Consenso Progressivo, a prática para uma Nova Cultura Política

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Nós somos o que fazemos de nós. E a REDE que tecermos será resultado da forma com que foi tecida. Assim, a urdidura de um partido político de novo tipo, híbrido e mesclado com a sociedade (não mais como um movimento “à parte” – daí Partido) depende de respondermos qual Partido queremos, como queremos e para quais objetivos. Objetivo e método, desta forma, estão intrinsecamente relacionados.

A REDE nasce da insatisfação com o atual quadro político/partidário e do desejo difuso pela constituição de uma Nova Cultura Política. Buscando compreender nossos limites e possibilidades, procurei fazer perguntas e encontrar respostas, como em um diálogo, conforme o método do Consenso Progressivo.

 

Por que Partido?

A esfera de poder, Estado, é que mais pode interferir nas esferas da vida. De um lado, com a possibilidade de aplicação de políticas públicas abrangentes; de outro, menos positivo, mas até mais forte que o primeiro, entravando e corrompendo os movimentos da vida, seja em relação à saúde, cultura, educação, ambiente ou na dicotomia desenvolvimento/sustentabilidade, concentração/distribuição de renda, marco jurídico/comportamento social e todos os demais aspectos da vida econômica, política e até mesmo na expressão simbólica e demais campos da Cultura. Como no Brasil há um monopólio dos Partidos Políticos na mediação institucional e disputa política, há que constituir um partido que expresse aspirações por uma nova cultura política, permitindo-nos alcançar um novo estágio civilizatório e novas formas de mediação entre Estado/Sociedade.

Por que Partido/Movimento?

Partidos políticos, como instituições da esfera de disputa pelo poder institucionalizado, também se burocratizam, corrompem-se e fossilizam-se. É assim no Brasil como em qualquer outro país. Exemplo: México, em que um partido surgido a partir da primeira revolução camponesa do século XX, sob ideais de Emiliano Zapata e Pancho Villa, incorporando as forças transformadoras da nação, paulatinamente se transforma na maior máquina de corrupção e degradação de condutas políticas da América Latina, o PRI – Partido Revolucionário Institucional –; este exemplo não é exceção, mas regra no ambiente dos partidos políticos que conquistam o poder, sobretudo aqueles que lá permanecem por longo tempo. Um partido de novo tipo tem que ser, ao mesmo tempo, leve e presente, ampliado e gasoso, um Partido Vivo, que entra no fluxo dos movimentos da sociedade, como em vasos comunicantes, abrindo espaço para o ativismo temático ou autoral e não necessariamente incorporado ao corpo programático do partido.

Por que Mudança já?

Como no verso de Carlos Drummond de Andrade, “São tão fortes as coisas / mas eu não sou as coisas / e me revolto!” Há um sentimento amplo e difuso de frustração com os rumos da política institucional tal como praticada no Brasil, as pessoas sentem que algo está errado, querem um novo caminho, todavia não o encontram. Não o encontram exatamente porque os momentos que deveriam concentrar com mais intensidade o debate político – as eleições -, são monopolizados pelos partidos políticos, sempre sob a lógica do Poder pelo Poder. E pior, é no período eleitoral que se intensifica o processo de corrupção política, via financiamento de empresas, sem limite de doações e sem teto de gastos, às candidaturas, que já partem comprometidas com quem os financia, travando qualquer possibilidade de ativismo social pulverizado. Outro aspecto é que, no período eleitoral, o debate político é reduzido à pasteurização do marketing eleitoral, promovendo uma indiferenciação entre propostas e posturas políticas, que leva ao sentimento de que “todos políticos são iguais!”. Agora, em 2014 haverá novas eleições; caso a sociedade não consiga produzir uma nova alternativa, esse quadro se agravará, deteriorando ainda mais os hábitos políticos e os rumos futuros do país.

Por que REDE Sustentabilidade?

Por ter a característica de Partido/Movimento, não vertical e plasmado nos movimentos e no protagonismo da sociedade, a REDE não leva em seu nome o prefixo “Partido”; somos inteiros e queremos estar à frente, contribuindo para o estabelecimento de novos padrões de democracia, sustentabilidade, convívio e ativismo social. Por que REDE Sustentabilidade? Porque a busca de novos padrões de convívio democrático implica no encontro da unidade na diversidade; sobretudo em um país diverso e plural. Por que Sustentabilidade? Exatamente porque a saída desta situação em que o Poder/Estado e o Poder/Política se distanciam dos anseios da vida -e até a corrompem e matam- precisa acontecer pela liberação das forças da Potência/Vida, equilibrando a relação entre Sistemas da Vida (Natureza e humanidade, com suas necessidades, desejos e vontade) e os Sistemas Estado e Mercado. Um partido/movimento, que faça da Bioluta (a luta da vida), a vontade soberana da vida sobre a força das coisas. Esta é a Sustentabilidade que buscamos para uma Nova Cultura Política.

Como a REDE Sustentabilidade se insere no atual quadro político?

Como um Partido/Movimento em construção, ainda na fase de definição de rumos e formas de ser, a REDE encontra-se na fase da “Negação”, objetivando o “Vir a Ser”. Saber fazer a adequada mediação entre “Preservação” e “Superação” é o nosso grande desafio. O primeiro grande teste aconteceu com o impedimento cartorial para o funcionamento pleno e legal da REDE nas eleições de 2014. Em menos de 48 horas foi necessário decidir entre “manter-se à parte do debate eleitoral”, sem condições de apresentar alternativa de voto (que é a régua estabelecida para medir o peso das forças políticas no jogo institucional), concentrando-se na estruturação interna do partido, ou se jogar no rio, no fluxo do debate político mais amplo, via eleições. Atiramo-nos no rio e seguimos a correnteza, com todas as dificuldades que isto representa. Atirar-se ao rio, todavia, não significa abdicar da travessia, pelo contrário, só se consegue atravessar um rio quando se entra nele, nem que seja para construir pontes futuras para os que vierem depois não precisarem se molhar.

Os desafios da REDE.

O primeiro deles: encontrar um aliado que, ao mesmo tempo, desse acolhida (incorporando idéias e pessoas) e respeitasse a singularidade da REDE. O PSB fez isso, honrando sua história de partido nascido na Esquerda Democrática, ao final da ditadura Vargas, com todas as suas bandeiras de luta, conquistas e contradições ao longo de quase 70 anos de história. O segundo desafio: encontrar pontos de equilíbrio nas disputas políticas estaduais; em muitos casos isto não será possível e cada qual seguirá seu rumo de forma independente, mas há que tentar; e, em não conseguindo, assegurar espaço para candidaturas legislativas, cívicas e independentes, comprometidas com o ideário da REDE. Terceiro desafio: clarificar a política da REDE, seus princípios, pressupostos teóricos, tática (como o se mover no movimento político diário) e estratégia política de longo prazo. Quarto Desafio: adequar os princípios e valores da REDE à prática organizativa cotidiana. De todos, este talvez seja o maior desafio no momento.

O Desafio de construir uma Nova Cultura Política no cotidiano organizativo.

REDE pressupõe cooperação, colaboração, equilíbrio. Só se coopera quando há disposição para trabalho conjunto (co-laborar), para a atuação comum. E para que a atuação seja comum é necessário que o objetivo seja comum, clarificado, transparente; e não somente o objetivo, mas o processo, a forma com que se busca alcançar o objetivo. Daí a necessidade de transparência e repertório comum. Só assim se encontra o Ponto de Equilíbrio.

A busca dos Pontos de Equilíbrio na REDE.

Em primeiro: há que ter disposição para o diálogo e o aprendizado mútuo. Sempre haverá desníveis informativos e de conhecimento, mas estes devem ser reduzidos ao máximo, de modo que o domínio de conceitos e história, a linguagem e as próprias posturas pessoais tenham um mínimo de plataforma inteligível e aceita por todos. Em segundo: confiança e respeito; confiar, de fiar juntos, de tecer a mesma rede; respeito, de reconhecer o papel de cada um, seu acervo de conhecimentos, interpretações e capacidade de agir, por mínimo que seja. Terceiro ponto: ter a exata noção de que o “Novo” só é possível a partir do “Velho”, provocando um processo de renovação permanente, que ao mesmo tempo preserve e invente. Como Elo entre estes Pontos: Generosidade; o se dispor para o bem comum, o conceder (ceder junto), o se colocar no lugar do outro, a disposição para oferecer o que cada um tem de melhor (e a disposição para receber o que cada um tem de melhor), o dispor e não o impor. Só se alcança equilíbrio quando há uma justa combinação entre Identidade (aquilo que nos distingue em nossa personalidade) e Alteridade (aquilo que identificamos no outro, que nos é distinto, e ao mesmo próximo em sua diferença) que resultam na Solidariedade (aquilo que promove laços e compromissos entre as pessoas).

Como devem se expressar os Pontos de Equilíbrio na REDE?

Pelo estabelecimento de Vínculos. Vínculos quentes, para além de contatos virtuais, necessários, mas insuficientes para a sedimentação de compromissos duradouros; os vínculos interpessoais são fundamentais para a tecitura de redes sólidas e consistentes. Vínculos que unam Potência (capacidade de agir e transformar) com Afeto (afeição, afinidade, sentimento de adesão amorosa), resgatando o Ato de Amor como forma de fazer Política. Política do se doar, do respeito ao próximo, do se perceber no outro, da compaixão, da revolta e da capacidade em transformar o sentimento de revolta em ação transformadora a serviço do Bem Comum. Vínculos de paz e para a luta.

Potência e Afeto como pontos fundamentais para uma Nova Cultura Política.

A história da dominação política é a história da concentração de poder, conhecimento e energias, do mando, da imposição e do controle; da depressão da potência, enfim. Primeiro concentrava-se forças para fazer um canal de irrigação ou colheita, depois pirâmides e palácios. E para que muitos se submetessem a poucos, era necessário fazê-los crer que eram fracos, dependentes, carentes; o oposto da potência. É assim até os tempos atuais, em que direitos são transformados em dádivas, gerando assistencialismo e paternalismo. O ponto de mudança para inverter esta relação de dominação está em fazer com que os carentes se descubram potentes. Por vezes isto acontece em momentos de grande comoção coletiva ou revoluções, mas ainda assim, mantendo concentração e controle em poucas (ou uma só) mãos. O desafio está em unir Potência com Afeto, seja internamente, na construção de um Partido/Movimento como a REDE, seja na relação entre este e a sociedade ou na sociedade entre si. Afeto que se exercita pela Arte, no terreno fértil da Cultura (que pode libertar, mas também aprisiona, se não vier acompanhada do fortalecimento da autonomia, protagonismo e empoderamento dos agentes sociais). Estamos, como civilização, a um passo deste encontro.

Convergência como fim, Consenso Progressivo como meio.

Concorrer a um mesmo Ponto, este é o objetivo. Que Ponto é este? O Bem Comum. A água, o ar, as florestas; a vida e os direitos da Terra; a educação pública e laica como plataforma comum de conhecimentos e relacionamentos; a saúde como direito inalienável, como bem que não se compra nem se vende, apenas se garante, se assegura sem distinção a quem; o direito de ir e vir em transporte confortável e eficiente; a Cultura, como elo entre a preservação e a invenção. Pode-se encontrar outros pontos de Convergência, mas em nosso atual estágio civilizatório, talvez estes denominadores comuns estejam de bom tamanho. Ocorre que mesmo estes, cada vez mais se transformam em Mercadoria, meio de compra e venda em que a vida é tratada como coisa. O desafio da REDE é apresentar à sociedade os seus Pontos de Convergência, bem como perguntar se esta sociedade está disposta a deixar de ser coisa e encontrar os seus Denomidores Comuns de Civilização. E, caso não se consiga alcançar estes Pontos de Convergência de imediato, que se busque outros Pontos em Comum (uma educação melhor, uma saúde mais humana, serviços públicos mais eficientes, uma Cultura mais diversa e emancipadora, um Ambiente mais protegido) Como método, o Consenso Progressivo, a ser praticado, exercitado exaustivamente, dentro e fora da REDE, na sociedade e para a sociedade.

Consenso Progressivo, a prática de uma Nova Cultura Política.

Consenso não é unanimidade. Consenso é resultante do ato de Consentir, de não criar obstáculos ou impedimentos. É fruto de um gesto de generosidade e grandeza ao mesmo tempo; generosidade porque expressa desapego; grandeza porque se cede no menor para se ganhar no maior, se abre mão do que não é significativo para se ganhar no futuro, naquilo que realmente importa. Somente quem consegue enxergar além (ou, no caso de um jogo, olhar o tabuleiro por cima, antevendo movimentos) é que consegue Consentir; por esta lógica, ganha quem cede mais, como em um jogo de xadrez, em que o objetivo principal é encurralar o rei, dando-lhe Xeque-Mate, mesmo que para isto seja necessário entregar peças de menor valor. Mas isto não se dá de uma única vez, ou em uma única pergunta, há que ter paciência histórica e capacidade de compreensão sobre os limites e possibilidades dos agentes envolvidos. E fazer sucessivas perguntas, como em um exercício matemático, quando, ao não se encontrar um denominador comum, se faz uma nova equação, um novo exercício de multiplicação ou divisão. E saber valorizar cada ponto em comum que se encontra, por menos significativo que aparente ser. Ao encontrá-lo se parte para novas perguntas, alcançando novos patamares de entendimento e assim sucessivamente. O importante é a busca daquilo que melhor permita o encontro do comum. Aparentemente este método pode ser demorado, pois mais fácil seria logo encontrar pontos de divergência e colocá-los em votação, de modo que a decisão da maioria prevalecesse sobre a minoria (e esta, em acordo prévio, se submeteria à decisão). Assim tem sido a prática do que consideramos democracia (a maioria vota e decide). Mas esta não é a “Democracia” e sim uma forma, um método de democracia. E mesmo este método, bastante distorcido, pois há diversas maneiras de manipular a opinião das maiorias (poder econômico, mídia, ignorância, medo). Há outras formas, cabe exercitá-las. No Consenso Progressivo, o tempo que, aparentemente, se perde no processo decisório, é ganho na fase seguinte, na implantação das decisões. Isto porque se estabelece um outro fluxo de energia, em que as pessoas, convencidas de uma decisão, se movem em ondas comuns. E esta não é uma prática recente, apenas descoberta no século XXI, mas já é exercitada há milênios por povos tradicionais, seja em aldeias ou grupos de nações sem Estado. Também tem sido exercitada em Assembléias Populares como com os novos movimentos anticapitalistas espalhados pelo mundo, sejam os indignados ou acampamentos da Europa, Occupy Wall Street ou nos movimentos indígenas da América do Sul e México. Consenso Progressivo, uma nova prática democrática a se experimentar!     



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2 comments

  1. Marli Abrahão Responder

    Ao terminar a leitura, o que sinto é esperança, mostra que existe alternativa para melhorarmos nossa sociedade: Consenso Progressivo.
    Excelente!

  2. Mayra House Responder

    Celio Turino falar o que ? Se não deixou duvidas compreendi perfeitamente e esclarecedor só tenho que agradecer.Parabens !!!


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