A Cadeira Negra de Dasha Zhukova

Se a arte é uma manifestação histórica que permite o estudo e a análise de uma sociedade em um determinado período, estas fotos, num futuro não tão distante, representarão exatamente o retrato dos nossos dias

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Se a arte é uma manifestação histórica que permite o estudo e a análise de uma sociedade em um determinado período, estas fotos, num futuro não tão distante, representarão exatamente o retrato dos nossos dias

Por Blogueiras Negras, especial para a Fórum 

(Foto: Divulgação)

Uma mulher seminua deitada de costas, com as pernas encolhidas e amarradas ao tronco. Sobre suas nádegas um assento. A peça receberia de seu criador, Allen Jones, o sugestivo nome de Cadeira. Alguns defendem que a obra e suas correlatas (Mesa e Carrinho para chapéu) versam apenas sobre a fornifilia, uma forma de objetificação consentida que transforma seres humanos em mobiliário. Agora a interpretação da obra volta mais uma vez à baila.

Dessa vez a equação é ainda mais complexa. Uma socialite branca, Dasha Zhukova, editora da Garage Magazine e incentivadora de projetos de arte na Rússia, foi retratada sentada sobre uma peça, inspirada na obra de Jones, para ilustrar uma entrevista feita por Miroslava Duma para o site russo de moda e comportamento, Buro 247. A criação de Bjarne Melgaard, é a releitura da obra de Jones com um detalhe – a manequim submetida agora é negra.

Após críticas à publicação da imagem que repercutiu de maneira instantânea nas redes sociais, Miroslava pediu desculpas pelo ocorrido em sua conta no Instagram. Segundo postagem no microblog, ela apenas afirma:

“Somos contra o racismo ou a desigualdade de gênero ou qualquer coisa que infrinja os direitos de ninguém … A cadeira na foto só deve ser vista como uma obra de arte que foi criado pelo pop-artista britânico Allen Jones, e não como qualquer forma de discriminação racial. Aos nossos olhos, todos são iguais.”

Dasha Zhukova, também emitiu um comunicado publicado no Styleite :

“A cadeira mostrada na entrevista no site Buro 24/7 é uma obra de arte criada pelo artista norueguês Bjarne Melgaard, parte de uma série em que ele reinterpreta trabalhos históricos do artista Allen Jones como um comentário sobre políticas raciais e de gênero. Seu uso nesta sessão de fotos é lamentável, uma vez que a obra foi completamente tirada de seu contexto, particularmente levando-se em conta que a publicação do artigo do Buro 24/7 coincidiu com a importante celebração da vida e do legado do Rev. Dr. Martin Luther King, Jr.

Eu me arrependo de ter deixado que uma obra de arte com esse tipo de significado tenha sido usada neste contexto. Eu absolutamente abomino o racismo e gostaria de pedir desculpas para quem se ofendeu com minha participação nessa sessão de fotos.

A Garage Magazine tem um forte histórico de promoção da diversidade e da igualdade racial e de gênero no mundo das artes e da moda, e vai continuar com a nossa missão de estimular um debate positivo sobre estas e outras questões”.

A obra original de Allen Jones que trazia manequins de mulheres brancas em posição fetichista foi criada nos anos 1960. Se seguirmos a mesma lógica da Buro 247 e sua jornalista e retirarmos a obra de seu contexto histórico e das transformações conquistadas através da luta pelos direitos das mulheres, a obra seria apenas uma incrível demostração de misoginia.

Consideremos que é inegável a inspiração fetichista e a referência ao universo BDSM (bondage, disciplina, submissão e dominação, mais conhecido como sadomasoquismo) da obra de Melgaard e suas precursoras. No entanto, com em todas as artes plásticas, devemos lembrar também que a interpretação do espectador a uma obra vai além do proposto pelo artista.

Na mesma linha da fuga de contextos, há pouco tempo, entre as gôndolas do supermercado Pão de Açúcar, a imagem de um menino negro escravo acorrentado foi utilizada como enfeite. Após denúncias, a imagem foi retirada do estabelecimento, mas ainda podemos encontrar a mesma escultura e suas variações à disposição em feiras de arte como a da Praça Benedito Calixto, em São Paulo.

Nossa indignação não é com relação à escultura em si, mas com o fato de que sendo desatrelada de seu contexto e figurando nesse cenário aberrativo que é a foto que ilustra a reportagem de Miroslava, ainda ser considerada arte. Nos faz imaginar quem a aprecia, quais são seus sentimentos com relação a obra. Para nós é a imagem da dor, da violência, da opressão em seu estado mais bruto.

A cadeira de Allen Jones retirada de seu contexto desperta o nojo, a indignação, representa a subserviência feminina, violência e talvez um pouco de fetichismo, mesmo distante, dos anos 1960. A de Bjarne Melgaard retirada da obra completa e inserida no contexto em que foi utilizada, na data em que foi utilizada é a expressão máxima de uma suposta superioridade branca, da submissão da mulher negra, de qual seria seu papel na sociedade, de qual o seu espaço no mundo.

Por definição, arte é uma manifestação humana de ordem estética, criada a partir da percepção, emoção e ideia, com o objetivo de estimular interesse ou reação em um ou mais espectadores. Ao longo da história da filosofia, a arte chegou a ser definida como intuição, expressão, projeção, sublimação, evasão. Desta forma, não há expressão artística que possa ignorar a influência de seu momento histórico, não há arte sem contexto.

As notas de desculpa e arrependimento desqualificam a crítica dos que viram na foto uma representação de racismo e misoginia, como se a imagem resultante da combinação de uma mulher branca sentada sobre uma mulher negra pudesse ser apenas um produto que não carrega nenhum tipo de representação histórica, não causa emoção, reação, não estimula interesses nem desperta desejos. Como se estivéssemos apenas discutindo um objeto bonito, e não entraremos aqui na questão da subjetividade da beleza.

As indústrias da moda e da arte têm cometido inúmeras falhas com relação aos direitos humanos, principalmente quando se trata da representação da mulher. Esta foi mais uma maneira equivocada de parecer moderno, de despertar o interesse.

Se a arte é uma manifestação histórica que permite o estudo e a análise de uma sociedade em um determinado período, estas fotos, ao serem estudadas num futuro não tão distante, representarão exatamente o retrato dos nossos dias, onde não há avanços com relação ao racismo.



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3 comments

  1. Osvaldo Aires Bade Responder

    BOA!

  2. Ludmila OC Responder

    Voce disse exatamente a mesma coisa que a autora: que a cadeira foi criada intencionalmente pra evidenciar o racismo e misoginia de nossa sociedade. Ninguem esta negando isso, alias, esse é o ponto principal do artigo inteiro. Acontece que, tirada de seu contexto artistico – que foi o que aconteceu nessa foto especifica – essa intencao passa de reflexiva pra agressiva. Em nenhum momento o artigo criticou a arte, apenas o uso que se fez dessa arte, e como a falta de reflexao sobre esse uso evidencia o racismo de nossa sociedade. Como editora de uma revista de arte, Dasha Zhukova deveria saber melhor do que desrespeitar a simbologia de uma obra como essa. O fato dela nao ter se dado conta do que tinha feito ate que a resposta internacional esfregasse isso na cara dela apenas evidencia o racismo internalizado dela.


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