Equador: o que será definido nas eleições de Quito?

Candidato expoente da nova direita recebe, através de sua fundação, financiamento das mesmas agências norte-americanas ligadas à oposição venezuelana  Por Juan Manuel Karg, em Carta Maior...

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Candidato expoente da nova direita recebe, através de sua fundação, financiamento das mesmas agências norte-americanas ligadas à oposição venezuelana 

Por Juan Manuel Karg, em Carta Maior

Fonte: El Universo

Neste domingo (23/02), haverá eleições municipais no Equador. Embora, em nível geral, se preveja uma nítida vitória dos candidatos de Correa, Quito estará no centro das atenções: a disputa será voto a voto entre Augusto Barrera, atual prefeito e dirigente da Alianza País, e Mauricio Rodas, jovem político e expoente da “nova direita” equatoriana, que busca ganhar a prefeitura como plataforma para projetar suas ambições presidenciais. Que projetos estão em jogo nestas eleições? Por que Rafael Correa passou a encabeçar a campanha nesta reta final? Quem está por trás de Rodas?

Muito se escreveu nos últimos dois anos sobre a emergência de uma “nova direita” em nosso continente: mais versátil no discurso e menos confrontativa em algumas ações de caráter social dos governos pós-neoliberais, esses setores apelam para a representação de uma suposta “renovação política” – quando, no entanto, acabam apelando por reavivar, mesmo sem querer mostrá-los publicamente, expoentes da política tradicional que os “sucedeu”, e que lhes assegura territorialidade e base social. Assim, em nossos países, apareceram figuras que, ainda com alguns matizes e diferenças, compartilham um horizonte comum e uma estratégia similar para tentar chegar ao poder: Henrique Capriles (Venezuela), Eduardo Campos (Brasil), e Sergio Massa (Argentina).

O Equador vive nestes dias a construção simbólica desse candidato. O escolhido é Mauricio Rodas, jovem promessa da oposição conservadora que, em sua primeira irrupção eleitoral nas presidenciais de 2013, alcançou o quarto lugar entre oito candidatos – conseguindo, ainda, uma cadeira na Assembleia Nacional. Diversas pesquisas o apontam com uma intenção de voto que oscila em torno de 40% para domingo, semelhante à média que também ostenta o atual prefeito governista, Augusto Barrera. Ou seja: segundo as pesquisas, há um empate técnico em uma eleição crucial tanto pela magnitude do distrito da capital como pela reverberação que a cidade provoca em termos de debate político nacional.

No entanto, por trás da faxada do “novo”, aparece mais do mesmo. Rodas fundou um think tank sediado no México: a fundação Ethos, uma ONG criada em 2008 que conta com um orçamento aproximado de 8 milhões de dólares anuais. De acordo com a informação divulgada pela agência de notícias Andes, um dos membros do conselho consultivo da Ethos é ninguém menos que Moisés Naim, também membro do diretório da NED (Fundação Nacional para a Democracia, em sua sigla em inglês).

Naim é um expoente da “velha direita” latino-americana. Foi, além disso, membro da Junta Diretiva do Banco Mundial e Ministro da Indústria e Comércio durante o governo de Carlos Andrés Perez na Venezuela. Para tentar escapar dessas ligações com esses setores, a estratégia de Rodas foi a confusão: alegou que o ex-candidato à presidência do chile, o progressista Marco Enríquez Ominami, também foi membro do conselho consultivo da Ethos. Quem o desmentiu? Ninguém menos que o próprio Ominami, que negou essa versão e manifestou seu apoio ao governo de Correa.

Sobre a candidatura de Rodas, e uma possível mudança na prefeitura de Quito, foi o próprio presidente que, com contundência, declarou: “Entendamos o que está em jogo: não é o serviço à cidade, é a ponta da lança para tratar de parar a Revolução Cidadã”. É Correa, também, que tem advertido sobre certa desaceleração no processo de integração regional, e sobre o avanço dessa “nova direita”, que também pode significar o realinhamento à Alianza del Pacífico, bloco conservador regional promovido por México, Peru, Colômbia e Chile. Agências como USAID e a própria NED promoveram o financiamento da Ethos desde seu nascimento, e agora tratam de impulsionar Rodas como um “presidenciável” que pode vencer o governo Correa – conhecido precisamente por enfrentar a ingerência dessas agências vinculadas a Washington em nosso continente. O resultado de domingo será um pontapé para conhecer o futuro da Revolução Cidadã.
(*) Licenciado em Ciência Política UBA (Universidade de Buenos Aires). Pesquisador do Centro Cultural da Cooperação – Buenos Aires



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