Álbum de família (filme)

“Life is very long…” TS. Eliot. Not the first person to say it, certainly not the first person to think it. But he’s given credit for it because he bothered to write it down....

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“Life is very long…” TS. Eliot. Not the first person to say it, certainly not the first person to think it. But he’s given credit for it because he bothered to write it down. So if you say it, you have to say his name after it. “Life is very long:” TS Eliot. Absolutely goddamn right.

Com duas indicações ao Oscar de melhor atuação, Álbum de família/Um quente agosto (August: Osage County) é um filme que merece ser visto também pelo excelente roteiro, escrito pelo mesmo autor da peça que deu origem ao filme.
Maryl Streep é Violet, e vive em Osage County, um lugar perdido no meio de Oklahoma, com uma das três filhas e o marido. Após o desaparecimento do marido, as outras duas filhas voltam pra casa pra ajudar nas buscas e dar apoio à mãe. Uma das filhas é vivida por Julia Roberts, que volta pra casa dos pais com o marido (Ewan McGregor) e a filha adolescente (Pequena Miss Sunshine).
Depois de alguns dias, o corpo do pai é encontrado. O ponto alto do filme é o jantar do funeral. É como se o pai – um premiado escritor vivido por Shepard – fosse o frágil ponto de equilíbrio entre forças antagônicas e igualmente potentes (Violet e Bárbara, Maryl e Julia, mãe e filha). Com a morte dele o equilíbrio se desfaz, as aparências se esfacelam, e o que vem a seguir só pode ser uma cena forte, linda, brilhantemente protagonizada pelas indicadas ao Oscar de melhor atriz e melhor atriz coadjuvante. Faço aqui algumas notas sobre o filme.

– Maryl Streep sabe ser má – e mesmo assim despertar empatia na melhor das pessoas – como ninguém. A personagem dela é uma mulher amarga, egoísta, ciumenta, mesquinha, vingativa, chantagista e com um sangue frio de dar inveja a qualquer super vilã. E ainda assim é uma mãe que piamente acredita que faz o que faz porque é o melhor pras filhas e que a crueldade é uma forma de força indispensável para se vencer na vida.

– Julia Roberts mereceu a indicação por não ser “a” Julia Roberts no filme. Bárbara é uma mulher não-bonita, não-atraente, sem confiança, sem controle da própria vida, que se perdeu entre as expectativas dos outros e dela mesma. Ela age como acha que uma boa pessoa, boa filha, boa mãe deve agir. Por viver em torno de projeções e expectativas alheias é que perde o amor do marido, o carinho da filha e o respeito das irmãs. É a encarnação do politicamente correto, e só mostra alguma vivacidade ou energia quando é cruel, como a mãe. Porque não saber lidar com o que tem de parecido com a mãe – a força – é que ela se anula, porque não sabe – não aprendeu – a ser forte e boa pessoa ao mesmo tempo.

– É interessante ver como o câncer não é tratado como sentença de morte nesse filme. Nele, a doença não redime a personagem, não é o obstáculo-mor a ser superado, não molda caráter: não basta sofrer pra ser boa pessoa, é preciso fazer boas escolhas (essa mensagem não é das mais comuns em Hollywood!). O câncer é mais uma característica acidental da personagem principal. A doença na verdade é apenas um pretexto pra discutir o efeito devastador que o vício em drogas legal e indiscriminadamente comercializadas – os painkillers – tem sobre Violet e a família.

– Família, afinal o que é família? Que sentido faz forçar-se a conviver e a se importar com pessoas com quem não temos nada em comum, nenhuma relação de proximidade, afeto ou carinho, nenhuma boa memória compartilhada? Porque insistir numa “união” abstrata, formatada, pelo simples sentido de dever, por uma obrigação moral? Pelo fato totalmente aleatório e acidental de haver uma ligação genética entre essas pessoas? O que determina o que é família? A questão teórica levantada pela irmã mais velha, Ivy, é forçada às últimas consequências com a revelação da sua relação incestuosa.
– Incesto, um dos nossos tabus melhor preservados, até nele as mãos hereges de Tracy Letts consegue tocar em duas horas de filme. Que rumo terá seguido a vida de Ivy e Sherlock-Little Charles? Que rumo seguiria eu, no lugar deles?
Em duas horas, assistimos, como visitas que chegam à casa de alguém numa hora inconveniente, fragmentos de uma vida passada a limpo, a partir da morte de quem não aguentou o peso de anos de segredos, covardia e escolhas erradas. É um filme bonito, que conversa com as nossas noções mais íntimas e arraigadas de família, e que questiona uma a uma as prisões imaginárias que nos fazem insistir em estar perto de gente cruel e autodestrutiva, mesmo que isso signifique abrir mão das coisas que verdadeiramente amamos.


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1 comment

  1. VampiraP Responder

    ” não basta sofrer pra ser boa pessoa, é preciso fazer boas escolhas ” – maior lição a ser aprendida.


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