Assessor do PT contesta tese do “maior déficit da história”

De acordo com Marcelo Zero, apesar do alarmismo da imprensa o que se verifica é um quadro de estabilidade em relação a 2013

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De acordo com Marcelo Zero, apesar do alarmismo da imprensa o que se verifica é um quadro de estabilidade em relação a 2013

Por Marcelo Zero (*)

Breves esclarecimentos sobre o déficit comercial de janeiro de 2014

I. A mídia divulgou, com grande estardalhaço que, em janeiro deste ano, o Brasil teve o “maior déficit comercial da história” – US$ 4,06 bilhões.

II. Bom, é necessário recordar que déficits comerciais no mês de janeiro estão longe de serem surpreendentes. Nos últimos 6 anos, houve déficit neste mês em 5 ocasiões.

III. Em janeiro de 2013, por exemplo, tivemos um déficit de US$ 4,04 bilhões. Ou seja, o déficit de janeiro de 2014 foi superior ao de janeiro de 2013 em apenas US$ 20 milhões, o que é uma ninharia em termos de balanços de pagamentos. Assim, “o maior déficit da história” significa, na realidade, estabilidade, em relação ao ano anterior.

IV. Em janeiro de 2013 também houve um grande alarde com o déficit e prognosticaram graves problemas nas contas públicas, em razão de uma “inevitável tendência” de ampliação dos déficits comerciais. No entanto, ao longo de 2013, os déficits de janeiro e fevereiro daquele ano foram revertidos, e o Brasil acabou fechando o período com um superávit de US$ 2,6 bilhões.

V. Os déficits são comuns no mês de janeiro em função de algumas tendências sazonais bem conhecidas. Em primeiro lugar, janeiro é um período de entressafra agrícola, o que limita muito a exportações de commodities, nas quais somos muito competitivos. Em segundo lugar, janeiro é um período de baixa produção e férias, que se segue ao grande aquecimento das vendas de Natal. Em terceiro, janeiro é um mês de reposição de estoques, o que tende a aumentar as importações. Em quarto, algumas compras importantes para os investimentos do país, como a da plataforma da Petrobras, que custou US$ 379 milhões, tiveram grande impacto na balança comercial, nesse período. Sem essa plataforma, o déficit deste mês de janeiro teria sido inferior ao do mês de janeiro de 2013.

VI. Na realidade, a desvalorização progressiva do câmbio tem refreado paulatinamente o ímpeto das importações. Portanto, não se pode extrapolar o resultado desse mês e criar uma tendência anual fictícia.

VII. Além desses fatores sazonais, o déficit do mês de janeiro também pode ter sido ocasionado por uma especulação cambiária. É possível que muitos importadores, temendo um aumento do dólar, tenham antecipado importações.

VIII. É importante frisar que as exportações do mês de janeiro de 2014 (US$ 16,03 bilhões) foram as segundas maiores da história, só perdendo para as de janeiro de 2012 (US$ 16 14 bilhões).

IX. Embora os superávits comerciais do Brasil venham se reduzindo nos últimos anos, em razão da crise econômica internacional, o nosso país mantém equilíbrio em sua balança comercial. Na realidade, ao longo dos governos do PT, o Brasil, além de aumentar sobremaneira as suas exportações anuais, que passaram de cerca de US$ 60 bilhões, em 2002, para cerca de US$ 240 bilhões, em 2013, acumulou um grande superávit, que faz nítido contraste com o déficit acumulado ao longo do período neoliberal. O gráfico exposto à continuação demonstra isso cabalmente.

a.     É necessário considerar ainda, nessa discussão, a guerra cambial ora em curso.  Com efeito, EUA e, em menor medida, a UE, vêm exportando seus desequilíbrios internos mediante uma espécie de dumping monetário, que torna artificialmente baratas as suas exportações. Isso explica, em boa parte, os déficits comerciais que acumulamos recentemente com os EUA e, no último ano, com a Europa.

 b.    A progressiva desvalorização cambial, iniciada no segundo semestre do ano passado, pode nos ajudar a nos defender melhor dessas ameaças externas.

 (*) Sociólogo, especialista em relações internacionais  e assessor da Liderança  do PT no Senado.



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