2 ou 3 coisas que sei sobre ela (filme)

O Eduardo sugeriu uma lanchonete, mas a Mônica queria ver o filme do Godard… A citação acima era a única referência que eu tinha sobre Gordard....

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O Eduardo sugeriu uma lanchonete, mas a Mônica queria ver o filme do Godard…
A citação acima era a única referência que eu tinha sobre Gordard. (Embora eu sempre diga nas rodinhas cults que já vi Je vous salue, Marie, claro)
#diva #paris #nouvellevague
Pois então, seguindo a lista dos tantos filmes pra ver antes de morrer, assisti esse. Duas ou três coisas que eu sei dela é um filme sobre os limites da linguagem. Para falar sobre Paris, ou sobre a linda Juliette Janson, ou sobre o absurdo de abafar com propaganda e consumo os gritos que ecoavam da guerra no Vietnam, ou sobre a ressignificação do espaço urbano em tempos capitalistas e homogeneizantes, Godard precisa da linguagem, esse conjunto de símbolos, imagens, sons e palavras que tornam compreensível o pensamento humano. Só assim ele pode dar significado às coisas – e, dando-lhes significado, faz com que elas existam de fato: o que não pode ser nomeado não existe.
Assim, sua luta é a de conseguir fazer com que a linguagem – com seus limites – traduza e exteriorize sua consciência. O filme é ele todo essa tentativa, e a sua estrela é esse processo: as possibilidades e os impedimentos da linguagem, mostrados em quadros, fragmentos que dão a ver uma estrutura maior, é a linguagem como experiência e reflexão. 
O filme não tem história porque experimenta uma maneira de contá-las, as histórias. É um pré-filme, aberto, em construção. Entretanto, nesses fragmentos – duas ou três coisas, conhecemos a Paris e a dona de casa que se prostituem para manter o seu padrão de consumo suburbano de classe média, inflado pelos produtos novos que todos os dias chegam dos Estados Unidos. Vemos o aparente luxo, a modernidade superficial que brilha para velar o indizível, o irrepresentável: a guerra.
Acho que é um filme essencial pra quem se interessa por linguagem e semiótica. Pra quem não curte essas drogas mais pesadas, vale a pena pelos figurinos e pelos flashes glamourosos e modernosos da Paris dos anos 60. Quem quer saber mais fun facts sobre Godard, nouvelle vague e esses aspectos extra-obra, google it
#novinhos #work 
(Procuro fazer as resenhas a partir de reflexões que a própria obra me inspira – se eu preciso do google pra entender minimamente do que uma obra fala, ela falhou como obra pra mim, e eu falhei como audiência pra ela, não fomos feitas uma pra outra, sorry. Nesse sentido, confesso que meu orgulho pessoal foi ter entendido a referência de Godard a Bouvard e Pecuchet: uma estrelinha dourada a mais na minha carteirinha de cult que pega todas as referências, yeah!)

Além disso, pra quem quiser citar o filme sem tê-lo visto de verdade (acontece nas melhores famílias), fica a frase a linguagem é a casa onde o homem habita, que Godard estetizou a partir de uma formulação de Heidegger (essa referência eu tive que googlar) e a sensacional E se você não conseguir LSD, compre uma TV a cores.


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