Doze anos de escravidão e mais de 100 de um certo silêncio

Há diversos fatos perturbadores que, se tivessem sido discutidos em Doze anos de escravidão, de Steve McQueen, dariam outra dimensão ao superestimado filme

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Há diversos fatos perturbadores que, se tivessem sido discutidos em Doze anos de escravidão, de Steve McQueen, dariam outra dimensão ao superestimado filme

Por Léa Maria Aarão Reis, da Carta Maior

“Doze anos de escravidão” conta a história de Solomon Northup, violinista e empresário negro que foi sequestrado e transformado em escravo em 1841 nos Estados Unidos (Foto: Divulgação)

Onze entre os filmes em cartaz neste início de ano nas telas dos cinemas do eixo Rio – São Paulo  são baseados ou inspirados em livros publicados; são roteiros cinematográficos adaptados. A maioria desses filmes é medíocre, mas alguns deles são muito bons como O lobo de Wall Street, Azul é a cor mais quente e Philomena.

Mesmo quando não são excepcionais, todos eles narram grandes histórias – é o caso de Doze anos de escravidão, do inglês Steve McQueen, baseado no diário de Salomon Northup, um violinista e empresário negro americano, da cidade de Saratoga,  sequestrado em Washington em 1841 e vendido como escravo em Nova Orleans.

Um dos mais badalados filmes da temporada, indicado nove vezes ao Oscar deste ano, ele ajuda a iluminar não só um mero um episódio, um caso individual, mas um sombrio momento da macabra história da escravidão nos Estados Unidos. Agora, a história de Northup ganha uma segunda vida. Até aqui não era conhecida do chamado grande público, da cultura pop de massa – exceção do mundo acadêmico americano, pesquisadores e historiadores das muitas narrativas sobre a experiência vivida pelos escravos, no fim do século dezenove, no país, e relatada por eles próprios em suas memórias.

Bem mais que um filme brilhante – em nossa opinião, é mais um trabalho superestimado de McQueen, cineasta que está na moda – como está sendo apresentada esta adaptação cinematográfica do diário de Solomon Northup, ele serve para que “nos próximos 150 anos um cineasta não precise fazer outro filme como este revelando a existência dos 21 milhões de indivíduos que trabalham como escravos, no mundo, exatamente agora, neste momento em que estou falando para vocês”, como disse o diretor, em Londres, ao ganhar o premio Bafta, semana passada.

O filme vale por isto.

Por que a história de Solomon Northup mobiliza de tal modo, mais ainda que outras produções realizadas sobre o tema da escravidão? Talvez não apenas pela violência radical contida no desfile de horrores, humilhação, crueldade doentia, ignomínia e submissão forçada apresentada no longo filme de McQueen.

Solomon Northup era um homem livre, negro, filho de escravo alforriado, bem educado e culto, talentoso violinista e exímio artesão. Casado com Anne, uma moça descendente de negros e indígenas, era pai de dois filhos pequenos e vivia confortavelmente com a família em Saratoga, estado de Nova Iorque.

Por meio de venenosa armadilha na qual lhe foi prometido trabalho rentável como violinista, foi sequestrado em Washington, drogado durante um jantar na notória Taverna de Robey (um antro onde ocorreram outros golpes semelhantes; e sabia-se disso, na época, na cidade) e vai parar, preso e acorrentado, em uma das duas senzalas que existiram, em 1841, vinte anos antes do começo da Guerra da Secessão, à sombra do Capitólio: a senzala Williams, localizada no mesmo lugar do atual National Air and Space Museum do Smithsonian Institute.

No diário de Northup, de 1853 –  isto não é mostrado no filme – ele escreve que ouvia “vozes patrióticas” gritando slogans sobre liberdade e igualdade, fora, nas ruas, se confundindo com o barulho das correntes arrastadas pelos escravos, na senzala em que se encontrava preso, numa esquina da Avenida da Independência, à beira do mall do Capitólio.

Levado, com centenas de outros negros, para o mercado de escravos de Nova Orleans, Salomon foi vendido e, depois, revendido para um segundo dono. Viveu e trabalhou então como escravo durante doze anos, nas plantações de algodão da Louisiana, até ser localizado e resgatado por amigos nortistas.

A narrativa do filme de McQueen se concentra nos episódios de ferocidade e loucura religiosa do segundo proprietário de Solomon, o fazendeiro Edwin Epps, e da sua mulher, no sul do país, durante o tempo em que sofreu toda sorte de atrocidades, tentando de algum modo sobreviver.

Pelo menos trezentos casos semelhantes ao de Salomon Northup encontram-se documentados neste período, atesta hoje a historiadora Carmel Wilson. Ela acredita que ocorreram milhares de outros sequestros nessa época, mas nunca classificados.

No filme, o ator inglês Chiwetel Ejijor faz Northup; a atriz mexicana filha de pais quenianos Lupita N’Yongo, a escrava Patsey – era a obsessão sexual de Epps e protegida, na medida do possível, por Salomon – e o ator fetiche de McQueen, Michael Fassbander, interpreta o fazendeiro. Os três são indicados para o Oscar. A atuação do último é excepcional.

A imagem simbólica de Doze anos de escravidão, que foi filmado nas imediações da fazenda que pertenceu a Epps, próxima de Nova Orleans, é o chiqueiro localizado no jardim da casa grande e mostrado em diversos momentos. Às vezes lembrando que o tratamento dos escravos era o mesmo – ou até pior – do que o dado aos bichos e em outras passagens sublinhando a condição do fazendeiro: um porco.

Há o que perturbar os espectadores de modo particular em Doze anos, de McQueen, um autor de dois filmes aclamados. Hunger, sobre a greve de fome de Bobby Sands, membro do IRA, na prisão de Maze, na Irlanda do norte, até a sua morte nos anos 80 e o outro, Shame, sobre a vida infeliz de um jovem executivo de Manhattan viciado em sexo e, ele também, um escravo. No caso, do próprio corpo.

Masculinidade, racismo e sexualidade são temas caros ao cineasta que vive na Holanda com a mulher e as filhas, vem das artes plásticas e sofreu com o racismo, particularmente na escola onde estudou, num bairro popular de Londres. Seus trabalhos, geralmente instalações, são reconhecidos como brilhantes pela crítica. McQueen já participou inclusive da mostra Documenta.

Perturba o espectador a violência nauseante pouco estetizada, quase realista. Mas também o racismo e a ferocidade do sentimento de propriedade privada dos donos. “Todos os negros são animais,” diz Epps com naturalidade; e quando lhe tiram Northup das suas garras: ”Não podem levá-lo. Ele é meu! O homem faz o que quer com o que é seu!

Um discurso a ser transposto por quem desejar: “Todos do povo são ignorantes. Não sabem votar. Mas o povo é nosso e fazemos com ele o que quisermos.”

Perturba o espectador o fato de Salomon ser um negro livre, um negro educado e próspero, um “negro excepcional”, como o apresentavam seus vendedores. Portando documentos em ordem, foi sequestrado em virtude de sua etnia, embora estivesse, não na sua terra, na África, mas teoricamente – teoricamente – no lugar certo (?) e seguro naquele instante: o norte do país. Não na Louisiana.

Salomon se encontrava, ao ser apanhado, na mesma cidade em que Abraham Lincoln escreveu para um jornalista do New York Tribune após o início da Guerra da Secessão, duas décadas depois do seu sequestro: “meu principal objetivo nesta luta é salvar a União e não salvar a escravidão nem destruí-la; se eu pudesse salvar a União ao preço de não libertar um só escravo, eu o faria; e se pudesse salvá-la libertando todos os escravos, eu faria; se pudesse salvá-la libertando uns e abandonando a outros, também o faria.”

Ao ver que os nortistas não conquistavam vitórias decisivas, Lincoln aderiu às reivindicações dos abolicionistas e transformou a guerra contra os Estados rebeldesnuma luta contra a escravidão.

Perturba, talvez, os espectadores da história de Northup a ideia de que a sobrevivência, às vezes, depende de estômago de ferro, esperteza e razão afiada.

Há diversos fatos perturbadores que, se por acaso tivessem sido discutidos, dariam outra dimensão ao filme de McQueen.

Mesmo assim Doze anos de escravidão merece ser visto. Com ou sem Oscar, que isto é secundário.



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1 comment

  1. Jurandir Pacheco Responder

    Lupita Nyong’o não é “mexicana filha de pais quenianos” é queniana, nascida no México.


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