Nelson Mandela, o líder político contra o racismo

Ele foi, antes de tudo, alguém capaz de fazer as leituras de cada momento e propor as opções mais adequadas em cada um deles, seja a rebelião armada, a luta institucional ou a negociação

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Ele foi, antes de tudo, alguém capaz de fazer as leituras de cada momento e propor as opções mais adequadas em cada um deles, seja a rebelião armada, a luta institucional ou a negociação

Por Dennis de Oliveira

Esta matéria faz parte da edição 129 da revista Fórum. Compre aqui.

Nelson Mandela é um ícone da luta contra o apartheid, contra o racismo e pelos direitos humanos. Por isto, virou uma unanimidade. Assim, neste momento de homenagens ao grande líder, cada um lê a sua trajetória da forma que mais lhe convém. Muitos querem exaltar a sua personalidade de “conciliador”, “que sabia perdoar”, numa perspectiva moral e cristã. Citam, como exemplo disso, o fato de Mandela ter sido um dos líderes do grande acordo que pôs fim ao apartheid.Esquecem, entretanto, que esse acordo só foi possível porque, em determinado momento, o Congresso Nacional Africano (CNA) optou pela rebelião armada por meio do grupo “Lança da Nação” (com apoio de Mandela) em função dos canais institucionais e de negociação estarem totalmente fechados. Esquecem também que o acordo só saiu porque o regime do apartheid ficou isolado mundialmente por conta da grande campanha mundial tocada pelos movimentos sociais que denunciaram as atrocidades do regime segregacionista. Assim, a negociação saiu por conta da “pressão” política – exercida, inclusive, pela rebelião armada – que não deu outra opção ao regime de segregação de fazer um acordo.

(Mosaico com imagens de africanos / Flickr)

Por isso, Mandela foi, antes de tudo, alguém capaz de fazer as leituras de cada momento e propor as opções mais adequadas em cada um deles seja a rebelião armada, a luta institucional, ou a negociação. Negociações ocorrem somente por pressão, e não apenas porque um dos lados é “bonzinho”. Comparar Mandela a De Klerk, por exemplo, é um desatino – como foi o caso quando premiaram ambos com o Nobel da Paz em 1993. De Klerk, último presidente do regime de segregação, só tocou o processo de negociação porque estava isolado, sem opções e, assim, “cedeu o anel para não perder os dedos”. E isso foi feito precedido da eliminação de lideranças radicais do CNA para que estas não pudessem incentivar projetos de ruptura mais radical, como foi o caso do assassinato do vice-presidente do CNA Chris Hani, que também era dirigente do Partido Comunista da África do Sul e tido por muitos como sucessor de Mandela.

Esta imagem apolínea de um Mandela pacífico pode criar uma aura de “simpatia” ao “bom velhinho”, mas reduz drasticamente quem foi o líder do CNA: um bravo batalhador pelos direitos humanos, um combatente tenaz contra o regime do apartheid e a dominação branca na África do Sul. A sua identidade negra expressava-se, por exemplo, quando ele dançava nas cerimônias públicas, já como presidente, no mesmo ritmo que os jovens de Soweto e com o seu desejo de ser enterrado nas montanhas, próximo ao local onde nasceu. Identidade esta reconhecida com as homenagens que o povo sul-africano lhe presta neste momento, também dançando em frente a sua casa, dando o recado que a luta por uma África do Sul mais justa continua firme e forte. FP.S.: – Só para lembrar que a Naspers, empresa sócia da Editora Abril, que edita a revista Veja, que prestou homenagens ao “pacifista” Mandela”, foi uma das maiores apoiadoras do apartheid.



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