Porque alguns países emergentes mostram sinais de instabilidade?

Mesmo que cada uma dessas economias apresente particularidades e comportamentos muito diferentes, há um elemento em comum que aparentemente está contra elas

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Mesmo que cada uma dessas economias apresente particularidades e comportamentos muito diferentes, há um elemento em comum que aparentemente está contra elas

Por Eduardo Garzón, do La Marea. Tradução de Ítalo Piva

Nos últimos dias temos visto uma certa instabilidade financeira em países como Argentina, México, África do Sul, Índia e Turquia. Mesmo que cada uma dessas economias apresentem particularidades e comportamentos muito diferentes, há um elemento em comum que aparentemente está contra elas. Vamos ver do que se trata.

Quando começou a crise econômica em todo seu esplendor, as economias ocidentais – que foram as mais afetadas – não tardaram em implementar políticas monetárias do tipo expansivo. Quer dizer, sua intenção era injetar muito dinheiro (através de empréstimos) na economia para, de alguma forma, a reativar: com o público tendo mais dinheiro em suas mãos, as empresas supostamente poderiam investir mais e os domicílios supostamente poderiam consumir mais.

Câmbio e juros: dilemas dos emergentes (http://www.flickr.com/photos/tracy_olson)

Em geral, existem três meios de implementar essa política: o coeficiente legal de finanças, operações de mercado aberto e uma taxa de juros de referência. O coeficiente de finanças nesse momento não nos interessa muito. As operações de mercado aberto consistem, sem mais nem menos, em injetar dinheiro nos bancos (a troco de atividades que servem como colaterais). Vamos abordar os juros de referência com um pouco mais de profundidade.

A taxa de juros é o preço do dinheiro; o preço de pedir dinheiro emprestado. Quando os dirigentes do banco central pensam que tem muito pouco dinheiro em circulação,o que fazem é diminuir esse tipo de juro de referência, porque desta forma sai muito mais barato para os bancos privados pedirem dinheiro emprestado do banco central, assim pediriam mais dinheiro que em teoria poriam em circulação na forma de credito para empresas e famílias.

O que ocorre é que os outros tipos de juros da economia dependem em grande parte dos juros de referência. Isto quer dizer que se o banco central diminui esse último, todos os outros tipos de juros cairão também. Além disso, esses juros influenciam a lucratividade dos investimentos. Em um investimento, por exemplo, em bônus de uma empresa privada, não interessa que os juros sejam baixos porque se ganhará menos dinheiro, e o oposto também aplica. Portanto, as atividades financeiras ficaram amplamente limitadas a partir da crise de 2008, pois desde então os investimentos se tornaram menos viáveis.

Mas em muitos outros países os juros não diminuíram tanto, é por isso que os grandes investidores – que tinham vastas quantidades de dinheiro inativo por causa das balbúrdias financeiras e imobiliárias que explodiram em 2007-2008 – abandonaram muitos negócios na Europa e nos Estados Unidos para investirem nesses países, em sua maior parte emergentes, cujo crescimento econômico permitia ter juros mais elevados (e logo, melhores oportunidades de negócio).

Quando entra muito dinheiro em uma economia dessa maneira, o contexto econômico melhora. As empresas recebem mais dinheiro, as suas cotações na bolsa aumentam e podem investir mais comprando máquinas, ou contratando trabalhadores. Estas empresas depositam dinheiro nos bancos, que assim aumentam suas reservas e portanto se veem em melhores condições para dar mais crédito a empresas e famílias. As pessoas podem utilizar esse crédito para comprarem mais bens e serviços, e as empresas que os fornecem são beneficiadas. Os indicadores econômicos melhoram e a confiança aumenta. Desta maneira, se produz um ciclo virtuoso que incrementa a atividade econômica desses países.

Ademais, o dinheiro que entra nestes países normalmente tem que estar na moeda local. Isso faz com que aumente a demanda dessas moedas que, por consequência, se valorizam (pela lei da oferta e demanda: como a demanda aumenta muito, o preço – a cotação da moeda – também aumenta). Isso aumentará o valor de todas atividades expressadas nessa moeda, e dará uma sensação de riqueza àqueles que a possuem, o que no fim impulsionará ainda mais a economia. Além disso, com uma moeda mais forte, as importações saem mais baratas e as empresas e indivíduos podem comprar mais produtos e serviços vindos do estrangeiro.

O problema surge quando essa avalanche de dinheiro que havia entrado abandona a economia, especialmente se isso ocorre de forma brusca. Hoje em dia parece que economias como a do Reino Unido e a dos Estados Unidos estão se recuperando porque seus bancos centrais deixaram de criar tanto dinheiro. Sem essa injeção extraordinária e barata de recursos, os grandes gestores de fundos já não vão poder continuar investindo tanto em países emergentes. Ao mesmo tempo, conforme as expectativas sobre as economias mais desenvolvidas melhorem, muito desse capital quer voltar a seu lugar de origem.

Esse capital estrangeiro, que está na moeda local nos países receptores e quer sair, passa a ser convertido em outras, e isso deprecia a moeda local (através da lei da oferta e demanda: como a oferta aumenta muito, o preço – a cotação – diminui). Aqui começa um ciclo vicioso no sentido contrário do descrito anteriormente: as atividades expressadas com a moeda local depreciam, a cotação das ações de empresas que perdem investimentos diminui, as reservas dos bancos cai, a confiança empresarial é menor etc.

Além disso, como a economia estava engordando durante esse tempo, agora não pode voltar a seu tamanho normal. Como as importações encarecem porque a moeda deprecia, as empresas tentam corrigir esse custo amais aumentado os preços. Assim surgem as tensões inflacionárias.

Para evitar ambos problemas ( a depreciação da moeda local e o aumento da inflação) os governos recorrem de novo ao aumento das taxas de juros. Desta forma, fazem com que os investimentos em seus países sejam mais lucrativos, com a intenção de atrair capital estrangeiro cuja entrada aprecia a moeda, abaixa o preço das importações, e reduz a inflação. Ao mesmo tempo, com essas medidas pretendem fazer com que os bancos deem menos crédito a famílias e empresas, esfriando um pouco mais a economia para assim controlar pressão da inflação, mesmo que isso prejudique a atividade econômica. Por isso, a Turquia aumentou sua taxa de juros em 4,25 pontos percentuais, a África do Sul em 0,5, e Índia em 0,25 pontos.

Mesmo que obviamente existam muitos outros fatores que afetam a depreciação da moeda e a inflação, aqui foi dado um resumo muito generalizado, porém bastante explicativo, da situação de muitos desses países. Nem sequer se sabe se essa mudança recente vai se transformar em tendência. Tampouco não é fácil saber como isso poderia afetar estas economias, pois algumas delas têm muito mais capacidade do que outras para lidar com esses problemas.



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