EUA seguem em frente com a militarização de suas universidades

Depois dos atentados de 11 de Setembro, as universidades norte-americanas aumentaram sua dependência do Pentágono e dos interesses corporativos

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Depois dos atentados de 11 de Setembro, as universidades norte-americanas aumentaram sua dependência do Pentágono e dos interesses corporativos

Por Jorge Muñoz, original em La Marea. Tradução por Ítalo Piva

Depois de manifestações, nenhuma mínima referência ao desmantelamento do Centro Morales- Shakur (Foto defendmorales-shakur.org)

No dia 20 de outubro passado, a reitoria da City University of New York (CUNY) fechou sem aviso prévio o Centro Comunitário Morales-Shakur, o único no campus inteiro gerenciado inteiramente por estudantes. Porém, o fechamento não foi tão tranquilo quanto os responsáveis da universidade gostariam. Apesar de vários policiais terem aparecido de surpresa e bloqueado o acesso ao centro, a notícia se espalhou pela faculdade rapidamente e alguns alunos tentaram invadir o centro para evitar que fosse fechado. A polícia respondeu com o uso indiscriminado de spray de pimenta e dois estudantes foram presos.

No dia seguinte, os estudantes que se aproximaram do centro podiam ver um cartaz pregado na porta que dizia “Centro para o Desenvolvimento Profissional”. Durante a semana seguinte, a administração da universidade confiscou todos os materiais presentes no local (computadores, livros e vários documentos) e até agora não os devolveu aos estudantes. Já se passaram dois meses.

Depois do incidente, a CUNY não quis fazer nenhuma declaração sobre o decorrido. Publicou somente um comunicado em sua página oficial do Facebook dizendo que “o instituto para o Desenvolvimento Profissional da CUNY há tempos vem expandindo com o objetivo de prover serviços adicionais aos estudantes que buscam assistência em sua transição do mundo acadêmico ao profissional”. Nenhuma mínima referência ao desmantelamento do Centro Morales- Shakur.

Morales e Shakur, dois nomes polêmicos  

O Centro Comunitário Morales-Shakur devia seu nome a dois ativistas de esquerda dos anos setenta. Guillermo Morales foi um dos líderes do grupo independentista porto-riquenho FALN (Frente Armada da Libertação Nacional) e esteve envolvido com vários atentados a bomba naqueles anos. Finalmente foi processado pelo porte de explosivos que tinham resultado em uma explosão em 1978, mas conseguiu escapar da justiça americana e atualmente vive em Cuba como refugiado. Por sua parte, Assata Shakur (nascida Joanne Deborah Byron) foi uma estudante e ativista da CUNY durante o final dos anos sessenta, e membra ativa do Black Liberation Army (Exército de Libertação Negra, mais conhecidos como Panteras Negras), organização político-militar que lutava pela independência e a autodeterminação da comunidade negra nos Estados Unidos. Como Morales atualmente também vive em Cuba, onde foi acolhida como refugiada depois de ser acusada pelas autoridades norte-americanas, pelo assassinato de seu companheiro, o ativista Zayd Shakur. Para muitos nos EUA, aquelas acusações eram falsas e foram criadas para calar a voz problemática de Shakur.

Com um currículo tão vasto, tanto Morales como Shakur não tardaram em se tornarem ícones entre os movimentos de esquerda, e assim, o centro Morales-Shakur foi criado em 1989 pelos estudantes mais politicamente ativos, como resultado de um acordo negociado com a administração da CUNY, depois de uma greve para evitar um grande aumento de taxas proposto pela universidade. Definitivamente, desde o momento de seu nascimento, o centro está envolvido em polêmica. Mesmo que para muitos estudantes Guillermo Morales e Assata Shakur sejam exemplos de compromisso e luta a favor das minorias desfavorecidas, não são poucas as vozes que os consideram figuras do mais perigoso radicalismo vermelho, e até os chamam de terroristas. Em vista do ocorrido em outubro, parece que essa também é a opinião da maioria dos departamentos da CUNY.

Desde sua criação, foram vários os incidentes acontecidos em torno do polêmico centro. Em 1998, três estudantes descobriram que uma mini câmera de segurança tinha sido instalada dentro de um falso detector de incêndio, com a finalidade de registrar em vídeo todos aqueles que frequentavam o centro Morales-Shakur. Os estudantes ficaram indignados e protestaram contra a universidade, mas depois de um processo politizado, a Justiça declarou que a administração da CUNY estava em seus direitos ao instalar dita câmera. Alguns anos depois, em 2006, a reitoria da universidade tentou – sem conseguir – que o nome do centro fosse trocado por ser “impróprio e não autorizado”, já que honrava duas pessoas fugitivas da justiça norte-americana.

Um chefão do Pentágono no campus

Nos meses transcorridos desde o fechamento do centro, foram feitas muitas mobilizações e manifestações estudantis com o objetivo de reabrir o centro Morales-Shakur, mas a CUNY, num exercício de hermetismo administrativo, tem virado a cara e desprezado ato após ato. Como se não existissem.

Alguns dos estudantes mais envolvidos com o centro comunitário insinuam interesses ocultos por trás do fechamento abrupto. Gargi Padki, coordenadora de projetos no centro de estudos sociais da universidade, aponta que apenas uma semana depois do incidente, a CUNY recebeu uma doação anônima de quatro milhões de dólares. Por sua parte, Dylan Farley, estudante da CUNY, assegura que o fechamento responde a uma estratégia de “militarização” da universidade.

Para Dylan e muitos outros estudantes, essa estratégia se tornou evidente em abril do ano passado, quando se supôs que o ex-comandante do pentágono e ex-diretor da CIA, David Petraeus, seria contratado como professor visitante com um salário anual de 200 mil dólares. A notícia soou os primeiros alarmes entre os estudantes e gerou inúmeros protestos. A polêmica acabou publicada nos meios mais importantes da cidade, mas girou em torno do salário que Patraeus ia receber por apenas onze aulas por ano. O resultado de tal escândalo midiático foi que a CUNY e Petraeus foram obrigados a anunciar uma diminuição no salário, até reduzi-lo a um simbólico dólar.

Contudo, o que preocupava muitos estudantes – além do elevado salário – era o currículo de Petraeus. O perfil deste ex-chefão da segurança nacional era para eles um claro indício da direção que a CUNY estava tomando em sua política docente. Este militar é famoso por apoiar e comandar ataques e bombardeios no Afeganistão e Iraque, e também é conhecimento público que seu nome foi cogitado como candidato de peso (inclusive para vice-presidente), tanto no partido Republicano como no Democrata. De qualquer maneira, para a maioria dos estudantes da CUNY, a nomeação de Petraeus como professor visitante foi uma amostra clara do redirecionamento do centro acadêmico para uma militarização ideológica e estrutural, evidenciando uma aposta no estabelecimento político, e uma forma de suporte às políticas militares intervencionistas dos Estados Unidos.

Tanto para Dylan como para Gargi, além do famoso “Caso Petraeus”, a militarização da CUNY se demonstra em pequenas decisões e mudanças que inopinadamente se tomam no campus; como o aumento na presença de Recruit Training Commandos (unidades do exército que tratam de atrair novos recrutas ao órgão), o aumento no número de policiais e guardas armados com spray de pimenta e anedotas significativas como a mudança do nome da Escola de Ciências Políticas, para Escola Colin L. Powell de Liderança Cívica e Global. Trocar a ciência pela liderança, isso é a América do Norte.

11 de Setembro não está tão distante

Porém, esse processo de militarização não é exclusivo a Nova York ou a CUNY. Para o professor Henry A. Giroux, sociólogo e diretor do Centro de Estudos de Interesse Público na McMaster University em Ontário, a educação superior nos Estados Unidos passa por um momento crucial devido às fortes restrições financeiras e uma crise de legitimidade sem precedentes em sua história. Segundo Giroux, depois dos atentados de 11 de Setembro, as universidades norte-americanas aumentaram sua dependência do Pentágono e dos interesses corporativos, pondo suas aulas a serviço do lobby privado e governamental; o que ameaça seu papel como uma esfera pública e democrática de diálogo.

Em 2011, durante o décimo aniversário do atentado às Torres Gêmeas, Neil Kerwin, presidente da American University de Washington, fez declarações chamativas a este respeito. Segundo Kerwin, “as expectativas de contarmos com uma comunicação rápida e precisa no caso de uma ameaça real, é uma das metas mais difíceis das universidades, já que temos que preservar os valores fundamentais da vida universitária, e ao mesmo tempo cumprir com nossa obrigação de proteger as pessoas”.

Essa “comunicação rápida e precisa” a que Kerwin se refere, se materializou em uma colaboração entre a Agência de Segurança Nacional (NSA) e várias universidades do país. Este programa de Sigilo de Informação e de Defesa Cibernética se dirige a formação de especialistas em segurança de rede, e neste momento mais de 180 universidades estão inscritas para satisfazer a crescente demanda.

O acordo também força que uma faculdade, para ser considerada como um “Centro de Excelência em Segurança da Informação e Defesa Cibernética”, deve aderir aos critérios delineados pela NSA e o DHS. Em outras palavras, não é que o currículo seja feito pelo estado, é que é feito diretamente pelo Departamento de Defesa. O certificado final assegura que os estudantes saiam da escola com uma formação em segurança de rede e tenham as habilidades necessárias para fortalecer a segurança das redes de informação do governo e do setor privado.

Se não bastasse isto, há outros exemplos mais óbvios dessa mutação nas universidades. Sob a vaga justificativa de segurança (falam também de prevenir massacres como os ocorridos na Virgina Tech e na Universidade do Texas A&M), muitas outras instituições de educação superior estão gastando centenas de milhares de dólares em reforços à proteção de seus estabelecimentos, com a instalação de modernos circuitos de vídeo-vigilância, o aumento nas forças de segurança armadas ou outras medidas parecidas. A Ohio State University (OSU) e a University of Missouri-Columbia (UMC) são dois casos paradigmáticos. Nesse ano, ambas universidades adquiriram veículos blindados e fortemente armados desenhados para a guerra.

Depois da notícia se espalhar em Ohio, o diretor de relações públicas da OSU declarou que o único motivo para a compra de um veículo bélico com essas características era a “modernização da frota policial”. Lewis classificou o carro de combate como um “veículo multiuso de segurança pública com capacidades obviamente melhoradas”.

Para o professor Giroux, não sobra dúvida de que, depois dos atentados de 11 de Setembro, se acelerou a transformação da universidade americana em uma “fábrica de conhecimento militar”, e o fechamento do centro Morales-Shakur se encaixa neste contexto. Giroux afirma que esse tipo de ação evidencia “o crescente desenvolvimento de programas acadêmicos em escolas superiores que servem aos interesses militares”, com o pano de fundo de uma aliança entre as instituições educacionais e as organizações de segurança nacional, o que “está diminuindo a credibilidade da universidade como um lugar de crítica, discussão e diálogo”.

A pergunta que cabe agora é se os estudantes dos EUA acabarão aceitando um processo que parece quase inevitável, e se estamos testemunhando uma mudança conceitual na educação superior americana, que passa necessariamente a se desfazer em grupos inconformistas e confrontadores.

No momento, a placa que diz “Centro para o Desenvolvimento Profissional”, segue pregada na porta do que antes era um centro auto gerenciado pelos estudantes, e não parece que vai desaparecer.



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