“Ele não pode participar do debate que ajudou a criar”, diz David Miranda sobre Snowden

O debate que marcou o início do Conexões Globais 2014 trouxe à tona a questão do asilo político do ex-agente da NSA...

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O debate que marcou o início do Conexões Globais 2014 trouxe à tona a questão do asilo político do ex-agente da NSA

A primeira palestra do Conexões Globais 2014 contou com a  participação de Sérgio Amadeu, David Miranda, Antonio Martins e João Ferrer (da esq. para a dir.) (Foto: Conexões Globais)

Começou nesta sexta-feira (24), em Porto Alegre (RS), o Conexões Globais 2014, evento que tem como objetivo principal intensificar o diálogo entre os atores da sociedade em rede. A programação prevê 27 atividades, entre palestras e apresentações artísticas e musicais, durante o próximo final de semana. Todas serão transmitidas em tempo real pelo site e podem ser acompanhadas na revista Fórum.

O debate inaugural, batizado de “Soberania Digital e vigilância na internet”, contou com a participação de Sérgio Amadeu, sociólogo e integrante do Comitê Científico Deliberativo da Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura (ABCiber); Antonio Martins, jornalista criador do Le Monde Diplomatique Brasil e do Outras Palavras, e David Miranda, companheiro do jornalista britânico Gleen Greenwald, autor das reportagens que apresentaram Edward Snowden ao mundo. Demi Getschko, diretor-presidente do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) e considerado um dos “pais” da Internet no Brasil, participou virtualmente, por videoconferência.  A mediação ficou por conta de João Ferrer, secretário de Comunicação e Inclusão Digital do Governo do Estado do Rio Grande do Sul.

A pauta central das discussões foi, como sugere o nome da mesa, o monitoramento de dados realizado por meio da internet. Os debatedores utilizaram o escândalo da Agência Nacional de Segurança norte-americana (NSA) como ponto de partida, mas o diálogo englobou a atuação das grandes corporações de tecnologia, como Google, Facebook e Microsoft. “Usamos os serviços que essas empresas nos oferecem para termos liberdade, mas isso permite que elas façam intrusões”, disse Sérgio Amadeu. Apesar da situação crítica, ele defende que há maneiras de atenuar o problema. “Precisamos pensar em leis nacionais e tratados internacionais que protejam a internet da espionagem”, explicou. Demi Getschko reforçou essa ideia. “Mas as legislações nacionais deveriam ser feitas levando em consideração as leis nacionais, pois a vigilância massiva é, muitas vezes, respaldada por elas”, contrapôs.

Antonio Martins abordou mais o aspecto político da questão. Para ele, este cenário de monitoramento evidencia que o capitalismo enfrenta uma crise profunda, mas que isso não pode ser motivo de euforia. “Esse momento de baixa do capitalismo pode gerar sistemas mais democráticos ou de mais controle e hierarquia. Se não houver construção concreta de utopias coletivas, nós podemos comemorar a derrota do capitalismo e construir algo pior”, alertou.

Os debates mais intensos, no entanto, ocorreram em torno do caso Snowden. David Miranda, que, em agosto, chegou a ficar horas detido no aeroporto de Heathrow, em Londres, por transportar documentos do ex-agente da NSA, apelou para que o Brasil conceda asilo político, mesmo que temporário, ao norte-americano. Ele citou a petição que está sendo realizada em prol da causa e pediu ajuda a todos que veem em Snowden uma possibilidade de construir uma rede global mais democrática e menos vigiada. “No momento, ele está na Rússia e não pode participar do debate que ajudou a criar”, lamentou.

Miranda contou, ainda, que objetivo é coletar um milhão de assinaturas e leva-las à presidenta Dilma Rousseff, assim o Congresso Nacional retornar do recesso. Caso isso não convença as autoridades a abrigar Snowden, os demais países da América do Sul serão vistos como alternativa.

 



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