Venezuela: o eterno perigo de golpe em um país dividido

Em um país dividido quase que pela metade entre chavistas e opositores, até que ponto é possível acusar a oposição de tentar um golpe de Estado?

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Em um país dividido quase que pela metade entre chavistas e opositores, até que ponto é possível acusar a oposição de tentar um golpe de Estado?

Por Vinicius Gomes

Pixação em Caracas diz “a revolução morreu com Chávez”
Foto: Luciana Taddeo/Opera Mundi

Após a violência que marcou as manifestações – a favor e contra Nicolás Maduro -, nessa quarta-feira (12), resultando na morte de três pessoas e outras 66 feridas; governo e oposição na Venezuela se acusaram mutuamente pela responsabilidade do ocorrido. Um dos assassinados foi um partidário de Maduro.

No dia seguinte (13), a Justiça venezuelana acatou ao pedido do Ministério Público que pediu a prisão de três envolvidos no suposto envolvimento nos atos de violência: o líder do partido opositor Vontade Popular, Leopoldo López; o vice-almirante aposentado Iván Carratú Molina e o ex-diplomata Fernando Gerbasi.

O presidente Nicolás Maduro afirmou que há “um golpe de Estado em desenvolvimento na Venezuela”, e pediu a união do povo e das Forças Armadas do país, além da solidariedade dos países da América Latina e do Caribe.

No entanto, ao levantar a suspeita de uma nova tentativa de golpe e conclamar que o povo tome as ruas, quem mais incita os ânimos: o governo ou a oposição descontente?

País dividido

A Venezuela hoje enfrenta uma inflação superior a 50% ao ano, com produção estagnada, e encerrou 2013 com uma taxa de 24.763 mortes violentas (79 mortos para cada 100 mil habitantes). Além disso, ainda no final do ano passado, teve de enfrentar também uma crise de abastecimento de produtos, promovida pela direita venezuelana, feito este que está sendo combatido por Maduro, que já anunciou uma série de medidas de proteção à economia, incluindo controle de preços e controle de lucros das empresas e comerciantes, assim como maior controle do câmbio.

Uma realidade inegável do país, no entanto, é que a Venezuela é, de fato, um país dividido. Em abril passado, poucas semanas após a morte de Chávez, o atual presidente chegou ao governo com magros 235 mil votos (1,59%) de vantagem sobre seu opositor da Mesa de Unidade Democrática (MUD), Henrique Capriles.

Chegando dezembro, com as eleições municipais, Maduro conseguiu ganhar mais força ao ver o seu Partido Socialista Unificado da Venezuela (PSUV) conquistar 49,24% dos votos contra 42,72% da oposição. Isso fez com que a administração de Maduro pensasse erroneamente, segundo o cientista social Javier Corrales, que a oposição já não preocupava mais. “O governo foi lembrado que permanece bem impopular em grandes partes do país”, disse ele.

Defensores e opositores tomam as ruas

“Não há condições para pedir a saída de Nicolás Maduro agora. Há momentos em que a razão deve se sobrepor à emoção. A mudança virá à Venezuela, mas com calma”. A frase é de Henrique Capriles, duas vezes vencido em eleições presidenciais. Ao dizer “calma”, Capriles direciona seu pedido ao que parece ser a liderança mais radical na oposição ao governo, representada pelos três personagens acusados por Maduro de envolvimento nos atos de violência do dia 12. A fala também pode ser interpretada como uma tentativa de não perder força dentro do próprio MUD, uma vez que essas lideranças radicais passaram a se destacar após as eleições municipais de dezembro. O mais notório desses é Leopoldo López.

Ex-prefeito do munícipio de Chacao, López é acusado por Maduro de estar por trás dos atos de violência registrados nesta quarta-feira. Junto de outros líderes opositores como Maria Corina Machado (envolvida com a tentativa de golpe de 2002) e o ex-prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, López começou já em janeiro uma campanha chamada “A Saída”, na qual pedia a renúncia de Maduro.

Em contrapartida, na defesa dos ideais chavistas os que mais se destacam são os chamados “coletivos”: grupos militantes que enxergam a si mesmos como defensores da revolução bolivariana na Venezuela. Eles emergiram durante a presidência de Chávez e são responsáveis por, desde o zelo na segurança em suas comunidades até as manifestações defendendo as políticas governamentais. A direita, no entanto, os acusa de intimidação sempre que estes tomam as ruas para protestar.

Esses coletivos estão espalhados por todo o país e seus membros passam dos milhares, mas os mais famosos se concentram no bairro 23 de Janeiro, próximo ao centro da capital Caracas.

Uma das maiores polêmicas envolvendo um deles ocorreu quando, em 2012, o “La Piedrita”, publicou fotos com crianças segurando rifles e cópias da Constituição venezuelana. Mesmo com o grupo alegando que as armas eram réplicas, o próprio Chávez disse que aquilo era indefensável e questionou se o fato de se chamaram La Piedrita – uma alusão a uma “pedra no sapato” – os fazia revolucionários de verdade.

Os eventos de quarta-feira são lamentáveis, mas, infelizmente, não são uma exclusividade venezuelana. Da Ucrânia ao Egito, de São Paulo a Istambul, forças opostas quando tomam as ruas tendem a se chocar violentamente. Todavia, no caso da Venezuela, a responsabilidade pela contenção ou não dessa violência, é tanto do partido de Maduro, quanto dos sempre insuflados opositores.



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