“Inch Allah” repete clichês e preconceitos sobre conflito no Oriente Médio

Chloé é uma médica canadense que divide o tempo entre Ramallah, onde trabalha, e Jerusalém, onde vive com israelenses

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Chloé é uma médica canadense que divide o tempo entre Ramallah, onde trabalha, e Jerusalém, onde vive com israelenses

Por Marina Mattar, no Opera Mundi

(Foto: Divulgação)

Inch Allah poderia entrar no rol de bons filmes sobre a ocupação israelense na Palestina. A produção mostra a complexidade dessa realidade por meio dos olhos de Chloe, uma ginecologista canadense que trabalha em um centro médico das Nações Unidas na Cisjordânia — onde se sensibiliza com a mazelas cotidianas da vida ali –enquanto em seu apartamento, dividido com israelenses, compartilha nas conversas prazeres e angústias.

Chloe é amiga de Rand, uma de suas pacientes palestinas grávidas, cuja vida é bastante prejudicada pelo aparato de segurança de Israel, e de Ava, uma jovem soldada israelense, que vive triste, mas conformada com sua realidade. É sob esse eixo, materializado na figura do muro que separa Israel e Palestina, que Inch Allah se desenvolve.

O filme, uma produção israelo-canadense, porém, está longe de ser comparado com outras produções recentes, como o documentário Cinco Câmeras Quebradas (2011) e outras ficções comoLemon Tree (2008). Aos olhos desatentos, Inch Allah pode parecer um filme imparcial — como se isso fosse possível — que consegue abordar o conflito e os problemas de palestinos e israelenses de forma isenta e até mesmo, com a sensatez de quem está de fora da guerra. Para os mais fervorosos defensores de Israel, o longa canadense pode parecer, até mesmo, uma apologia à resistência armada palestina. Mas, muito diferente do que enuncia seu subtítulo (“em meio a guerra, ela escolheu os dois lados”), Inch Allah é o retrato da ocupação israelense em sua melhor forma: inteligente, sutil e blindada às críticas.

O longa mostra que não foram apenas os armamentos e equipamentos de vigilância que evoluíram, mas também a inteligência e os artíficies da propaganda de Israel. Quem diria que um dia, mesmo mostrando a violência cotidiana das Forças Armadas de Israel contra crianças inofensivas, seria possível justificar o injustificável, uma ocupação injusta de território e uma dominação, ainda mais injusta, de um povo?

A diretora e roteirista canadense Anaïs Barbeau-Lavalette, apesar de todas as cenas dramáticas envolvendo as forças israelenses, reproduz a ideia de que os palestinos são responsáveis pelo “excesso de segurança”. Essa característica é o lado mais cruel de Inch Allah e muitos são os problemas envolvidos em sua construção. Começando pelo seu conceito do conflito palestino-israelense: de que é uma guerra com dois lados iguais, cada qual com suas respostas e problemas – e, portanto, parcialidades que de tão complicadas, nem mesmo podem ser superadas por uma canadense neutra, sensível e bem-intencionada.

Inch Allah parece reproduzir os noticiários da grande mídia mundial: palestinos e israelenses têm, cada um, suas razões, mas ambos cometem injustiças. Mas, ao contrário do que insiste em repetir, o conflito palestino-israelense tem origem histórica e uma causa bem clara – a dominação territorial de judeus sionistas na terra Palestina, que expulsaram centenas de milhares de palestinos de suas casas – o que não tem nada a ver com “lados” ou “versões da história”, como é amplamente reconhecido em organismos internacionais, como a ONU.

O filme permanece no jargão tão conhecido de que terroristas suicidas matam inocentes, assim como o Estado de Israel, e isso acaba em uma bola de neve quase ou impossível de ser solucionada. Um bebê morto por conta da repressão israelense gera um novo “homem-bomba” palestino, que por sua vez, leva ao recrudescimento de Israel e assim por diante. Uma confusão tão grande que leva até mesmo sua personagem principal à insensatez.

É verdade que Inch Allah procura compreender e humanizar o terrorismo como uma ação de pessoas desesperadas e duramente injustiçadas pela vida em uma ocupação. Mas, ao mesmo tempo, justifica os check-points, as batidas militares, as armas potentes e o medo de Israel como respostas plausíveis às ações violentas dos palestinos.

O problema é que, em primeiro lugar, ignora a assimetria de forças entre palestinos e um dos mais sofisticados aparatos de segurança do mundo. A jovem soldada, sempre na posse de um grande fuzil ao lado de companheiros igualmente muito bem armados, aparece frágil e amedrontada frente ao terror. De acordo com dados da organização israelense B’TSelem, o número de palestinos mortos por forças israelenses entre os anos de 2000 a 2013, sem contar a operação de guerra Chumbo Fundido (2009/2010), foi de 5405 (incluindo 1035 menores de 18 anos) comparados a 737 israelenses mortos por palestinos (não apenas em atentados).

Supervalorização do terrorismo suicida

(Foto: Divulgação)

E, em segundo lugar, porque passa a ideia de que a luta palestina é focada apenas no terrorismo suicida, quando essa prática é, na realidade, muito pouco utilizada. Segundo dados do centro norte-americano CPOST (Chicago Project on Security and Terrorism), a maior concentração de ataques suicidas de palestinos em Israel se deu entre os anos de 2001 até 2005, sendo que, desde 2009, não há nenhuma ocorrência registrada.

Ao fazer essa escolha, de retratar “homens-bomba” mesmo que de forma humanizada, o filme não só acaba por entrar numa reprodução de estereótipos da Palestina como também perde um grande tema, a resistência pacífica, que tem gerado ótimas produções sobre o tema, como o documentário Budrus (2009), da brasileira Julia Bacha, e Cinco Câmeras Quebradas (2011), do palestino Emad Burnat.

Ambos mostram os protestos e ações de desobediência civil que desconsertaram, nos últimos anos, Israel e seu aparelho repressivo em diversas cidades da Cisjordânia, a poucos quilômetros de Ramallah, cenário principal de Inch Allah. Essas lutas, ao contrário do que mostra o filme, têm sido a principal arma da luta palestina e envolvem também judeus e israelenses.

A interpretação enviesada da luta palestina fica evidente na ausência de diálogos e denúncias políticas por parte dos palestinos. Os personagens envolvidos na resistência compõem uma organização armada, descrita apenas pela imagem de cartazes de suicidas com armas, e são extremamente obscuros e mal verbalizam os problemas da ocupação israelense. Quando decidem se expressar, é por meio da raiva e do ataque à posição ambígua da canadense Chloe. Onde estão os projetos artísticos e culturais, como o Teatro da Liberdade (do campo de refugiados de Jenin), o hip-hop da juventude palestina, os grafites e outras expressões?

Outras críticas

Como aponta a crítica ao filme do site Eletronic Intifada, “não são os palestinos que narram seus traumas e injustiças; Chloe assume seu espaço. Ela não é uma ocidental simpática a seus amigos palestinos, mas seu substituto para uma plateia ocidental”. Seu autor ainda acrescenta: “é irônico, ainda que não surpreendente, que o filme reproduz a frustração de Chloe sobre uma emissora de rádio francesa que não reporta a violência contra os palestinos”.

Outro problema do longa é a forma como retrata os palestinos em seus momentos mais cotidianos. Inch Allah chega a parecer um romance “naturalista” do final do século XIX quando assemelha os palestinos a homens tão mal-educados, sujos, miseráveis e bestiais que mais se parecem com bichos. A cena de uma senhora palestina comendo favas de mel como um animal faminto; o personagem de uma criança que não toma banho, não troca de roupa e não fala, apenas brinca com pedras; garotos tão abandonados em um lixão que humilham uma mãe depois da perda de sua criança; homens brutos que mal se comunicam; em contraste com um Israel rico e ocidental, de pessoas educadas, bares, restaurantes e boates; será tudo isso uma denuncia de miséria ou uma subversão de uma sociedade mais complexa?

Não são apenas as diferentes formas da resistência palestina que Inch Allah deixa de lado. Na hora em que Ava, a jovem soldada amiga de Chloe, responsável pela vigilância em um dos check-points, lhe confessa que detesta seu trabalho, mas se sente obrigada a permanecer no cargo, o filme poderia ter explorado um dos grandes debates de Israel: sobre a estrutura do aparato de segurança do Estado, que obriga jovens a entrarem no serviço militar ao mesmo tempo em que lhes condiciona, por meio de benefícios e discursos, a continuar na carreira.

O longa deixa de trazer à cena também os jovens israelenses que, frente aos absurdos de seus cotidianos em postos militares, decidem desertar ou encontrar outros caminhos depois do serviço obrigatório – elementos que aparecem em Budrus, por exemplo.

É a falta dessa riqueza, encontrada na realidade de palestinos e israelenses, que faz de Inch Allah uma narrativa sofisticada na forma, mas rudimentar no conteúdo, vítima de reproduções simplistas e pouco explicativas que acabam por servir a interesses políticos muito menos humanitários e supostamente ingênuos. Assim como sua personagem principal, o longa quer se posicionar no conflito palestino-israelense de forma neutra, mas acaba por reproduzir, ainda que não intencional, aquilo deve ser superado: a subjugação do povo palestino.



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