Resposta à “cultura do descarte” de Francisco

Após Papa condenar o aborto em discurso no Vaticano, ONG católica e feminista se manifesta  por Anna Beatriz Anjos...

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Após Papa condenar o aborto em discurso no Vaticano, ONG católica e feminista se manifesta 

por Anna Beatriz Anjos

“Causa horror o simples pensamento de que existam crianças que jamais poderão ver a luz do dia, vítimas do aborto”, declarou o Papa Francisco em seu discurso (Foto: Andrew Medichini/Reuters)

Em seu discurso de início de ano aos diplomatas credenciados do Vaticano, na última segunda-feira (13), o Papa Francisco fez duras críticas à prática do aborto. Nas palavras do pontífice, “causa horror o simples pensamento de que existam crianças que jamais poderão ver a luz do dia, vítimas do aborto”.

Ele caracterizou o procedimento de interrupção da gravidez como “cultura de descarte”. “Infelizmente, objetos de descarte não são apenas os alimentos ou os bens supérfluos, mas muitas vezes os próprios seres humanos”, afirmou.

Diante da declaração de Francisco, até então criticado pelos setores mais conservadores da igreja por não abordar diretamente o assunto, a rede Católicas pelo Direito de Decidir, organização não goveramental que milita por causas feministas e sociais em toda a América Latina, também se pronunciou. Abaixo, a carta aberta enviada ao Papa:

“Estimado Papa Francisco,
Com uma fraternal saudação em Cristo, nos dirigimos ao senhor. A Rede Latino-americana de Católicas pelo Direito de Decidir é um movimento autônomo de pessoas católicas e feministas comprometidas com a busca da justiça social na América Latina. Defendemos e promovemos os direitos humanos das mulheres em 12 países da região: Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Chile, Equador, El Salvador, México, Nicarágua, Paraguai, Peru e Espanha como país associado.
Como todo o povo católico, vivemos a expectativa dos bons auspícios de seu pontificado que se anunciou como uma mudança positiva na Igreja. Apostamos na esperança dessa mudança de forma que inclua as mulheres, o respeito aos Estados laicos, à diversidade e sobretudo o compromisso com os desafios em relação à vida real e concreta das pessoas, especialmente as mais pobres e excluídas. Reconhecemos que transformações começaram e são importantes e significativas para a Igreja. No entanto, como mulheres solidárias com as mulheres de nosso continente, comprometidas com a luta pela justiça social, não podemos silenciar frente à sua última declaração sobre quem seriam os seres humanos ‘descartáveis’ no mundo atual.
É verdade que se poderia evitar muitas interrupções de gravidez se todas as mulheres do continente tivessem educação sexual para decidir e acesso a contraceptivos modernas para regular a fecundidade. Poderiam assim,  exercer o direito de engravidar no momento mais oportuno, possibilitando que a maternidade seja vivida como uma opção prazerosa e não como simples destino biológico ou uma imposição cultural. Porém, o senhor sabe bem que a desigualdade deste continente está longe de ser superada e que as mulheres mais pobres estão expostas à maternidades obrigadas em contextos de muita violência, com todo o custo que isso implica para elas e para o conjunto de nossas comunidades.
Nós, como católicas e como a maioria das pessoas de diferentes credos e convicções, assim como muitas pessoas ateias, damos valor à vida em gestação; mas esse valor não pode ser maior do que aquele atribuído às mulheres. Sabemos que a decisão pela interrupção de uma gestação é tomada em consciência, motivada por diversos fatores, entre os quais o bem-estar dos outros, sobretudo dos próprios filhos.
Existe uma alta taxa de mulheres que morrem vítimas de violência. Os números são alarmantes em todo o mundo, em particular na nossa América Latina. Mulheres que são mães, jovens, solteiras, casadas, namoradas, filhas, sobrinhas, amigas e que geralmente são assassinadas pelos próprios companheiros ou pessoas que dizem amá-las. Nos dói o silêncio da Igreja que não levanta sua voz para denunciar essa violência e não exige justiça para essas mulheres vulneráveis e excluídas.
Necessitamos de uma voz de indignação evangélica do Vaticano e do senhor como seu máximo representante. Sonhamos com uma Igreja inclusiva que compreenda, ampare e conforte as pessoas nestas situações. Não queremos escutar apenas condenações sobre temas que estão em debate tanto na Igreja como na sociedade. Seu discurso, suas atitudes e feitos, Papa Francisco, são inovadores e transgressores, e têm gerado um grande consenso entre aqueles que são comprometidos com a justiça social e trabalham por um mundo melhor, uma Igreja melhor, uma sociedade melhor em que vivamos todos e todas com liberdade, respeito, em congruência com o que o senhor vem dizendo.
Nos preocupa que em um momento em que o mundo necessita de unidade e consenso, se levantem estes temas desta maneira, pois podem gerar divisões, contraposições, discriminação, estigma e incompreensão. Do senhor esperamos misericórdia, compaixão e justiça, toda justiça necessária para que este mundo seja melhor.”


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