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György Lukács e a emancipação humana Por Angélica Lovatto Esta matéria faz parte...

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György Lukács e a emancipação humana

Por Angélica Lovatto

Esta matéria faz parte da edição 129 da revista Fórum. Compre aqui.

Qual a importância de se debater a obra do pensador húngaro György Lukács neste início de século XXI?

Vivemos um momento de crise estrutural da ordem do capital, de esgotamento de seu padrão civilizatório e de regressão de consciência histórica, cujo núcleo central – com todas as suas variantes – é o irracionalismo contemporâneo. O pensamento de Lukács (1885-1971) constitui-se, portanto, num referencial privilegiado de reflexão e combate ao anti-humanismo, às filosofias da desconstrução, à dissolução da ideia de verdade, enfim, aos “deslocamentos” produzidos pelas teorias da pós-modernidade desde o terço final do século passado, com sua cansativa pregação do fim das metanarrativas e de toda referência ao universal.

György Lukács e a emancipação humana
Marcos Del Roio
Boitempo, 272 págs., R$ 39

Como lembra o organizador da coletânea, revolucionários como Vladimir Lenin, Rosa Luxemburgo e Antonio Gramsci morreram cedo, mas Lukács pôde viver de forma mais longeva os acontecimentos do século XX: presenciou o pré-stalinismo, isto é, o momento da revolução bolchevique. Viveu o ciclo revolucionário que se seguiu, e a constituição do período stalinista. Pôde acompanhar os desdobramentos do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética em 1956 e as esperanças daí decorrentes. A invasão da Hungria no mesmo ano destruiu essas expectativas. E a Primavera de Praga, em 1968, que parecia suscitá-las de novo, foi imediatamente reprimida. Lukács só não assistiu aos acontecimentos da Polônia, com o Solidariedade, e à derrocada final do sistema em 1989. Com base nessa história, propôs o “renascimento do marxismo”, e seus últimos escritos insistiram particularmente na necessidade de retomada do pensamento de Marx a partir de uma ontologia do ser social.

Nesse livro, a resposta à importância da discussão em pauta é dada pelo rico conjunto de autores nacionais e internacionais, de reconhecida envergadura e consistência teórica, que escreveram a partir das intervenções realizadas na Universidade Estadual Paulista, em 2009, no III Seminário Internacional Teoria Política do Socialismo “György Lukács e a Emancipação Humana”. Reunindo especialistas na obra lukacsiana, o livro apresenta autores que – cada um a seu modo e em sua área de pesquisa – refletem sobre a pertinência dos textos do pensador húngaro em nossos tempos. Assim, a coletânea foi organizada em três partes que discutem os seguintes temas: dialética e trabalho; política e revolução; estética e luta ideológica.

É certo que este livro representa uma importante trincheira para o combate ao avanço da onda pós-moderna com a qual nos debatemos em difícil peleja nestes tempos bicudos de crise da ordem societária do capital e seus efeitos nefastos para o mundo do trabalho. Dependerão de nós sua leitura e divulgação, bem como a reconstrução dos patamares teórico-práticos – sólidos, mas não dogmáticos – para a tão almejada emancipação humana.

Ecos da Ocas”: a história da revista que promove transformação social

Ecos da Ocas”: a história da revista que promove transformação social
Organização: Márcio Seidenberg, Ricardo Senra, Roberto Guimarães e Rosi Rico
Editora Bizu, 296 págs., R$ 19,90

Quem mora em São Paulo ou no Rio de Janeiro provavelmente já cruzou nas ruas com um vendedor da revista Ocas. A publicação, que completou 10 anos em julho do ano passado, é um projeto social que trabalha com pessoas em situação de risco social, que, além de vender a edição impressa – comprada por R$ 1 e vendida por R$ 4 –, produzem textos e participam também da elaboração de pautas.

Parte dessa história é contada no livro Ecos da Ocas. Desde seu início, a revista circula bimestralmente, sem interrupções, graças ao trabalho voluntário de centenas de pessoas e, hoje, a tiragem chega a 5 mil exemplares. “Durante os primeiros dez anos, o projeto cadastrou mais de 2 mil pessoas e colocou em circulação cerca de 520 mil exemplares da revista, o que representa mais de 900 mil reais transferidos diretamente à equipe de vendedores”, diz o livro.

Na obra, além de o leitor poder saber como o projeto se iniciou e de que forma se consolidou ao longo dos anos, é possível também ler ou reler algumas das entrevistas mais importantes publicadas na revista, com nomes como Chico Buarque, Ferréz, Jamelão, Criolo, Wagner Moura e Ariano Suassuna. Os trabalhos desenvolvidos nas oficinas de criação de textos com os vendedores são parte importante do livro e mostram a importância de existirem espaços de expressão para aqueles que, excluídos, perdem o direito a ter voz.



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