O espelho negro e a reflexão do presente

Minissérie britânica Black Mirror traz a discussão sobre como as novas tecnologias interferem na construção das relações pessoais, abordando as possibilidades imprevisíveis que podem se concretizar por meio delas

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Minissérie britânica Black Mirror traz a discussão sobre como as novas tecnologias interferem na construção das relações pessoais, abordando as possibilidades imprevisíveis que podem se concretizar por meio delas

Por Thiago Balbi*

Esta matéria faz parte da edição 129 da revista Fórum. Compre aqui.

Um espelho é um artefato que reflete aquilo que está posto à sua frente. Em outras palavras, é algo que reflete o presente. Um espelho negro, por outro lado, é um instrumento místico utilizado por inúmeras correntes da magia, é um artefato de divinação e, portanto, reflete o futuro. Na minissérie de televisão britânica que leva o sugestivo nome de Black Mirror (Espelho Negro) – criada pelo jornalista Charlie Brooker, conhecido pelo seu sarcasmo e críticas em relação aos meios de comunicação, sobretudo a televisão –, o futuro e o presente se confundem.

Conforme a proposta da série, não importa onde você estiver, deve estar muito próximo de algum espelho negro enquanto lê esta revista. Basta sacar o seu aparelho do bolso, olhar para o monitor do computador, para o televisor ou qualquer dispositivo tecnológico com uma tela que, enquanto estiver inoperante, apresente uma superfície escura e reflexiva. Mas, assim como o espelho comum, esse reflexo não diz nada sobre o futuro, apenas reflete o que está em frente, ou seja, o próprio presente.

Black Mirror é uma série que aborda as relações humanas mediadas pela tecnologia, o que a enquadra num subgênero conhecido como “ficção científica soft”, vertente mais afeita às Ciências Humanas – sociologia, filosofia, psicologia – do que às Exatas e Biológicas, como acontece normalmente nesse tipo de obra. Pode até parecer que se trata daquelas ficções que tentam prever um futuro não muito distante ao apresentar diversos aparelhos e interfaces hipotéticas, às vezes até um tanto absurdas. Contudo, o que a série mostra, na maioria dos casos, é que mesmo aparentemente absurdos, são artefatos muito similares aos que já usamos, e as situações e experiências geradas por eles são igualmente próximas das que já vivemos. A chamada realidade aumentada do Google Glass, por exemplo, não é nenhum protótipo ou obra de ficção, ao contrário, está em fase de testes e deve estar disponível para o consumidor em 2014.

Nesse sentido, assim como no “espelho negro” que nos deparamos ao olhar para os aparelhos desligados – e que não reflete futuro algum –, o que está em discussão em Black Mirror não é um possível futuro, mas uma reflexão urgente sobre as possibilidades do presente. A série faz uso da linguagem hiperbólica para demonstrar o quão absurdas, e até perigosas, podem ser algumas situações geradas por intervenções tecnológicas nas relações humanas. É por isso que apenas parece se tratar do futuro, mas como fica evidente logo no primeiro episódio, que mostra uma situação absolutamente plausível nas atuais condições, a reflexão de Black Mirror não é apenas atual, mas extremamente relevante.

Nesse primeiro episódio, chamado “The National Anthem” (“O Hino Nacional”), o primeiro-ministro do Reino Unido recebe uma ligação de sua equipe durante a madrugada com a notícia de que a princesa britânica foi sequestrada. Pela manhã, em uma sala na 10 Downing Street (residência oficial e escritório do chefe do Parlamento), Michael Callow (nome fictício do premiê) se reúne com sua equipe, que lhe mostra um vídeo em que a princesa Susannah, amada pelos ingleses pelo seu engajamento em questões sociais e na luta ecológica, é forçada a fazer um pedido a ele. No entanto, o sequestrador não quer dinheiro e nem fazer chantagem política, não é ligado ao IRA, à Al Qaeda ou a qualquer grupo terrorista, ele apenas exige que o primeiro-ministro realize um ato sexual com um porco, com transmissão ao vivo e em rede nacional, às 16 horas daquele mesmo dia.

Cenas do episódio “The National Anthem” “O Hino Nacional”, no sentido horário: a tensão do premiê com o vídeo da princesa, a equipe assistindo a cobertura pela tevê, as estatísticas com a repercussão do caso e a preparação do acontecimento

A primeira reação do premiê é ordenar que o vídeo com o pedido infame do sequestrador não seja divulgado, mas a resposta de sua equipe o surpreende, já que aquele vídeo que assistiam era o que estava publicado no YouTube. Então, pede que seja retirado da rede, mas o vídeo já havia sido copiado por outros usuários de outros países e, embora o governo tenha conseguido inibir a divulgação nos canais britânicos, as redes de tevê internacionais, como a FOX e a Al Jazeera, já o transmitiam. O dia segue com essa tensão na cúpula inglesa, e, a essa altura, toda a população vive a expectativa do acontecimento.

A narrativa do episódio é calcada na cobertura da imprensa – que é liberada para cobrir o fato, uma vez que o mundo todo já está sabendo – e no papel das redes sociais. A história é contada por meio de cenas intercaladas por pesquisas de opinião feitas pela imprensa, comentários sobre o ato sexual com porcos na simbologia pagã, chantagens sexuais entre uma jornalista e um membro da cúpula do governo em busca de informações, as reações dos ingleses nos pubs, nas ruas e na internet. O Twitter tem um papel importante, é nele que a esposa do premiê vai procurar informações e se choca com a grosseria de alguns comentários. Além disso, é pelo microblogue que o sequestrador descobre que o governo tenta trapacear em um momento específico, o que gera mais violência em um novo vídeo.

Embora eventualmente apareça um ou outro aparato – tecnológico e/ou comunicativo – que ainda não usamos, o eixo principal da história está na íntima relação entre a mídia de massa e as redes sociais, sobretudo na forma com que se retroalimentam e se influenciam de um modo completamente imprevisível. Nada mais contemporâneo do que essa questão.

Mas a série segue o formato chamado de antologia – como as clássicas Twilight zone (Além da imaginação) e Amazing Stories –, em que os episódios são independentes e cada um tem começo, meio e fim. Nas outras histórias, contudo, as tecnologias hipotéticas ganham mais atenção. Até o momento são duas temporadas com três episódios cada; a primeira, de 2011 e a segunda, de 2013.

Cenas do episódio “15 Million Merits” (15 milhões de méritos): os claustrofóbicos dormitórios forrados de telas, os locais onde pedalam enquanto são entretidos e os elevadores

O 2º episódio, “15 Million Merits” (“15 milhões de méritos”), é o outro extremo, o mais futurista deles. A vida das pessoas comuns se resume a dormir em quartos forrados de telas e a pedalar por horas em bicicletas ergométricas na frente de telas individuais; as pedaladas servem para gerar energia para uma pequena elite. Vivem entre os dormitórios, elevadores, os corredores estreitos usados para chegar às bicicletas e um refeitório, onde comem alimentos sintéticos vendidos em máquinas. O tempo todo são bombardeadas por informações inúteis e publicidades que saltam de todas essas telas. Mesmo tendo a experiência do contato direto um com o outro, mal interagem presencialmente, mas por avatares operados nas telas. Quanto mais pedalam, mais ganham “méritos” – uma espécie de medida monetária –, a fim de customizar seus avatares e comprar o acesso para os programas de tevê, jogos e outros entretenimentos. A única esperança de mudar de vida é participar de um reality show – no estilo Ídolos, em que o sujeito se apresenta para um grupo de jurados dispostos a humilhá-lo – que se mostra extremamente manipulador. Os jurados e os ganhadores do programa formam parte dessa elite que vive livre das pedaladas e do bombardeio midiático.

Na maioria dos episódios, não fica muito clara a distância temporal em relação ao presente. Mas se o Google Glass estará disponível já no ano que vem e a televisão já ultrapassou tantos limites em reality shows degradantes e excessivos, grande parte das situações exibidas ao longo da série não passam de meros exageros de experiências que vivemos hoje.

Um dispositivo registra as experiências humanas em memórias artificiais, e estas podem ser selecionadas pelo usuário, que pode assistir individualmente ou transmitir para alguma tela em que possa ser vista coletivamente. O que parece um inocente “brinquedo” causa graves problemas para um casal que enfrenta uma crise de ciúme. Uma jovem viúva é apresentada a uma ferramenta virtual que possibilita se comunicar com os mortos, mas, na verdade, tudo não passa de um simulacro baseado em informações que o morto deixou nas redes, suas fotos, vídeos e comentários. Um famoso reality show chega ao extremo por banalizar a tortura psicológica a fim de punir criminosos. O processo eleitoral britânico é abalado quando um grosseiro e sarcástico personagem de cartoon – animado e interpretado por um comediante conhecido por entrevistar políticos e colocá-los em situações embaraçosas – é pressionado pelo seu produtor para se candidatar. Todas essas situações hipotéticas são exemplos do que se pode encontrar em Black Mirror. Mas como se nota nesta breve descrição, a questão se concentra menos na tecnologia enquanto tal do que nos reflexos imprevistos que esta pode causar quando tensionada com as relações sociais.

#sempessimismo

As histórias são influenciadas por clássicos da literatura, como Admirável mundo novo (1932) de Huxley, 1984 (1949) de Orwell e Fahrenheit 451 (1953) de Bradbury; que se enquadram no subgênero ficção científica soft, uma vez que também abordam as relações humanas como eixo central. Mas embora essas obras sejam temporalizadas em um futuro hipotético, são consideradas contundentes críticas e sátiras do presente, o que as inclui em outro subgênero, o chamado romance distópico. Mas, além desses clássicos, Black Mirror parece fortemente influenciado por obras da Teoria Crítica, como A sociedade do espetáculo  de Debord (1967), que resume “15 Million Merits”, por exemplo, logo na primeira tese do livro: “Toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos, tudo que era vivido diretamente tornou-se uma representação.” E não faltam citações debordianas para descrever esse e outros episódios.

“15 Million Merits” (15 milhões de méritos): As máquinas de comida e os jurados do reality show com uma plateia de avatares ao fundo

Esse conjunto de influências relacionadas a Black Mirror – a F.C. Soft, o romance distópico e a teoria crítica –  são mais do que evidências de que o assunto, na verdade, é o próprio presente. Alguns fatos recentes dão indícios da pertinência dessa reflexão sobre o “espelho negro” da série criada por Brooker.

Em novembro deste ano, 2013, duas jovens cometeram suicídio no Brasil e anunciaram sua despedida pelas redes sociais. Um dos casos é bastante emblemático, pois o que motivou a moça a tirar a própria vida foi a chamada “revenge porn” (pornografia de vingança). Isso denota o quão imprevisíveis são os reflexos das tecnologias nas interações humanas e o quão devastador deve ter sido o trauma dessa jovem, que mesmo sendo uma vítima da exposição de sua vida privada, foi ainda mais longe e tornou pública sua mensagem de despedida.

Outro caso de repercussão também se relaciona com a “pornografia de vingança”. O ex-namorado de uma moça chamada Fran divulgou um vídeo privado do casal pelo WhatsApp, uma prática que tem se tornado cada vez mais comum. Mas, assim que o caso ficou conhecido, surgiu uma campanha de solidariedade a ela, a #forçafran, em que os internautas postavam fotos fazendo sinal de “OK” com a mão, tal qual Fran aparece no vídeo que “caiu na rede”. O que parecia um motivo de esperança tornou-se uma decepção, pois uma legião de idiotas postou fotos e vídeos fazendo o sinal de “OK” e com a hashtag da campanha, mas além desta, outras hashtags que claramente tinham a intenção de ridicularizar a moça, que teve a vida exposta pelo ex-namorado. Sim, internautas por todo o País acharam que quem deveria sofrer ainda mais era a vítima.

Isso sem contar o conteúdo apelativo, humilhante e preconceituoso cada vez mais comum nas mídias de massa; a espetacularização de processos judiciais, que não passam de linchamentos simbólicos; as estratégias comerciais e publicitárias cada vez mais invasivas; os blogues, twitters e comentários em posts cada vez mais agressivos e reacionários; e uma série de outros sinais de que a tecnologia, como mediação das relações humanas é imprevisível e incontrolável. E, nesse aspecto, Debord foi preciso ao dizer: “O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens.”

É dessa imprevisibilidade que Black Mirror trata e, vale dizer, não há nada de pessimista nisso, sabemos as vantagens e a potencialidade que a tecnologia apresenta na direção de uma civilização mais participativa, democrática e livre. Mas enquanto potencialidade, escapam vetores em direção à tragédia, ao totalitarismo e ao controle. Parafraseando o geógrafo Milton Santos, as técnicas são neutras – “antes de tudo, são autorizações para fazer” –, dependem apenas das intenções dos atores para os quais elas são meras possibilidades. Porém na medida em que a técnica é dominada por atores hegemônicos e se torna hegemônica como eles, não podemos mais dizer que “há inocência no atual uso das técnicas dominantes”.

Para o provocador filósofo Paul Virilio, o problema vai ainda mais longe, pois, segundo ele, “inventar o trem é inventar também o descarrilamento; inventar o avião é inventar o desastre aéreo e inventar o navio é inventar o naufrágio. Isso não tem nada de pessimismo ou desesperança, é um fenômeno racional, mas é um fenômeno ocultado para promover a propaganda do progresso”. Qualquer invento tecnológico, na perspectiva proposta por ele, tem o risco de um potencial defeito e/ou acidente.

Contudo, as situações desagradáveis e aparentemente improváveis narradas em Black Mirror não passam de exemplos de possíveis situações provenientes dessa convergência, a saber, entre os desvios acidentais que tecnologias e meios comunicativos sofrem quando interferem e promovem as interações humanas e, por outro lado, os desvios propositais que estes meios sofrem quando são capturados pelo pensamento hegemônico. Nada mais adequado para uma reflexão sobre os tempos atuais.  F



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