Estupros de Carnaval

Por Jarid Arraes, (Foto: Divulgação) O Carnaval chegou ao fim, mas as cinzas que restam vão muito além do...

1918 0

Por Jarid Arraes,

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

O Carnaval chegou ao fim, mas as cinzas que restam vão muito além do título conferido à última quarta-feira. Nos próximos dias, milhares de brasileiras terão de lidar com as sequelas do feriado relacionadas aos casos de estupro e violência em meio as festas. No Brasil, o Carnaval funciona como uma espécie de período de indulgência, onde muitas pessoas se permitem fazer o que reprimem e escondem no restante do ano. Essa sensação de “libertinagem”, para além da hipocrisia, não seria um problema caso não distorcesse questões éticas de respeito ao ser humano: o negativo não é fazer do carnaval uma oportunidade para transar com várias pessoas, mas sim utilizar a liberdade sexual como uma máscara para abusar sexualmente.

São várias as histórias aterrorizantes que acontecem na época do Carnaval. Natália*, uma recifense de 25 anos, conta que em 2013 viveu momentos de desespero em um bloco de rua. Após passar mal por ter bebido demais, ela foi levada ao carro de um amigo próximo, que se disponibilizou a ficar ao seu lado até que ela melhorasse. Mas devido ao cansaço, a moça acabou caindo no sono; depois disso, tudo do que se recorda é ter acordado sozinha no carro, sentindo muitas dores vaginais. Como a dor perdurou alguns dias, Natalia procurou um médico e então surgiu a suspeita de estupro. A princípio, Natália não teve coragem de prestar queixa, até que viu na internet casos similares de outras mulheres, que também sofreram estupros durante o feriadão, e se motivou a fazer a denúncia.

Já para Letícia*, o desfecho não envolveu o registro formal do crime. A moça de 23 anos não sabe quem foram seus abusadores, pois estava em um churrasco entre colegas da faculdade. “Todo mundo estava bebendo, inclusive eu. Fiquei bastante mole e sentei num canto para descansar, por ali mesmo apaguei. Me lembro de pouca coisa, estava tudo escuro e só dava pra ouvir a música tocando, mas sei que mais de dois caras estavam me estuprando em um cômodo da casa. Quando acordei, tomei uma pílula do dia seguinte e rezei para que não engravidasse. Não contei pra ninguém, minha família jamais entenderia que eu estava em uma festa e isso me aconteceu. Com certeza me culpariam.”

Infelizmente, relatos como esses são muito comuns. Mesmo os casos onde o abuso não leva a penetração não deixam de ser violentos e traumáticos para as vítimas. No meio da multidão, muitas mulheres são alvos de passadas de mão, “dedadas”, puxões de cabelo, beliscões e beijos forçados. O que para algumas pessoas pode soar como bobagem, para várias mulheres é motivo de medo e resulta em consequências que podem durar por toda a vida, como síndrome do pânico, estresse pós-traumático e depressão. “A sensação de quem foi apalpada e invadida é de vulnerabilidade”, conta Mariana*, uma advogada de 34 anos: “Em plena Sapucaí, um rapaz levantou minha saia e enfiou a mão por dentro da minha calcinha. Gritei e minhas amigas me puxaram, mas ele ficou rindo. Ninguém tem direito de fazer isso, não é porque é carnaval que meu corpo é público”.

jarid 1
(Foto: Divulgação)

Pela Lei 213 do Código Penal, qualquer ato libidinoso feito sem consetimento é estupro, o que é considerado um crime hediondo. No entanto, a lei sozinha não basta para reduzir a incidência de estupros, sendo imprescedente conscientizar a população brasileira. O problema da sexualidade no Brasil não se limita aos ditos psicopatas de becos escuros, pois uma grande quantidade de estupros são cometidos por homens próximos, como amigos ou colegas, isso quando não são pais, tios primos ou outros membros da família. O fato é que muitos homens que cometem estupros trabalham, casam ou até têm filhos, como qualquer pessoa considerada normal, mas são capazes de praticar atos de extrema violência sem qualquer freio moral. Somente a partir do momento que se reconhece esse fato é possível se pensar na reeducação da sociedade para construir uma ética mais igualitária.

É evidente que o tema precisa ser debatido mais abertamente para que as pessoas aprendam a respeitar os limites sem relativizações. A lei contempla homens e mulheres, inclusive, o que significa que quando um homem sofre um estupro, também pode e deve fazer a denúncia. Apesar disso, as estatísticas não mentem: as mulheres são as maiores vítimas dos crimes sexuais. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, foram registrados 50.617 casos de estupro em 2012, um dado que preocupa órgãos como a SPM e diversos movimentos feministas. No carnaval de 2014, foram lançadas campanhas pelos governos estaduais, como na Bahia e Paraíba, embora essas mobilizações não recebam aceitação de todo o público. Ainda há muita gente que questiona a veracidade dos crimes.

No final das contas, não importa se “ela bebeu demais” ou se “estava com pouca roupa”: nenhuma mulher jamais pede ou se oferece para ser estuprada. Não há absolutamente nada que justifique o estupro, nem mesmo se a mulher estiver pelada sambando na rua. A sexualidade livre simplesmente não pode existir sem que haja consentimento. É lamentável que isso ainda precise ser lembrado e reforçado.

* Os verdadeiros nomes foram omitidos para preservar a privacidade das entrevistadas.



No artigo

x