Carnaval é palco para cenas de abuso sexual no Rio

Muitas mulheres foram vítimas de abordagens criminosas, sendo agarradas, apalpadas e beijadas à força. Essas situações são consideradas uma modalidade de estupro pela Lei 12.015/2009

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Muitas mulheres foram vítimas de abordagens criminosas, sendo agarradas, apalpadas e beijadas à força. Essas situações são consideradas uma modalidade de estupro pela Lei 12.015/2009

Por Isabela Vieira, na Agência Brasil

Muitos foliões resolvem ganhar um beijo na marra (Foto: Reprodução/Correio do Brasil)
Muitos foliões resolvem ganhar um beijo na marra (Foto: Reprodução/Correio do Brasil)

A coincidência entre o fim do carnaval e o Dia Internacional da Mulher, comemorado neste sábado (8), não significou dias de folia sem violência. No Rio de Janeiro, na festa popular, uma das maiores do mundo, muitas mulheres foram vítimas de abordagens criminosas, sendo agarradas, apalpadas e beijadas à força. Essas situações são consideradas uma modalidade de estupro pela Lei 12.015/2009, e são punidas com pena de seis a dez anos de prisão.

Entrevistadas pela Agência Brasil, foliãs foram unânimes ao afirmar que sofreram vários tipos de abusos. “O cara chegou e me deu uma chave de braço [técnica de imobilização no pescoço]. Não tive como sair e ele me beijou”, relatou a designer Paula*, que participou de um bloco no centro do Rio. “É carnaval e a galera acha que pode pegar, passar a mão, beijar à força. Se estiver de shortinho, então…”, reclamou a professora Marcela*.

Em um período de cinco horas, na tarde de domingo (2), a estudante Andrea* também viveu situações semelhantes. Ela contou que sozinha ou acompanhada de amigos se divertir sem ser abordada de forma violenta foi impossível. “São 17h10. Eu cheguei aqui ao meio-dia. Posso dizer que foi o suficiente”, revelou. “Se passar sozinha, os caras passam a mão, tentam enfiar o dedo (na vagina), beijar, isso é um fato”, declarou a auxiliar de administração, Fabrícia*.

As práticas descritas no carnaval carioca fazem com que se divertir durante o reinado de Momo sem sofrer alguma forma de estupro seja um desafio extra para as mulheres, avalia a secretária executiva de Políticas para as Mulheres, da Presidência da República, Lourdes Maria Bandeira. “Há avanços em uma série de dimensões da vida, somos maioria nas universidade, há expansão das áreas de atuação e de decisão, mas persiste um repertório de práticas violentas”, disse.

A secretária acredita que outra agravante no carnaval é a leitura do senso comum sobre a roupa da mulher. “Ao colocar uma saia curta ou uma roupa alegre, ela não é respeitada. Passa a ser vista em uma condição de vulgaridade, de mulher fácil, de objeto e a partir disso deriva a violência”, disse. A representação de mulheres em condições de objeto sexual na mídia, nesse período, também reforça a visão do senso comum, alerta Lourdes, que é socióloga da Universidade de Brasília (UnB).

Preocupada com aumento de casos de violência contra a mulher nesse período, que aumentam cerca de 30%, a Secretaria da Mulher e da Diversidade Humana da Paraíba lançou uma campanha para estimular as denúncias, com frases como “Beijar à força é crime”, “Agarrar à força é crime” e “No carnaval não pode tudo”. “Atitudes como essas não podem ser encaradas como brincadeira de carnaval. É crime ”, disse a secretária-executiva, Nézia Gomes, em nota.

No Rio, o prefeito Eduardo Paes, na abertura do carnaval, condenou os abusos, mas não se pronunciou sobre a ausência de uma campanha. “Se isso acontece, a gente espera que os casos sejam tratados pela polícia. Os agressores têm que ir para cadeia”, disse.

A secretária executiva de Políticas para as Mulheres, Lourdes Maria Bandeira, reconhece a necessidade de mais campanhas de esclarecimento sobre a Lei 12.015 e defende uma mudança de cultura no país.

“São vários dias ao longo do ano submetida a isso. Os caras não aceitam um não. Forçam a barra, usam a força, e aí não tem jeito para te deixarem em paz”, disse a estudante Ísis*, que também foi agredida com “mão na bunda e puxada de braço” no carnaval carioca.

* As identidades das entrevistadas foram alteradas para preservar as vítimas.



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3 comments

  1. Pat Responder

    Por estas e outras que carnaval para mim hoje é sinônimo de paz e tranquilidade, bem longe deste fusoê…Atualmente, o carnaval já não é mais uma festa onde se pode levar família para brincar, se divertir, pular…hoje é show de leviandade e libertinagem.

  2. Jiu-jitsu Responder

    Chave de braço não é imobilização no pescoço. É imobilização no BRAÇO. Por isso. Chave de BRAÇO. De resto, concordo com tudo o que foi dito. É necessário que esses agressores sejam punidos, para que posteriormente haja uma conscientização maior acerca desse assunto que é tão pouco debatido.

  3. Maurício Responder

    Essa é uma matéria típica das chamadas reportagens de gaveta. Primeiro, a foto não é de carnaval e sim de um filme americano, desses de escolas secundarias americanas, com garotos e garotas, festas e bebidas. Não tem nada a ver com carnaval, Rio ou brasileiros.
    Segundo: O Carnaval com o maior número de ataques desse tipo é em Salvador e não no Rio.
    No Rio acontece sim beijos roubados, mas em sua maioria são consentidos.
    Quanto a enfiar o dedo na vagina, chega a ser um absurdo achar que no meio de um bloco, a força, alguém consiga enfiar um dedo na vagina de uma mulher, que usa roupas justas, shorts coladinhos e etc. Vagina não é uma orelha.
    Sou carioca, frequento e gosto do carnaval do Rio e posso garantir que eu e outros cariocas sabem muito bem quais são e onde saem os blocos familiares, organizados e decentes onde até crianças brincam em paz, sem problemas e constrangimentos. E são muitos.
    Quem escreve essa matéria não conhece nada do carnaval do Rio, é paulista e fez a matéria de maneira tendenciosa e sentado em sua mesa.
    Uma coleção de bobagens voltadas para a defesa de um ponto de vista pessoal.


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