Quem é a feminista que está causando barulho com uma ‘nova’ bandeira: os pelos pubianos

Em 2012, Emer O''Toole decidiu não se depilar mais por causa do que chama de pressão sobre as mulheres para se conformar com “normas artificiais de gênero”. “Eu comecei a examinar minha própria relação com meu corpo”, diz

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Em 2012, Emer O”Toole decidiu não se depilar mais por causa do que chama de pressão sobre as mulheres para se conformar com “normas artificiais de gênero”. “Eu comecei a examinar minha própria relação com meu corpo”, diz

Por Kiko Nogueira, DCM

Emer O’Toole (Reprodução)

Emer O’’Toole é uma irlandesa de 30 anos, professora de “estudos performáticos” da Universidade de Concordia, em Montreal, no Canadá. Tornou-se uma das feministas mais controvertidas do mundo, especialmente pela causa que defende com maior veemência: a dos pelos pubianos.

Em 2012, ela decidiu não se depilar mais por causa do que chama de pressão sobre as mulheres para se conformar com “normas artificiais de gênero”. “Eu comecei a examinar minha própria relação com meu corpo”, diz.

Ela conta que uma das razões para abraçar essa ideia foi um escândalo em Dublin, onde um salão de beleza foi acusado de oferecer “depilações de virgem” para crianças de 11 e 12 anos. Emer uma das fundadoras do site Everyday Sexism Project, coletivo que “denuncia” o que considera manifestações de sexismo pelo mundo. O grupo conseguiu retirar da App Store, por exemplo, um aplicativo sobre cirurgia plástica para jovens.

Há alguns dias, Emer causou enorme barulho com um artigo para o jornal inglês The Guardian, do qual é colunista. Declarou 2014 “o ano da moita” —  ano da “moita”, se é que você a entende.

Para ela, a atriz Cameron Diaz é o símbolo de um movimento de rejeição à vergonha imposta às mulheres pela “indústria da remoção”. Isso porque Cameron incluiu em seu livro de dicas de beleza um capítulo dedicado aos pubianos. “Remove-los é o mesmo que falar ‘eu não preciso do meu nariz’”, escreveu a atriz.

Outro sinal de que o o vento está favor, acredita Emer, é a decisão da grife American Apparel de colocar nas vitrines manequins com verdadeiras perucas nas calcinhas, o que causou congestionamentos de curiosos em frente às lojas, fotografando a novidade.

“Este ano será nosso — nós, que amamos nossos jardins”, diz ela.

Manequins da American Apparel (Reprodução)

“Antes da Primeira Guerra Mundial, praticamente nenhuma mulher americana raspava as pernas. Em 1964, 98% delas com menos de 44 anos o faziam”, diz. “O capitalismo nos convenceu de que os pelos do corpo feminino não são naturais e tem sido assustadoramente bem sucedido nisso”.

“Como eu poderia querer que meus pelos pubianos fossem femininos e aceitáveis quando tinha tanta vergonha do cabelo em minhas pernas ou debaixo dos meus braços? Assim, como outras neste ano da moita, eu decidi que era hora de parar de desmaiar e acordar”.

A bandeira de Emer O’Toole está longe de ser uma unanimidade, mesmo entre seus pares. Gente como Emily McCombs, escritora e editora executiva do site feminista xoJane, critica o que classificou como obsessão idiota.

“Se você é uma feminista (mesmo que não seja), eu não dou a mínima para o que você faz com sua cara, seu corpo ou o que quer que seja. Vamos falar de direitos humanos, civis e políticos, sobre negras que não têm o direito de dirigir carros e meninas que são vendidas como escravas sexuais. Os debates sobre vaginas peludas são completamente irrelevantes”.



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22 comments

  1. Liana Weber Pereira Responder

    Concordo inteiramente com a Emily McCombs nesse ponto – que se danem os pelos pubianos, há direitos e condutas sociais muito mais importantes para conquistarmos antes desse “direito” idiota “a ser peluda”.

    1. Anacris Pereira Responder

      que a visibilidade de ‘ser peluda’ seja usada para dar visibilidade a outros temas tbm importantes.

    2. Alexandrina Mota Responder

      Concordo.

    3. Osvaldo Aires Bade Responder

      OBRIGAÇÕES!

  2. Alexandrina Mota Responder

    Ter ou deixar de ter pelos é uma escolha da mulher e não vejo necessidade de polemizar. Esse tipo de debate apenas ridiculariza o movimento feminista. A luta é por autonomia para a mulher. Que nada a impeça de decidir sobre sua vida privada ou em sociedade. E vamos a luta!!!

    1. Guest Responder

      OBRIGAÇÕES 3

    2. Osvaldo Aires Bade Responder

      OBRIGAÇÕES 3
      Feminismo por Marilyn:
      ‘Falta ambição às mulheres que querem ser iguais aos homens’

      1. Michelly Cristina Responder

        Ser feminista não e querer ser iguais aos homens, se a Marilym tivesse nascido um pouco antes, tipo uns 15 anos antes, ela provavelmente não se depilaria como e o padrão imposto, e na verdade pela época dela, com certeza depilação nas pernas, púbis e outras mais, provavelmente não existia ou algumas dessa ela não fazia.

        1. Osvaldo Aires Bade Responder

          Caramba!
          Quer dizer que Marilym se resumia a pelos?

  3. Thais Linhares Responder

    Caras, o tema não é bobagem não, se lembramos que obrigar meninas a alterar seu corpo (mesmo que seja só raspando, arrancando, regularmente seus pêlos naturais) é justamente uma das práticas comuns da nossa sociedade sexista. Impor a mulher que ela TEM de ter uma determinada aparência para ser aceita e valorizada é uma violência contra os egos, sobretudo das meninas. Se fosse uma coisa “idiota” como a Emily diz pensar, não faria tanto alvoroço se uma moça saísse na rua toda peluda. E sabemos muito bem que ela será alvo de gozação – no mínimo. Aguardem um pouco e vejam o que vai rolar nos comentários, sobretudo dos homens, que costumam se achar no direito de ditar como nós, mulheres, podemos ou devemos usar nossos corpos. É a prova de que não é nada fútil esse debate. E no mais, debates pequenos podem construir algo maior e vital pra todas.

    1. wagner Responder

      Perfeita colocação. eu considero mulher natural muito mais bonita, mulher de verdade e não menina.

  4. Renata Netto do Nascimento Responder

    Me parece que a “briga com/pelos pêlos” é uma busca por uma barulho que seja maior que o barulho que o machismo ainda faz no interior da mulher – ela ainda vive, pensa e sente sob os ditames do machismo. Me parece que deixar pêlos ou não é uma tentativa de quebra desse paradigma de fora pra dentro, sobre cuja eficiência e concretude tenho muitas dúvidas. Brigar por pêlos tem muito mais cara de “estou-tentando-me-convencer-de-que-sou-livre-mas-sei-que-não-sou” do que de convicção ideológica propriamente. Ok deixá-los crescer, ok não se submeter ao padrão estético imposto, ok viver da maneira mais natural possível, mas fazer disso uma vertente da causa feminista é demais, na minha opinião. Tô com a Emily também.

  5. Mandy Responder

    Mas sobrancelha ela faz e maquiagem ela usa… aham… sei…

    1. Osvaldo Aires Bade Responder

      OBRIGAÇÕES 1

      Feminismo POR Marilyn:
      ‘Eu sou definitivamente uma mulher e eu gosto disso’

      .

  6. José Geraldo Gouvêa Responder

    Tudo que é imposto é errado. Se estamos pensando demais em pelar as moitas femininas, isso não é saudável. Deve haver lugar para todo tipo de gente nesse mundo, isso inclui as peladas e as peludas.

    1. Paulo Cunha Responder

      Sem dúvida, há lugar para todo mundo desde que não seja uma obrigação, e acho que a melhor resposta é da própria Emer:
      “Q9. If you start shaving again, do you lose feminism?
      Naw. I’m aiming to have a relationship with shaving like the relationship I have with make-up – where I do it if the whim seizes me, not because I feel I have to.”
      P9. Se começar a depilar novamente, deixará de ser feminista?

      Nem. Pretendo ter uma relação com a depilação como tenho com a maquiagem: onde faço se o capricho se apodera de mim, não porque sinto que sou obrigada.
      Traduzido livremente daqui: http://vagendamag.blogspot.co.uk/2012/04/hair-not-musical.html

  7. Pedro Henrique A. Responder

    Só queria que as brasileiras fizessem o mesmo com as chapinhas, pois viva os cabelos cacheados!

  8. Cora Responder

    pelos no copro masculino também denotam falta de higiene? já parou pra pensar por que esta conotação completamente equivocada entre presença de pelos-falta de higiene só é feita em relação aos pelos do corpo feminino? ou uma mulher que não se incomoda com seus pelos pubianos (como o homem não se incomoda com os deles) também não toma banho? os pelos existem para proteger, retirá-los, na verdade, é que seria inadequado (machuca a pele, inclusive). talvez apará-los (como fazem os homens), fosse o mais adequado. mas, a indústria pornográfica, em função da necessidade de mostrar em detalhes a ação para os homens (a sexualidade dos homens é muito limitada ao pênis. para as mulheres as cenas não precisam ser tão invasivas e circunscritas à penetração) está formando uma geração de pessoas que tem uma ojeriza absurda e desnecessária a algo completamente inofensivo e natural. isso sem contar a infantilização da imagem feminina, afinal, meninas e pré-adolescentes é que não possuem pelos pubianos. mulheres adultas os têm. e é por isso que essa discussão é pertinente. por que exigir da mulher que se retire todos os pelos? pra que isso? e observe como os homens se ofenderam quando uma empresa de lâminas de barbear atrelou pelos com falta de higiene para os homens. você lembra da revolta masculina? pois é. de fato, exigir depilação total ou parcial, é um absurdo pra qualquer um, mulher inclusive. a ideia de Emer O”Toole é, além de fazer pensar nos padrões de comportamento impostos, fazer as pessoas compreendam que isso pode ser uma escolha pessoal que pode, inclusive, varia segundo o desejo da pessoa (como deixar os cabelo compridos ou curtos, p. ex.).

  9. Cora Responder

    entendo que existam questões mais violentas em relação à condição feminina no mundo, uma violência física e revoltante, pois defendida como legítima. mas isso não diminui a pertinência desta discussão. não é por se tratar de uma questão, que as demais percam a sua relevância. a violência simbólica é tão nefasta quanto a violência física. da mesma forma que a questão da imposição de um padrão é vista como questão ‘menor’, a violência física é minimizada e negada, ou justificada em nome da cultura e da tradição (aliás, como a violência simbólica). são as duas faces da mesma moeda (ou as múltiplas faces do mesmo dado), percebe?

  10. Cora Responder

    o que provoca mau cheiro, na maior parte da vezes, é a presença de bactérias na pele. usar produtos específicos para eliminá-las basta. pelos, por si só, não provocam mau cheiro.

  11. Michelly Cristina Responder

    Na verdade cada um protesta pelo que quer, se ela esta debatendo referente a algo que na minha opinião e muito relevante sim. Alterar o corpo e algo muito serio, para que seja imposto assim como algo obrigatório, imaginem se eu fosse obrigada a alisar o meu cabelo como muitas e quando olhassem meus cachos na rua dissessem “nossa que nojo olha esse cabelo?!” (FORA DOS PADRÕES) Fora os padrões de beleza!!

  12. Michelly Cristina Responder

    O problema e a obrigatoriedade que e imposta por esse padrao. Deve ser compreender que isso e uma alteraçao no corpo feminino e essa deve ser uma livre escolha, mas embora nao seja proibido se depilar, se eu resolver sai na rua com as pernas peludas e axilas tb, imagina os olhares de desaprovaçao! isso me parece mais algo obrigatorio


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