Os desafios de Cristina Kirchner: controlar dólar e inflação

Uma coisa está garantida daqui até as eleições de outubro: as previsões de desastres, disparadas por usinas midiáticas opositoras, vão continuar

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Uma coisa está garantida daqui até as eleições de outubro: as previsões de desastres, disparadas por usinas midiáticas opositoras, vão continuar

Por Marcelo Justo, na Carta Maior

“Com 10 anos de governo em suas costas, sem seu marido Néstor Kirchner, com problemas de saúde não totalmente resolvidos, Cristina Fernández sofreu todo tipo de pressão, desde rebeliões policiais e saques em dezembro até cortes de eletricidade e corridas cambiárias em janeiro” (Foto: Wikipedia)

Buenos Aires – Em meio a um clima de previsões apocalípticas, o governo de Cristina Kirchner tem dois desafios reais: controlar o dólar e evitar uma disparada da inflação. O primeiro desafio parece sob controle, enquanto o segundo é mais incerto. Uma coisa está garantida daqui até as eleições de outubro: as previsões de desastres, disparadas por usinas midiáticas opositoras, vão continuar.

A última versão do iminente apocalipse foi publicada neste domingo pelo portal do “La Nación”, ao anunciar uma suposta iniciativa do Papa Francisco para unir o Vaticano ao Governo, à oposição, aos empresários e aos sindicatos a fim de evitar uma dissolução nacional – história desmentida por todas as partes: um “disparate”, disse o Papa por meio de uma jornalista argentina amiga.

A suposta novidade surgiu no momento em que o governo conseguiu acalmar a pressão que existia sobre o dólar, o que forçou uma desvalorização de mais de 12% na “quinta-feira negra” de 23 de janeiro. O dólar, que tinha uma relação de 4 para 1 em 2011, passou a valer 6,50 no início de janeiro, para terminar em 8 pesos no fim do mês passado.

O preço pago pelo governo para que o poderoso setor agroexportador se comprometesse a liquidar uns dois bilhões de dólares em fevereiro foi a desvalorização que aumentou consideravelmente as receitas do setor. O governo complementou essa medida com um aumento das taxas de juros para atrair a poupança em pesos e com uma nova normativa para que os bancos não possam ter ativos em moeda estrangeira superior a 30%, o que obrigou as entidades a começar a se desprender do “verde”, um dos tantos apelidos que a dolarizada cultura argentina deu para a moeda norte-americana.

Essa tríplice estratégia obrigou os meios e jornalistas que vaticinaram, no fim de janeiro, uma corrida sobre o peso, prelúdio do fim do kirchnerismo, a admitir que a tempestade havia se acalmado e que, pelo menos no momento, não haveria tsunami. “A corrida sobre o dólar se deteve”, admitiu nesta segunda-feira à noite em seu programa televisivo “Desde el Llano” Joaquín Morales Solá, um dos papas midiáticos da oposição, principal analista político do “La Nación”.

De fato, a cotação da moeda caiu, na segunda-feira, para 7,80, e o governo começou a recuperar suas reservas, que nos dois últimos anos haviam caído 40% até estacionar em 27.738 bilhões de dólares nesta terça. Com a ferocidade de quem não quer soltar sua presa, Morales Solá advertiu que essa aparente calma não devia levar a confusões porque o problema real do dólar “é a inflação”.

No próprio discurso oficial, aceita-se que a inflação é um dos pontos fracos do modelo. A desastrosa interferência do instituto oficial de estatísticas, o Indec, talvez o erro mais grave da década kirchnerista (de maio de 2003 até hoje), criou um vazio de credibilidade sobre o nível real de inflação. Desde 2007, as porcentagens divulgadas no nível público e que alimentam a ansiedade dos consumidores navegam entre as desprestigiadas estimativas oficiais – pouco mais de 10% para o ano passado – e as igualmente suspeitas estimativas privadas – em torno de 30% em 2013.

A desvalorização está tendo um impacto nos preços, e é algo que se escuta nas filas dos supermercados. “Como estão os preços!”, exclamou espontaneamente uma mulher a este cronista enquanto esperava sua vez para pagar. A impressão é que o dinheiro não é suficiente e que uma nota de 100 pesos, por mais que tenha a imagem de Evita Perón em sua nova edição, serve para pouco.

O kirchnerismo apelou para sua política histórica diante da inflação: fazer acordos com empresas e supermercados para manter os preços em um certo nível. O programa dos “preços cuidados” estabeleceu nesses primeiros meses do ano acordos de preço de referência para 194 produtos de primeira necessidade (farinha, alimentos em conserva, arroz, carnes etc.), materiais escolares e até materiais de construção.

Desde que foi colocado em prática, a Secretaria do Comércio realizou 158 inspeções a empresas industriais, 254 filiais de supermercados e efetuou 126 atas de infração dos acordos. Ainda assim, a maioria das estimativas privadas assinalam que a alta nos alimentos foi em torno de 4% em janeiro, ainda que o Estudio Bein y Asociados, que poucas vezes erra em suas medições, a calcula em torno de 1,1%.

Essa estratégia de acordos de preços teve resultados díspares desde seu primeiro esboço, no final de 2007. No melhor dos casos, controlou a alta da inflação por seis meses, mas não atacou a fundo o fenômeno na complexa formação de preços que faz com que, em um país produtor e exportador de alimentos por excelência, o preço da fruta, por exemplo, chegue a superar os valores alcançados em um país nitidamente importador, como o Reino Unido.

O fantasma de fundo a toda essa luta sobre os preços é a hiperinflação, que motivou a defenestração antes do tempo do primeiro governo democrático depois da ditadura – o do radical Raúl Alfonsín, em 1989. Esse fantasma acompanha a economia argentina desde a mega desvalorização de 1975, que gerou as condições econômicas do golpe militar contra o governo de Isabelita Perón, em 1976.

A situação atual não é comparável a nenhum desses casos. O kirchnerismo teve excelentes índices de emprego, crescimento econômico e redução da pobreza. O superávit comercial de 2012 esteve perto dos 13 bilhões de dólares, a dívida pública é de 40% do PIB e, mesmo com a queda dos últimos anos, as reservas estão em torno dos 30 bilhões de dólares.

Os problemas econômicos estruturais sobram: desde o déficit energético, o que implica exportações anuais de uns 7 bilhões de dólares, até as falências das exportações industriais automotivas e eletrônicas, que requerem para seu funcionamento fortes importações – o que desequilibra a balança comercial. Mas o pano de fundo é muito mais político do que econômico.

O fim do kirchnerismo foi prognosticado várias vezes. Foi assim em 2008, com sua reforma dos impostos das importações, que agitou o país durante três meses, ou em 2009, com a recessão mundial e a dura derrota nas eleições. Dois anos mais tarde, em outubro de 2011, Cristina Kirchner foi reeleita com 54% dos votos.

Não está em questão tirar o drama da atual conjuntura, qualificada pelo jornalista Horacio Verbitsky como o “momento mais difícil do kirchnerismo”. Com 10 anos de governo em suas costas, sem seu marido Néstor Kirchner, com problemas de saúde não totalmente resolvidos, Cristina Fernández sofreu todo tipo de pressão, desde rebeliões policiais e saques em dezembro até cortes de eletricidade e corridas cambiárias em janeiro. A economia global tampouco está para abrir campanha ou agourar um panorama amplo para o resto do ano. Mas, no momento, as previsões de um iminente enterro lembram a famosa reação do escritor norte-americano Mark Twain, autor de “As aventuras de Huckleberry Finn”, ante a informação jornalística de sua morte: “creio que a notícia seja um pouco prematura”.



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