Philomena: Uma nova mulher forte de Stephen Frears

Philomena Lee é uma enfermeira aposentada, uma irlandesa de 80 anos. Existe em carne e osso. Nunca esqueceu o menino que as freiras venderam

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Philomena Lee é uma enfermeira aposentada, uma irlandesa de 80 anos. Existe em carne e osso. Nunca esqueceu o menino que as freiras venderam

Por Léa Maria Aarão Reis, em Carta Maior

O inglês Stephen Frears faz um cinema com mulheres fortes – dentro e fora da tela. “Em toda minha vida só conheci mulheres enérgicas. Dizem que há as fracas; eu não sei onde elas estão”, disse o cineasta quando lançou seu mais recente filme,Philomena, em Los Angeles, depois de ganhar com ele o prêmio europeu Bafta deste ano, de melhor roteiro adaptado do livro O filho perdido de Philomena Lee (Ed. Planeta), que narra uma história real, mas quase inverossímil.

Frears dirigiu a atriz Glenn Close fazendo a perversa e inesquecível marquesa de Merteuil, de Choderlos de Laclos, na excelente refilmagem de Ligações Perigosas. Filmou uma Angelica Huston platinum blonde interpretando a mãe vigarista parceira do filho também salafrário (o excepcional ator John Cusak) em uma história de incesto disfarçado no oscarizado Os imorais. Mostrou uma inacreditável Elisabeth II com a poderosa atriz Helen Mirren no filme A rainha, no qual ela deve ter deixado confusa a própria soberana dos ingleses. Mirren consegue ser mais Elisabeth que a própria rainha.

Para fechar este time de ouro e de força, Frears dirigiu Julia Roberts na ambivalente arrumadeira de O segredo de Mary Reilly, em que ela se apaixona pelo Dr. Jekyll.

Isto quer dizer alguma coisa? Indagou um repórter de Hollywood ao entrevistá-lo para o Los Angeles Times, em janeiro, no hotel Four Seasons de Beverly Hills. ”É melhor perguntar a um psicanalista”, ele respondeu, com fleuma britânica, com a paciência e a elegância que caracterizam os que respondem aos despreparados e aos destemperados até nas mais altas cortes de justiça, como se viu aqui há dias, em episódio lamentável, na nossa Corte suprema.

Pois agora, depois de uma temporada de trabalhos inexpressivos, o inglês volta com força à cena e com a costumeira elegância do seu cinema em Philomena – mais um personagem enérgica na sua filmografia. Desta vez, ele dirige outra atriz poderosa, ícone do teatro e do cinema. A britânica Judi Dench, de 79 anos, volta a hipnotizar o espectador. Não se consegue desviar os olhos da sua figura carismática, na tela, neste papel de um personagem real e impressionante.

Philomena Lee é uma enfermeira aposentada, uma irlandesa de 80 anos. Existe em carne e osso, é atuante e foi retratada no livro de um sofisticado jornalista político, cínico e ateu, Martin Sixsmith.

Depois de demitido da BBC, onde ocupava o cargo de correspondente em Moscou, e após vencer o preconceito pelas “histórias humanas, em geral sobre pessoas fracas” como seu personagem declara com arrogância, no início da trama, Sixsmith se interessou pelo incrível relato de Philomena, ajudou-a a localizar o filho Anthony nos Estados Unidos e relatou a história no livro. Escreveu esta grande história humana e depois dela publicou diversos livros sobre outra história imensa – a da Rússia.

Quando conheceu Sixsmith, Philomena Lee tinha passado meio século tentando encontrar o filho Anthony, vendido por mil libras pelas freiras do convento de Maria Madalena quando o menino tinha pouco mais de um ano e adotado por uma rica família americana de Detroit. Era um fato corriqueiro na época, nos conventos irlandeses para onde famílias católicas enviavam as jovens filhas que engravidavam fora do casamento para pagarem a “culpa”. E as abandonavam com as religiosas.

Lá nasciam os bebês e muitas garotas morriam durante o parto, algumas delas com 14 anos de idade. Como castigo, as freiras não prestavam assistência às suas dores de parto. Era penitência pela sua luxúria. Philomena sobreviveu e viu o seu garoto ser levado pela família compradora.

Depois, trabalhou durante anos na lavanderia do convento (a Magdalene Laundries), na companhia de dezenas de jovens na mesma situação. Adulta, deixou o lugar onde tanto sofreu, formou-se em enfermagem, casou e teve mais dois filhos. Uma mulher resistente.

Nunca esqueceu o menino que as freiras deixavam-na ver apenas durante uma hora diariamente. “Nestes 50 anos não houve um dia em que não se lembrasse dele. Onde estaria? Estaria bem? Lembrava-se de mim?” diz para Sixsmith.

O mais grave da história: em diversas ocasiões, Lee tentou localizar o filho. Durante 50 anos. Ia ao convento e lá as freiras mentiam e replicavam que, por causa de um incêndio, todos os registros das crianças adotadas (ou vendidas) teriam desaparecido.

A narrativa cinematográfica de Frears, um ateu declarado, é clássica – mas como de hábito, elegante. O filme é fortemente anticlerical. O melodrama é salpicado de toques de humor britânico e nunca cai na facilidade das lágrimas e do sentimental. Ritmo perfeito, enxuto.

Por 50 anos, Philomena Lee tentou encontrar seu filho Anthony (Foto: Divulgação)
Por 50 anos, Philomena Lee tentou encontrar seu filho Anthony (Foto: Divulgação)

Ao lado de ‘Philomena Dench’, Steve Coogan mais uma vez mostra o excelente ator que é, embora aqui seja degrau para a grande atriz. É uma estrela que faz um coadjuvante sem falsas pretensões. Já Frears diz: “Eu não posso ensinar à Helen, à Judi, ou a atores britânicos bons como atuar. Sabe-se como eles são. Chegam ao estúdio e apenas fazem; apenas trabalham.”

Hoje, os tempos são outros para a Igreja Católica, desgastada na Irlanda pelos casos de pedofilia e pelos crimes cometidos nesses casos de adoção à revelia.

Nos anos 50 ainda não havia Madonna, Angelina Jolie, nem países asiáticos ou latinoamericanos onde crianças de pais miseráveis eram vendidas a ricas famílias de países centrais para adoção. Uma das grandes estrelas americanas da época, Jane Russell, comprou um menino de 15 meses de idade das ‘madalenas’. O fato foi amplamente noticiado.

No Brasil, os controles tendem a ser cada vez mais rígidos, nesses casos, embora vez ou outra a polícia ainda resgate crianças em aeroportos levadas ilegalmente para ‘adoção’ lá fora.

O Papa Francisco, em fevereiro, recebeu em audiência Philomena Lee e  Steve Coogan, produtor do filme e um dos autores da adaptação do seu roteiro. Ela comanda o Projeto Philomena e luta para que outras mulheres, na Irlanda, tenham acesso aos registros de adoção de seus filhos e possam reencontrá-los.

Lee pediu ao governo do seu país que adote uma lei para divulgação de mais de 60 mil arquivos retidos pelo Estado, pelas agências privadas de adoção e pela Igreja Católica. Eles são a única fonte para muitas pessoas adotadas saberem sua origem.

O governo irlandês do primeiro ministro Enda Kenny descreveu a situação como “vergonha nacional”. Informa estar preparando lei que permita rastrear informações sobre adoção. Mas fala-se em demagogia política. Uma decisão da Suprema Corte da Irlanda – como será a de lá? -, de 1998, impede ainda hoje às pessoas adotadas o direito de saber sua origem.

O maior objetivo do Projeto Philomena é que as mudanças coloquem a Irlanda no mesmo patamar da província da Irlanda do Norte, onde, por estar sob a lei britânica, as pessoas adotadas têm acesso aos arquivos sobre sua história.

O livro – e o filme imperdível de Frears – ajuda igualmente a desfazer um mito. O de que, nesses casos, o silêncio seria a melhor política. As crianças devem ser protegidas, dizem alguns que não passaram pela trágica situação. O amor e, em especial o conforto material (leia-se: dinheiro) conquistam tudo.

Anthony, o menino de Philomena Lee, é a prova em contrário. Durante 50 anos ele também procurou localizar a mãe, nunca esquecida, embora tenha vivido confortavelmente num meio de muita riqueza material, nas altas esferas de Washington.

As ‘madalenas’ também a ele sempre disseram ser impossível encontrar Philomena.

 

*Foto de capa: Divugação



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