aqueles...

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Como uma das resoluções de ano-novo tenho o propósito de assistir um filme por dia em 2014 – como agora tenho tempo de sobra, não tenho desculpa pra não assistir, finalmente, aqueles filmes que eu sempre digo que já vi dez vezes quando quero parecer cult.
Sem saber bem como escolher os filmes, resolvi recorrer a uma dessas listas “tantos filmes pra ver antes de morrer”. Ainda que a seleção me pareça um pouco arbitrária, é um começo concreto – e evita que minha resolução seja procrastinada.

Spoiler alert: minhas resenhas podem, eventualmente, trazer comentários sobre o fim das histórias, porque acho que ver o que quer que seja tendo como único interesse saber o final é um tanto quanto imaturo e superficial. Já sabemos todos como a história mais importante de todas – a nossa própria – termina, e nem por isso viver se torna menos interessante, né? Então, com filmes e livros é a mesma coisa.

Seguindo, então, essa lista, comecei por assistir* o filme 12 homens e uma sentença (12 Angry Men). A versão canonizada, must see, é a original, de 1957, mas eu, herege que sou, assisti as duas versões e preferi o remake, de 1997.

Como o título no Brasil deixa claro (em Portugal a tradução foi mais [?] fiel: 12 homens em fúria), um júri formado por doze homens tem a tarefa de decidir se um jovem porto-riquenho acusado de ter matado a facadas o próprio pai é culpado ou não. A decisão do júri – composto por representantes da sociedade civil americana aleatoriamente escolhidos – deve ser unânime, e dela não cabe recurso. 
Esses homens são colocados numa sala – praticamente a única locação do filme – onde deverão discutir até chegar a um veredito. Numa votação preliminar, onze votos indicam o réu como culpado, e apenas um considera que não há provas suficientemente irrefutáveis da autoria do crime. 
O júri é, então, obrigado a discutir novamente todas as evidências do caso, até que a unanimidade seja alcançada. E, na hora e meia de discussão que se segue, assisti um texto brilhante sobre racismo, preconceito, intolerância e direitos humanos. 
Sim, digo que assisti um texto porque, nas duas versões, é ele que importa. Sem efeitos especiais e sem locações deslumbrantes, é o texto que faz desses dois filmes imperdíveis. A direção e a atuação importam na medida em que privilegiam o texto – o calor da sala do júri realça a tensão do que está sendo discutido ali – a sentença de morte de um ser humano; os movimentos da câmera privilegiam a melhor compreensão do texto, não há excessos, há apenas a eloquência do texto, a principal estrela nos dois filmes.
Na versão de 57, os representantes da sociedade civil americana são todos homens brancos. Identificados pelo seu número – de 1 a 12, breves diálogos revelam que entre eles  há comerciantes, profissionais liberais, empregados da burocracia, um imigrante naturalizado. O homem que coloca em dúvida, sozinho, a culpa do réu é vivido por Henry Fonda, cujos olhos tristes eu não gosto. Mas não é só por isso que prefiro a versão de 97. Quarenta anos depois da primeira versão, entre os novos doze representantes da sociedade civil americana agora há negros – e colocar um deles no papel do jurado que faz o discurso mais francamente racista e xenófobo de todos foi uma jogada sensacional.
Essa versão, por mais próxima e por atualizar de maneira eficiente os conflitos presentes no primeiro filme, conversa mais comigo, e é por isso que gosto mais dela.
Um a um, os jurados são convencidos, por meio do debate, de que as provas apresentadas no tribunal não são suficientemente definitivas para que o jovem réu seja considerado culpado. Não se trata de julgá-lo positivamente inocente, trata-se de não se poder dizer, com absoluta certeza, que ele é culpado. Pode ser, e pode não ser – e essa dúvida, de acordo com a letra da lei, é suficiente para que ele continue vivo – já que a condenação implicaria sua sentença de morte.
a melhor cena da versão original:
o discurso honestamente xenófobo
 que exige dos outros membros do júri
uma tomada de posição
A exposição dos argumentos que tomam por irrefutável a culpa do jovem revela um discurso assombrosamente preconceituoso e desgraçadamente atual: é culpado porque deve ser culpado, porque nada indica que seja inocente, porque nasceu num cortiço – produtor de bandidos por excelência, porque essa gente é criada pra ser violenta, porque é da natureza deles roubar e matar, porque não se pode esperar nada de diferente desse tipinho. (acho mesmo que li todos esses argumentos ontem, nos comentários de uma notícia qualquer que envolvesse negros ou pobres no Brasil – supondo que não sejam sinônimos). 
O gesto revolucionário do homem que se nega a decidir tão sumariamente a sorte de outro é o de elevar esse outro ao status de um igual – é a empatia de colocar-se no lugar desse outro, de imaginar-se a si mesmo réu, imigrante, pobre, indefeso – e a partir daí dedicar seu tempo e seu esforço a discutir se a culpa presumida pode ser considerada culpa materialmente comprovada.
Esse texto me remeteu imediatamente aos nossos julgamentos públicos e midiáticos, em que a culpa presumida é mais do que suficiente para que alguém tenha a honra manchada, a vida devassada, a privacidade invadida. Nomeadamente, casos como os da menina Isabela Nardoni e do Mensalão me vêm à mente – casos cujo julgamento foi pro-forma, porque a condenação da opinião pública clamava pela execução sumária da reputação dos julgados tão logo os casos tornaram-se conhecidos.
Versão de 97,
minha preferida e a que eu indico
Me pergunto se eu teria a coragem de ser o homem que levanta a dúvida, que respeita o princípio democrático da presumibilidade da inocência de quem quer que seja, correndo o risco de ser eu mesma rotulada como advogada do diabo, como cupincha de criminosos, como cúmplice de crimes hediondos. Quero ter essa coragem, porque sendo eu o réu – e nada me garante que eu nunca venha a sê-lo, gostaria que alguém levantasse essa dúvida por mim.

Se o filme tivesse que ser refilmado hoje, seria impossível não colocar entre os representantes da sociedade civil americana também mulheres – o que daria um novo fôlego pra esse mesmo texto que, encenado há quarenta anos, continua sendo revolucionário, forte e necessário. 

Bom, menos um filme na lista dos que eu sempre digo que vi e nunca tinha visto de verdade! Faltam agora 364 filmes para cumprir a meta do ano. Não vou resenhar todos, porque resenho só as coisas de que gosto. Aceito indicações de mais filmes, e, para o blog, aceito – e quero! – resenhas feitas por vocês, do que quer que seja :)

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* uso o verbo “assistir” como transitivo direto, porque o contexto é suficiente para a perfeita compreensão do sentido do verbo por qualquer falante nativo de português – tenho certeza que não ocorre a ninguém que eu vá “ajudar” o filme, né?



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2 comments

  1. Vampira Responder

    AI, como adoro suas resenhas! *_* Muito interessante esse filme mesmo e bem atual, mesmo depois de tanto tempo.
    Serve documentário? Eu gosto de um do Hugh Hefner, criador da Playboy. Em tempos de objetificação da mulher e serva sexual, Hugh Hefner se mostra muito mais feminista do que aparenta. E ele tem pontos que, muitas vezes, faz você refletir sobre como as pessoas tratam as mulheres.

  2. Marília Ferreira Responder

    adorei o visual do blog! parabéns!


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