Quem precisa da Gestapo quando se tem ‘Angry Birds’?

Quanto poder diabólico ditadores do passado teriam colhendo dados voluntariamente compartilhados por um bilhão de usuários que não suspeitam nada

417 0

Quanto poder diabólico ditadores do passado teriam colhendo dados voluntariamente compartilhados por um bilhão de usuários que não suspeitam nada

Por  Robert Scheer, original em Truthdig. Tradução por Ítalo Piva.

Nenhum líder totalitário jamais poderia sonhar com tal poder de vigilância sobre sua população (Johan Larsson)

Em algum lugar nos becos mais profundos do inferno, Adolf Hitler e sua turma de ditadores menos importantes devem estar atormentados pelo fato de não terem vivido o suficiente para porem as mãos no ‘Angry Birds’. Quanto poder diabólico eles teriam, sem jogar o jogo, mas invés disso colhendo dados voluntariamente compartilhados por um bilhão de usuários que não suspeitam nada.

“Quando um usuário de smartphone abre o Angry Birds, o aplicativo de jogo popular, e começa a lançar passarinhos contra barulhentos porcos verdes, agências de espionagem já planejaram como se esconder nos bastidores para roubarem dados revelando a localização de um jogador, idade, sexo e outras informações pessoais…”, afirma o New York Times, baseado nas mais recentes revelações de Edward Snowden.

Não há necessidade de a Gestapo arrombar portas de apartamento e brutalmente interrogar cidadãos sobre os momentos mais reservados de suas vidas privadas quando uma vasta quantidade de informações vindas de jogos, mapas e redes sociais são pirateadas pelo governo. Nenhum líder totalitário jamais poderia sonhar com tal poder de vigilância sobre sua população.

Fantasias assombrosas como essa, é claro, estão longe do raciocínio de nossas próprias e democraticamente orientadas agências de espionagem americanas e britânicas, que nos asseguram que só perseguem os malvados. Porém, detalhes tão específicos sobre nossas anteriormente presumidas vidas pessoais, como revelados por outro conjunto de documentos de Snowden divulgados pelo TimesThe Guardian poderão algum dia abrir os portões pra uma sociedade totalmente regimentada.

O que é alarmante é a profundidade dos detalhes, tanto quanto a abrangência da informação, retirada dos ubíquos aplicativos de celular, incluindo afiliação política e preferências de gênero, localização geográfica, e uma extensa rede de seus amigos e até associados distantes.

Anúncios

Essa informação, facilmente obtida pelos espiões do nosso governo em cooperação com seus parceiros na Inglaterra, vai muito além da coleta generalizada de metadados revelada no passado, e chega a monitorar as partes mais íntimas de nossas vidas, acessíveis através dos chamados “aplicativos furados” como Google Maps, Facebook, Flickr, LinkedIn e Twitter. Como resultado, tudo da sua lista de contatos, grupos de amigos, e dados geográficos embutidos em fotos e relatórios telefônicos está prontamente disponível para as agências espiãs, e também, como se gabou uma das agências britânicas em 2012, detalhes sobre afiliação política e orientação sexual.

Defensores do enorme programa de espionagem governamental, incluindo o presidente Obama, dizem que as operações de coleta de dados não invadem a privacidade individual. Em comentários sobre o assunto na semana passada, Obama apontou que companhias privadas de publicidade coletam as informações privativas de usuários de celular, mas nem mencionou o fato de que seu governo está ocupado tentando apreender muitos desses dados.

Ao contrário da descrição inocente de Obama sobre a vigilância governamental feita conjuntamente pela NSA e sua equivalente britânica, a GCHQ, a última celebra que o uso de aplicativos para a espionagem “efetivamente significa que qualquer um usando Google Maps em um smartphone está trabalhando para apoiar o sistema da GCHQ”, mostra um dos documentos de Snowden.

Em um slide usado para demonstrar o alcance do programa chamado “Golden Nugget”, numa palestra de 2010, o documento diz que a apresentação incluía “O cenário perfeito – Alvo subindo uma foto na rede social através de um dispositivo móvel. O que podemos pegar?”.

A resposta é clara, quase qualquer pedaço de informação que pensávamos estar preservado na zona ameaçada conhecida como espaço privado. O The Guardian descreveu essa intrusão do governo:

“Os documentos sugerem que dependendo de qual informação de perfil um usuário forneceu, a agência pode colher quase todo detalhe principal da vida de um usuário, incluindo país de residência, localização atual, idade, gênero, código postal, estado civil – opções incluem ‘solteiro’, ‘casado’, ‘divorciado’, ‘swinger’ e mais – renda, etnia, orientação sexual, nível de educação, e quantidade de filhos”.

Não precisamos ficar preocupados sem necessidade; afinal, vivemos no mundo livre e esses programas são gerenciados por, como Obama nos assegurou, pessoas boas que só têm nossa segurança em mente. Eles também têm um senso de humor, particularmente os britânicos, que quando usam nossos smartphones contra a gente se apropriam de nomes do seriado de TV “Os Smurfs”, descrevendo o tamanho do poder que o governo exerce sobre os aparelhos que compramos.

“Smurf Narigão” é definido como um microfone de celular tornado “quente” para que ouçam nossas conversas sem nosso conhecimento; “Smurf Rastreador” rastreia com precisão todos nossos movimentos de viagem; “Smurf Sonhador” permite a ativação de um telefone desligado; e “Smurf Paranóico” é o nome para a capacidade do software se esconder automaticamente. Esse último deve nos relembrar que até os paranoicos tem inimigos.



No artigo

x