A Otan irá anexar a Ucrânia?

Com uma oposição aliada a neo nazi-fascistas e uma indústria que inegavelmente precisa da Rússia para sobreviver, levar a OTAN até os limites da fronteira russa vale todo o caos na Ucrânia?

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Com uma oposição aliada a neo nazi-fascistas e uma indústria que inegavelmente precisa da Rússia para sobreviver, levar a Otan até os limites da fronteira russa vale todo o caos na Ucrânia?

Por Pepe Escobar, em RT | Tradução: Vinicius Gomes

A eterna “terra de fronteira”, a Ucrânia é disputada pelos países da OTAN (esq.) e pela Rússia (dir.)

Qualquer um que acredite que Washington está profundamente enamorado pela “democracia” na Ucrânia, devem ir ao site do eBay, onde as armas de destruição em massa de Saddam Hussein foram encontradas e estão à venda pela maior oferta.

Ou preste atenção às “negações sem negar” da administração Obama, que diariamente jura que não há um retorno à Guerra Fria – nem guerra entre terceiros – na Ucrânia. Em resumo, a política bipartidária de Washington quanto à Ucrânia sempre foi anti-Moscou. Isso significa mudança de regime sempre que necessário. Como a União Europeia (UE), não passa de um anexo da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) – geopoliticamente falando –, o que importa é a Otan estender suas fronteiras até a Ucrânia, ou, pelo menos, até o oeste da Ucrânia – o que serviria como um valioso prêmio de consolação.

Isso é um jogo militarmente centrado. A lógica de todo o mecanismo decidido, em última análise, em Washington, não em Bruxelas. É sobre a expansão da Otan, não “democracia”. Quando a neoconservadora funcionária do Departamento de Estado, Victoria Nuland, teve recentemente seus 15 segundos de fama, o que ela quis realmente dizer era “Nós somos a Otan, F***-se a UE”. Assim sendo, não é surpresa nenhuma que haverá nessa quarta-feira (26) uma reunião de emergência da Otan com seus respectivos ministros da Defesa, em Bruxelas, centrada na Ucrânia. Ninguém nunca vai ler sobre isso na mídia corporativa dos EUA, ou até em artigos acadêmicos – o professor de Harvard, Francis Boyle, falando com a Voz da Rússia ou o recente artigo para o The Nation, do professor de Princeton, Stephen Cohen, são raras exceções.

Qualquer analista informado sabe que o grande arquiteto dessa “política”, desde a década de 1970, é Zbigniew “O Grande Enxadrista” Brzezinski. O Dr. Zbig foi o mentor do presidente Barack Obama em Columbia e é o Talleyrand (diplomata francês famoso por seu instinto de sobrevivência política) da máquina de relações exteriores da administração Obama.

Ele pode ter se tornado mais manso nos últimos tempos, dizendo que apesar dos EUA dever permanecer a potência suprema por toda Eurásia, a Rússia e a Turquia devem ser seduzidas pelo Ocidente. No entanto, sua histórica russofobia nunca diminuiu.

A “Santa” Yulia está de volta

Yulia Tymoshenko (Foto WikiCommons)

Como o mundo se encontra (novamente) no caminho para a mudança de regime na Ucrânia, não chega a ser tão ruim o investimento de apenas cinco bilhões de dólares – valor que a própria Nula voluntariamente juntou -, comparando com outras pródigas aventuras no estrangeiro de Bush e Obama, do Afeganistão ao Iraque para a Síria. Mas grandes obstáculos se encontram à frente.

Os habitantes geração Google – possivelmente mais progressista, assim como alguns raivosos de direita – do oeste da Ucrânia e em Kiev, parecem gostar da ideia de que o país, com uma mudança de regime, ser aceito como um membro da UE; já que irão conseguir um passaporte da UE e  encontrar um bom trabalho na Europa, assim como fizeram os encanadores poloneses e os gerentes de restaurante romenos.

Bem, na realidade, não. Se eles apenas pudessem embarcar em uma aeronave da EasyJet, enxergariam com seus próprios olhos o que está acontecendo no sul da Europa, ou até mesmo em Londres, todos terrivelmente assustados com a horda de europeus do Leste chegando para roubar seus empregos.

Quanto aos ultranacionalistas e publicamente neofascistas – totalmente anti-UE – a única coisa que eles querem saber é de se livrar do abraço do Urso Russo. E depois o que?

No ardor ocidental pela “democracia”, é muito fácil esquecer que os ucranianos do oeste do país foram alinhados com Hitler contra a União Soviética. São os seus descendentes que foram para a linha de frente no núcleo pesado da violência na semana passada. E o Setor Direito ainda insiste que eles irão continuar a “protestar”. Nesse sentido, talvez não sejam os fantoches favoritos de Washington; são apenas, momentaneamente, úteis bodes expiatórios.

Quanto à antiga primeira-ministra Yulia Tymoshenko – agora elevada no Ocidente ao status de uma Madre Teresa loira –, ela chamou os protestos da Praça Maidan (Independência) de “liberadores”. Eles poderão até mesmo se libertar dela – após a incrivelmente corrupta “Santa” Yulia concorrer à presidência em maio.

A Ucrânia que funciona – no leste e ao sul – é feito de províncias historicamente russas, pense na Carcóvia, no Mar Negro e na Crimeia. O PIB do país está em cerca de 157 bilhões de dólares. Isso é um quinto comparado ao da Turquia (que pode vir a se tornar o próximo Paquistão). Assim como está, a Ucrânia não possui nenhum valor econômico real para o Ocidente (muito menos ainda caso se torne a próxima Síria). A única parte “positiva” seria a OTAN alcançar, de maneira torta, seu objetivo estratégico.

Qualquer um que acredite que uma União Europeia atolada em crises irá tirar a Ucrânia de seu próprio caos econômico poderia novamente entrar no leilão da eBay pelas armas de destruição em massa do Saddam Hussein. Ou alguém consegue imaginar o Congresso norte-americano entregando 15 bilhões de dólares para aliviar a dívida externa da Ucrânia como Moscou fez em dezembro passado? Isso sem mencionar a redução na importação de gás.

Diga olá para o meu míssil Iskander

A pergunta de “multibilhões de dólares” agora é o que o presidente russo, Vladimir Putin, fará. Alguém deve estar rindo muito pelos corredores do Kremlin.

Para começo de conversa, Putin irá decidir se compra ou não os eurobonds ucranianos – valendo 2 bilhões de dólares – após um novo governo assumir em Kiev. Tal governo não vai conseguir absolutamente nada de Moscou até que prove que o novo regime vai dançar com a música, sob o interesse de manter o país unido.

A “santa” Yulia, por sinal, foi primeiramente presa por conta de um acordo sobre o gás que foi negociado – em desvantagem – com Moscou. Indo diretamente aos fatos: a Ucrânia não pode sobreviver sem o gás natural russo e a indústria ucraniana não pode sobreviver sem o mercado consumidor russo.

Quem quiser, pode misturar todas as variações de Revolução Laranja, ou Tangerina, ou Campari, ou Tequila Sunrise, e jogar dentro dos requisitos para correção do FMI de “ajustamento estrutural” – mas esses fatos não irão mudar. E esqueça sobre a UE livrando a cara da Ucrânia.

A gangue da revolução alaranjada – dos mestres aos servos – pode ainda apostar na guerra civil, ao estilo Síria. Vislumbres de anarquia – provocados por neofascistas. Cabe aos ucranianos rejeitá-los. Uma boa solução seria um referendo. Deixe a cargo das pessoas escolherem uma confederação, uma divisão (correrá sangue) ou manter o status quo.

Esse seria um cenário possível: o leste e o sul da Ucrânia se tornando parte da Rússia novamente, e Moscou certamente aceitaria. E a Ucrânia Ocidental seria pilhada, bem ao estilo capitalista, pelas corporações financeiro-mafiosas do Ocidente – enquanto ninguém ganha qualquer passaporte da UE. Quanto à Otan, eles conseguem suas bases, “anexando” a Ucrânia, mas também ganham – de camarote – a visão dos mísseis russos super precisos, os Iskander.

Parabéns ao “avanço estratégico” de Washington.



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