Histórias mal contadas

Cinquenta anos depois do golpe, a morte de Jango ainda representa um enigma político. Para João Vicente, seu filho, investigar é uma obrigação do país

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Cinquenta anos depois do golpe, João Goulart ainda representa um enigma político. E sua morte no exílio alimentou mistérios. Para João Vicente, filho de Jango, investigar é uma obrigação do país

Por Vitor Nuzzi, da Revista do Brasil

“Pode entrar que o João está te esperando”, diz Maria Thereza, que em seguida passa pelo portão e vai para a rua. O cenário é um apartamento num antigo edifício em Copacabana, no Rio de Janeiro, onde passeiam os gatos Elvis e Pato e as paredes contam histórias. Maria Thereza é a ex-primeira-dama, viúva do presidente João Goulart, deposto em 1964. E o João que aguardava a reportagem é João Vicente Fontella Goulart, 57 anos, filho mais velho de Jango, que tinha 7 quando o pai deixou a Presidência da República. O menino achou estranho e perguntou, segundo está na biografia escrita por Jorge Ferreira: “Pai, você foi expulso do Brasil? (…) Você me disse que só saía da Presidência quando eu tivesse 9 anos, e eu ainda não tenho nem 8”. E Jango: “Você se lembra daquela casa grande do Congresso, onde ficava o presidente Mazzilli? Pois foi feito lá um decreto novo, dizendo que eu podia sair do país antes”.

“Naquele momento, ele não teve como explicar toda a tragédia política no nosso país e optou por dizer isso. Eu também não iria entender o processo político, né?”, diz João Vicente, que ainda cobra investigações sobre uma possível operação, com presença de agentes norte-americanos, para ­assassinar Goulart. O ex-presidente morreu em 6 de dezembro de 1976, em Mercedes, Argentina. Teria morrido do coração. Mas há desconfiança de que uma pílula foi posta entre os remédios que usava, levando-o à morte. ­
É fato que Jango tinha problemas cardíacos. Mas não foi feita autópsia – o governo tentou até impedir o enterro em São Borja, terra de Jango e Getúlio Vargas. E a sucessão de mortes entre 1976 e 1977 de políticos que se reconciliavam e faziam oposição à ditadura – Juscelino Kubitschek, João Goulart e Carlos Lacerda – chama a atenção. Principalmente quando se lembra da Operação Condor, de auxílio entre regimes autoritários na América do Sul.

João Vicente sabe que a exumação feita no final de 2013 pode ser inconclusiva – os resultados podem demorar até um ano. Por isso, defende a abertura de uma ação que permita ouvir, especialmente, agentes norte-americanos que atuavam na região e teriam participado do plano contra o ex-presidente brasileiro, o único a morrer no exílio.

A base é um depoimento do ex-agente uruguaio Mario Neira Barreiro, além de documentos obtidos pela família. O pedido foi feito em 2007 ao Ministério Público e reforçado em 2013, em documento à Comissão Nacional da Verdade. Recentemente, João esteve com o novo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e alimenta a esperança de que a investigação possa realmente avançar.

O filho mais velho de Jango (Denize tem um ano a menos) defende a decisão do pai de não resistir ao golpe. Um movimento que ele, criança, teria ajudado a retardar, como Jango brincou certa vez no exílio. O historiador relata reunião de 1963, quando Jango tentava explicar aos militares o porquê da retirada do pedido de estado de sítio. O encontro tenso foi quebrado pela aparição do pequeno João Vicente: “Pai, o puto do cozinheiro não quer me dar pastel!” A indignação infantil fez todos rirem, e o clima se amainou.

Enquanto se completam os 50 anos do golpe, João Vicente escreve um livro sobre a experiência da família no exílio. Um livro de histórias, não de historiador, a ser lançado no segundo semestre. Deve mostrar que, mesmo deprimido por não poder retornar a seu país, Jango conseguia manter o humor. Como em um encontro com o ex-desafeto Carlos Lacerda: “Mandou trazer meus livros e disse: ‘Ele está estudando espanhol por sua causa, governador’”. Ou um jantar com Celso Furtado, seu ex-ministro do Planejamento, em Paris. “Celso, tu escolhe o vinho”, disse Jango. Na hora de pagar, espanto com o preço. “Celso, vê se essa conta tá certa.” E emendou: “Mas nós tínhamos de cair com um planejamento desses…”

Quando você foi ter a dimensão de que seu pai era o presidente da República?
Em 1961, com toda aquela dificuldade, ele nos deixou na Espanha, pela crise institucional instalada pelos três ministros militares do Jânio (eram contra a posse de Jango, então vice-presidente). Quando ele tomou posse, em 7 de setembro de 1961, eu ia fazer 5 anos. De 1961 a 1963, a gente se criou dentro do palácio, e muitas vezes ele, para estar mais presente, me levava a vários encontros e agendas presidenciais. E essa da crise de 1963, no exílio ele diz: acho que tu até, em certo momento, prorrogou a situação militar do desfecho do golpe. Ele estava numa situação tensa com os militares, foi na época do estado de sítio, ele queria ter um instrumento que inclusive setores do próprio PTB se posicionaram contra, já era uma situação de instabilidade. É como o Jorge Ferreira muito bem levanta: Jango se propõe a fazer uma reforma política em que a esquerda quer acelerar e a direita o tacha de comunista. Chegou em 1964 e não tinha apoio da direita nem da esquerda, que se dizia forte e se mostrou tão fraca quanto o sistema militar que Jango pensava ter. Ele até brincava no exílio… “O puto do cozinheiro…” (risos) Ele levantou, foi lá falar com o cozinheiro, e quando voltou já tinha havido uma distensão.

Você está escrevendo um livro…
Não um livro histórico como o do Jorge, que levanta todos os dados técnicos, de acervos, mas sobre o nosso dia a dia no exílio. É um relato. Quando chegamos no Uruguai, eu perguntei para minha mãe: de que cor é o Uruguai? Ela olhou o céu e disse que era azul. Então, um dos capítulos é isso aí. A gente crescia num primeiro momento num país democrático, e aí que eu conheci o problema de por que nós estávamos no Uruguai. Ele dizia que íamos ter mais tempo para pescar, a gente sempre pescava, ele gostava muito… Naquele momento, ele não teve como explicar toda a tragédia política no nosso país e optou por dizer isso. Eu também não iria entender o processo político, né? Fui entender à medida que eu cresci e no Uruguai fui encontrando as opções políticas, no grupo de estudantes. E fomos crescendo num país que no começo era livre, respeitava a democracia e depois foi vítima da própria ditadura brasileira. Aí fomos entendendo o processo da queda da democracia brasileira e como ela produz aquele efeito dominó em toda a América Latina.

A Operação Condor…
A Operação Condor foi uma segunda etapa, já em 1975, 1976. Não se conhecia ainda, mas a gente sentia, pelo tipo de perseguição aos exilados políticos, que havia uma operação em conjunto. Fomos morar na Argentina em 1973, na volta do Perón, e já se denotava lá essa inter-relação policial. Fomos morar primeiro no hotel Liberty, antes de alugar apartamento, tínhamos alguns amigos. O senador (Zelmar) Miquelini, o deputado (Héctor) Gutiérrez Ruiz, que foram sequestrados e mortos (em 1976, em Buenos Aires), se reuniam com o pai lá. A gente já sabia que havia agentes…

Você disse que ele tinha muito receio pela segurança pessoal.
Em Buenos Aires, depois da morte de Perón, em 1974… Lembro que ele retorna à Argentina cercado por um grupo que não eram os amigos autênticos dele. E a gente nota que o próprio (José) López Vega, que foi o grande artífice e o construtor da Triple A, a aliança contra os comunistas, que aquilo era um braço para atacar os opositores. Mataram o Padre Mugica (Carlos Mugica, morto em 1974), por exemplo, um peronista de muito tempo. Existia aquele terrorismo de Estado dentro da Argentina, já tinham matado o general Prats, em 1974 (o militar chileno Carlos Prats, do governo Allende, assassinado em Buenos Aires). Às vezes, ele (Jango) ia lá no Liberty tomar um uísque, e quando a gente estaciona o porteiro normalmente vai lá abrir a porta do carro. Quando nós chegávamos, o porteiro saía disparando, porque o carro podia explodir.

Era para o Liberty que iam os remédios para Jango?
Quando o pai foi para a Europa – ele se tratava na clínica de cardiologia de Lyon –, tinha lá em Paris os amigos que mandavam essas remessas de remédios, de nova geração. Mandavam por via área para o hotel Liberty. Ali que ele se reunia. Ele conhecia todo mundo. O endereço de contato era ali. As reuniões com exilados muitas vezes também eram realizadas no hall desse hotel. E foi aí que, segundo o Neira Barreiro, eles trocaram um comprimido.

É no depoimento do Neira que vocês se baseiam (para pedir a investigação)?
O depoimento do Neira foi a gota d´água. Já tínhamos vários indícios. Por exemplo, tinha as fotos que foram tiradas por um agente no aniversário de Jango, 1º de março de 1975, no Uruguai. Tínhamos o documento do SNI, em que o agente B de forma clandestina subtraiu as cartas (para Jango) do general Perón, do deputado Ulysses Guimarães… Um processo que eu tinha sido preso no Uruguai, alguns dados pessoais de negócios do pai, uma carta do general Serafim Vargas, que era um homem de contato entre os militares brasileiros e o meu pai, que também era de São Borja. Diz claramente: “Subtraímos de forma clandestina das gavetas do ex-presidente os seguintes documentos…” No momento em que nós temos esse depoimento, do agente Mário Neira Barreiro… Ele poderia ter lido, mas tem detalhes que não estão nos livros. Números de telefone, uma batida que eu dei num carro em Montevidéu, que não teve boletim de ocorrência. Só alguém que estivesse lá dentro, permanentemente, podia saber. Então, existem indícios. E entendemos que isso é um dever da história do nosso país. Afinal, a história de Jango é a história do Brasil, e o que aconteceu com ele tem de ser passado às novas gerações brasileiras de maneira clara e inequívoca. Elaboramos um pedido de ação civil pública em nome do Instituto Presidente João Goulart, até porque não queríamos fazer isso em nome da família, porque temos um Código Penal que não foi revisto, e aqui o crime de assassinato é prescrito em 20 anos.

Isso foi em 2007?
Em 2007, e a Comissão da Verdade veio a ser instalada bem depois, o que ajudou a acelerar um dos meios para chegar mais perto da verdade, que era a exumação. Eu sempre digo o seguinte: esse era um dos meios. Também pedimos as seguintes providências: ouçam-se os agentes americanos fulano, fulano e fulano, abra-se um pedido para as autoridades não só do Brasil, e até hoje isso ainda não foi feito.

E você acha que isso não acontece por quê?
Olha, é uma pergunta que deveria ser feita…. Levei essa preocupação, inclusive fui com dois senadores, Pedro Simon (PMDB-RS) e Randolfe Rodrigues (Psol-AP), ao atual procurador-geral, o doutor Rodrigo Janot, e ele nos prometeu que iria estudar toda a documentação. A família cumpriu com a parte que lhe cabia, mas sabemos e temos a convicção de que pode ser muito difícil, dependendo da substância que teria sido usada, 37 anos depois, termos algum resquício. Queremos que se cumpram os outros pedidos. Quais? A investigação, inquerir esses agentes que teriam participado. Eu mesmo denunciei um deles, o Frederick Latrash (chefe da CIA no Uruguai), que na época da primeira eleição do Obama era assessor do McCain (senador John McCain, candidato do Partido Republicano). Queremos que o Brasil cumpra o seu dever de soberania. Está ali um pedido da própria Procuradoria. Indicamos o nome dos agentes e a Procuradoria ratificou. O Ministério até hoje a única coisa que fez foi acompanhar a exumação feita pela Comissão Nacional da Verdade. A ponto de, até hoje, não ter aberto a ação cautelar para que um juiz possa pedir a oitiva desses agentes, que tem de ser feita oficialmente pelo Ministério de Relações Exteriores.

Seriam o Frederick e quem mais?
Michael Townley, que inclusive montou junto com Berríos (o químico Hermes Berríos) o laboratório de venenos no Chile onde se processou o Projeto Andrea, um projeto de dez venenos altamente tóxicos para eliminar, dependendo das circunstâncias, os inimigos da ditadura chilena e também daquelas que participavam da Operação Condor, que se unificam em 1975, quando o próprio Contreras (coronel Manuel Contreras, chefe da Dina, a polícia secreta chilena) manda correspondência ao Figueiredo (João Figueiredo, presidente brasileiro de 1979 a 1985), que na época era presidente do SNI, externando preocupação com a abertura nos Estados Unidos, se o (Jimmy) Carter fosse vitorioso na eleição norte-americana, dizendo que eles tinham de se autoproteger. Esse Michael Townley matou o Letelier (o diplomata chileno Orlando Letelier, morto em atentado em Washington, em 1976) depois, participou do assassinato do Prats em Buenos Aires, e se supõe que teria sido um dos agentes que trouxe esse composto e entregou à embaixada americana em Montevidéu, para que fosse transferido ao médico, que tinha o codinome “Capitán Adonis”, o Carlos Milles. Depois mataram ele também, diz que caiu da sacada da casa e quebrou a cabeça… São coisas que vão se interligando, e acho necessário a gente percorrer esses caminhos. Casualmente também o Hermes ­Berríos estava escondido e foi morto no Uruguai. Foi encontrado cinco anos depois (do desaparecimento), enterrado de bruços numa praia. Tudo isso está relatado no nosso pedido de inquérito, que não caminha. Acredito que o novo procurador tenha uma posição mais soberana, mais brasileira.

Quando o seu pai morreu, houve também aquele problema de fazer o enterro. Não queriam deixar vir para São Borja, depois queriam que fosse às pressas…
Eu estava em Londres… Fazia mais de um ano que morava lá, porque realmente, não existia mais espaço, segurança para nós. O pai dormia no máximo duas noites em cada lugar. Tanto é que a última viagem que ele fez – ele tinha um aviãozinho, um Cessna, monomotor –, ele poderia ter ido para a fazenda na Argentina. Ele sai de Montevidéu, vai para a fazenda dele no Uruguai (em Taquarembó), pega o avião, em vez de fazer alfândega, porque não queria dar pista, vai até Salto, no Uruguai, desce, passa de barco, manda um carro argentino esperá-lo no outro lado, dali ele troca de carro, vai até Passo de los Libres, almoça e vai para Mercedes. Veja a ginástica que ele fazia. Claro que é para despistar alguém. Na Argentina, ele tinha carteira de identidade, como residente legal, entrava e saía sem problema. Mas quando entrava e saía do Uruguai, tinha de pedir licença… Ele renuncia ao asilo político e solicita ao governo uruguaio a permanência legal no Uruguai, a residência, e lhe é negada. Não só é negada, como o Ministério do Interior, que é tudo milico, manda um ofício exigindo que ele fosse depor. Ele não deu bola.

Essa quase proibição de fazer um enterro, depois de 12 anos fora do país…
Veja só, até morto a ditadura tinha medo dele. Nós temos um depoimento do Sylvio Frota (general e ministro do Exército), de novembro de 1976, colocando as unidades militares de fronteira em alerta para que assim que o ex-presidente João Goulart pisasse em território brasileiro fosse preso e tornado incomunicável.

Ele pretendia, planejava voltar?
Ele foi para a Argentina para liquidar um gado que tinha lá… Pretendia voltar para a Europa, onde já tinha estado em outubro, no nascimento do meu filho (Christopher), teve um encontro grande com todos os exilados brasileiros em Paris, esteve com Arraes, que veio da Argélia, se encontraram em Genebra, com Celso Furtado… Ia passar o Natal e o ano novo ali… Ele só queria voltar com autorização de todos. E se isso fosse acelerar o processo de abertura. Ele iria a Roma, queria ter um encontro com o papa, viajaria aos Estados Unidos, para mostrar à ditadura que nem os Estados Unidos tinha mais nenhum receio de João Goulart, e desembarcaria no Brasil, no Galeão. Era mais ou menos essa a situação política da época. Lógico, num sistema militar nada é claro. Tinha aquela situação divergente do grupo do Geisel (o presidente Ernesto Geisel) e do grupo do Frota, que depois foi afastado da sucessão.

Na época do golpe, muito se falou que ele deveria ficar no Brasil e resistir, e foi criticado por isso. Outros acham que ele fez o certo, porque se ficasse haveria uma guerra civil. Como você vê isso hoje?
Isso é uma das coisas que ele mais tinha de responder no exílio. Mas ele tinha uma personalidade que já em 1961 tinha aceitado a imposição do Congresso (sobre o parlamentarismo), depois veio a lutar pelo plebiscito (que restabeleceu o presidencialismo). Ou se aceitava a emenda ou se marchava com o 3º Exército, como fez o Getúlio em 1930, para fechar o Congresso. Em 1964, a crise tinha se acelerado de tal forma que o próprio PSD, que num momento apoiava, estava fora já do jogo democrático. A UDN já sabíamos, o Lacerda batendo todos os dias… O próprio Juscelino disse que já não estava mais com o Jango. A ânsia do poder em 1965 (quando haveria eleições) conduziu o presidente Juscelino a cometer um erro político. Jango, antes de mais nada, era um democrata.

As forças de esquerda, algumas irresponsáveis, exigiam de tal forma a aceleração das reformas de base, que não poderiam ser feitas por decreto, e sim por modificações constitucionais, inclusive a reforma agrária. A esquerda exigia de Jango o que o Congresso não fazia. Reforma agrária na lei ou na marra, cunhado não é parente, Brizola presidente, o Partido Comunista já rompendo com Jango… Foi o último, aliás, porque uma das pessoas que mais esteve do lado de Jango foi o Prestes, inclusive foi visitar o pai lá no exílio. Ficou politicamente insustentável. A direita dizendo que ele era comunista e os comunistas dizendo que ele era um frouxo. No momento em que Santiago Dantas comunica que a 4ª Frota Americana está na costa brasileira para desembarcar em Vitória, ele sente que o problema é muito mais grave. E já tinha a “República de Minas”. Caso houvesse resistência, enquanto houvesse, Minas seria a nova república.

Os Estados Unidos desembarcariam a 4ª Frota, declarariam Minas como capital da República, enquanto o Rio Grande do Sul, Santa Catarina, estivessem tentando confrontar as forças golpistas. Esse que era o jogo. Não era pela manutenção do seu poder e de seu mandato que ele colocaria o Brasil nessa fogueira. E agora eu pergunto: foi só Jango que não quis resistir? Por que o Partido Comunista, os sindicatos, os outros partidos não resistiram, se estavam tão fortes? Não estavam. Era tudo um balaio de esperança que não tinha estrutura de resistência, e Jango sabia disso. Uma ordem de resistência seria uma ordem fratricida.

E a alegação de que se tratou de um golpe preventivo, porque havia uma “república sindicalista” em formação, Jango poderia dar um golpe?
Isso eles aprenderam com o Departamento de Estado americano. Era o pretexto para derrubar a democracia. Hoje já temos gravações liberadas da Casa Branca, do Kennedy, com o embaixador Lincoln Gordon, dizendo que o Jango estava dando muita força aos comunistas… Ou seja, isso é o reflexo da própria Casa Branca. Qual é a força que tinha o Partido Comunista no Brasil? Essa história de contragolpe é uma história que as elites brasileiras assumiram junto com o Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática). Por isso quando a gente diz hoje que tem de democratizar as empresas de comunicação, temos de pensar muito. A liberdade de imprensa é sagrada na democracia, mas você não pode botar isso na mão de um grupo só, ou de dois. Em nome da livre iniciativa, você leva a pecha de autoritário, quando foram eles que trabalharam pelo golpe. E o pior, descobrimos agora do Ibope (pesquisa feita em 1964 que demonstrava popularidade do presidente João Goulart).

Em 2013, o Congresso fez uma devolução simbólica do mandato do presidente João Goulart, houve a exumação. Para a família, isso traz algum tipo de alívio pelo reconhecimento do papel histórico de Jango?
Não só um reconhecimento. Era um compromisso do Congresso Nacional, que muitas vezes foi perseguido pela ditadura, mas em outras foi serviçal. Como no dia que aceita a vacância da Presidência da República, num ato extremamente ilegal. É uma coisa que mostra para as novas gerações que aquilo foi um golpe dado contra a Constituição. Não derrubaram Jango, rasgaram a Constituição brasileira. Até hoje, numa reforma educacional, temos de rever esse período. A democracia pode ter todas as suas falhas, mas ainda é o sistema que responde mais eficazmente pela vontade de maioria.

E sobre a Comissão Nacional da Verdade, que fará seu relatório no final do ano?
A nossa Comissão da Verdade foi instalada depois de muita negociação. Tivemos essa anistia autoproclamada pelos militares. Não existe a prescrição de crimes de lesa-humanidade… Uma coisa é ser preso pelo Estado, outra coisa é ser preso e, sob a tutela do Estado, desaparecer, ser torturado. A Argentina, o Uruguai, o Chile começaram também anistiando ambos os lados, e posteriormente, em novas alterações constitucionais, inclusive com consultas populares, entenderam que os crimes de lesa-humanidade não podem ser anistiados, não pode haver prescrição. O Uruguai prendeu dois ex-presidentes, a Argentina prendeu três, o Chile também evoluiu nisso. Para nós, a instalação da comissão foi um grande passo. Ela vai ser extinta, mas vai deixar outras comissões pelo Brasil afora. E esse debate vai continuar. Acredito piamente que o relatório final vai indicar à sociedade brasileira a necessidade da revisão da Lei da Anistia. O STF referendou a Lei da Anistia, mas o STF muda, a pressão da sociedade muda. Mesmo que os presidentes, os agentes já estejam mortos, isso tem de ser revisto. Até para que essas reminiscências de não punição não se transfiram para as polícias militares, para outros órgãos de segurança, que se sentem impunes no ato de prender uma pessoa, torturar. Estão aí os Amarildos da vida.

*Foto: Luciana Whitake/RBA 



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