Um narcótico popular está alimentando a guerra civil na Síria

Captagon, uma anfetamina muito usada no Oriente Médio, está energizando combatentes durante batalhas sangrentas e gerando fundos para mais armamentos

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Captagon, uma anfetamina muito usada no Oriente Médio, está energizando combatentes durante batalhas sangrentas e gerando fundos para mais armamentos

Original em Alternet. Tradução por Ítalo Piva

Enquanto a Síria se afunda cada vez mais numa guerra civil, evidências estão surgindo de que um conflito brutal e sangrento que matou mais de 100 mil pessoas, e produziu cerca de dois milhões em refugiados, agora está sendo abastecido pelo consumo e exportação de quantidades rapidamente crescentes de narcóticos.

Investigações separadas feitas pela agência de notícias Reuters e a revista Time revelam que a expansão da comercialização de Captagon sírio – uma anfetamina muito consumida no Oriente Médio e quase desconhecida em outras partes – gerou lucros de milhões de dólares no país no ultimo ano, parte dos quais foram quase certamente utilizados para a compra de armamentos, enquanto combatentes nos dois lados estão supostamente buscando o estimulante para lhes ajudar a continuar lutando.

Captagon, lucros viram armamentos  (Elizabeth Arrott/Wikimedia Commons)

De acordo ao Escritório de Drogas e Crimes da ONU, há muito tempo a Síria é um ponto de trânsito para drogas vindas da Europa, Turquia e Líbano, destinadas aos Estados ricos do Golfo. Porém, o colapso da infraestrutura do país e a proliferação de grupos armados agora o tornaram em um grande produtor, diz a Reuters. A produção no Vale de Bekaa no Líbano – um nicho tradicional da droga – caiu 90% desde 2011, com o declínio atribuído à produção dentro da Síria.

Nenhuma das investigações produziu provas concretas de que as facções em guerra estavam usando lucros vindos da droga para diretamente comprar armas, mas ambas relatam peritos e oficiais afirmando que isso é extremamente provável. Um ex-oficial da Tesouraria Americana, Matthew Levitt, aponta que o grupo militante com base no Líbano, financiando pelo Irã, Hezbollah, que apoia o regime sírio de Assad, “tem uma longa história de envolvimento no comércio de drogas para ajudar na arrecadação de verbas”.

O coronel Ghassan Chamseddine, chefe da unidade libanesa de combate às drogas, onde mais de 12 milhões de pastilhas de Captagon foram apreendidas no ano passado, disse que a maior parte da pílula ilícita é escondida em caminhões que transitam entre portos da Síria e do Líbano, de onde são transportadas para o Golfo. Ele suspeita que “pelo menos parte” da renda criada pela droga está sendo usada para bancar rebeldes anti-Assad na Síria, numa entrevista para a Time.

Captagon, o nome autoral para o estimulante sintético fenetilina, foi produzido pela primeira vez nos anos 60 como tratamento para hiperatividade, narcolepsia e depressão, mas foi banido na maioria dos países nos anos 80 por causar muita dependência. Continua altamente popular no Oriente Médio; só a Arábia Saudita confisca cerca de 55 milhões de pastilhas por ano, talvez 10% do total contrabandeado dentro do reinado.

A droga é barata e simples de produzir, usando ingredientes que são geralmente fáceis e legais de obter, mesmo assim, cada pílula vende por até 20 dólares. O psiquiatra libanês Ramzi Haddad disse que Captagon tem “os efeitos típicos de um estimulante”, causando “um tipo de euforia, você fica falante, não dorme, não come, fica energizado”.

Estes efeitos colaterais explicam porque guerrilheiros da maioria dos grupos que fazem parte do conflito – com a exceção daqueles ligados a al-Qaeda, que geralmente aderem a uma interpretação radical da lei islâmica – agora são acusados de usarem extensivamente Captagon, normalmente em missões noturnas ou batalhas particularmente ferozes. Porém, médicos e psicólogos dizem que o uso da droga está se popularizando dentro da população civil cada dia mais desesperada da Síria.



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