“A minha luta me faz merecedora de ser morta em um assalto?”, questiona Manuela D’Ávila

Deputada foi à rede social criticar o vazamento dos Boletins de Ocorrência e as críticas dos internautas que escreveram que ela "mereceu o assalto" por ser comunista

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Deputada foi  à rede social criticar o vazamento de boletins de ocorrência e ataques de internautas que escreveram que ela “mereceu o assalto” por ser comunista

Por Redação

A deputada federal Manuela D’Ávila (PCdoB-RS) foi assaltada no domingo (9) quando chegava em sua casa acompanhada do músico Duca Leindecker, no bairro Mont’Serrat, em Porto Alegre. O casal foi rendido por dois homens armados que levaram o celular e o carro, um Peugeot 3008. O que a deputada não esperava era a reação de internautas frente ao assalto, que, entre outras coisas, disseram que por ela ser comunista “mereceu ser assaltada, pois era distribuição de renda”.

Indignada com os comentários na rede, Manuela D’Ávila escreveu um longo texto rechaçando as acusações e deboches com a cena que vivenciou. “Tive acesso a comentários inacreditavelmente maldosos relacionados ao que nos aconteceu. Motivados por dois ‘jornalistas’, diziam que, por ser comunista, merecia ser assaltada, pois estava distribuindo renda. Fazendo deboche com o assalto e com a minha ideologia, como se o fato de eu defender distribuição de renda mais justa justificasse a violência que sofri”, desabafou a parlamentar.

Em outro momento, a parlamentar responde a outro um comentário. “Li também que o que passamos havia sido pouco. Que deveria ter sido violentada por defender direitos humanos. Não imagino por que minha luta em defesa da livre orientação sexual, direitos das mulheres, condições carcerárias dignas, me faça merecedora de ser morta em um assalto à mão armada. Mais um gesto típico dos que não respeitam quem pensa diferente”, questionou D’Ávila.

A seguir, confira o texto da deputada Manuela D’Ávila na íntegra:

“Uma reflexão

Na madrugada de segunda, cheguei da delegacia de polícia em casa, como outros tantos brasileiros chegam, após serem vítimas da violência urbana – cansada, perplexa, triste e contraditoriamente feliz por estarmos ali, vivos. Repassava em minha cabeça detalhes do assalto – como a feliz coincidência de meu enteado não estar no automóvel – quando fui surpreendida por uma ligação de um jornalista. Nosso boletim de ocorrência com todos os seus detalhes – como o fato de reconhecermos ou não os ladrões – estava nas mãos da imprensa e eles, os jornalistas, telefonaram na madrugada. Foi pela imprensa que minha mãe ficou sabendo. Não tive nem sequer tempo de telefonar. Claro, entendo o trabalho dos jornalistas. Tenho dificuldade de entender o vazamento do boletim de ocorrência.

Um pouco depois, fui para a internet agradecer as pessoas que, carinhosamente, estavam preocupadas e nos escreviam.
Tive acesso a comentários inacreditavelmente maldosos relacionados ao que nos aconteceu. Motivados por dois “jornalistas”, diziam que, por ser comunista, merecia ser assaltada, pois estava distribuindo renda. Fazendo deboche com o assalto e com a minha ideologia, como se o fato de eu defender distribuição de renda mais justa justificasse a violência que sofri. Um dos jornalistas chegou a chamar de gesto de solidariedade o assalto. Algo tão maniqueísta como dizer que alguém que não é de esquerda defende a miséria ou como defender que alguém de direita seja torturado para ver como a ditadura militar doeu nos comunistas. Um desrespeito com a situação que vivi, típico de quem é totalitário, não me respeitando enquanto indivíduo porque penso diferente.

Li também que o que passamos havia sido pouco. Que deveria ter sido violentada por defender direitos humanos. Não imagino por que minha luta em defesa da livre orientação sexual, direitos das mulheres, condições carcerárias dignas, me faça merecedora de ser morta em um assalto à mão armada. Mais um gesto típico dos que não respeitam quem pensa diferente.

Mais ainda: outros tantos diziam que os ladrões estavam certos em roubar de mim por ser deputada, pois políticos são todos ladrões e apenas estavam pegando de volta o dinheiro roubado do povo. Como nunca roubei um centavo, não tenho centavo algum para devolver. O salário que recebo como parlamentar, há dez anos, devolvo com atuação séria e comprometida. Muitos podem não concordar com minhas ideias, mas ninguém pode questionar com solidez a minha seriedade e honestidade. E mais, os corruptos devem ser tirados da política de forma democrática com julgamento pelos espaços adequados e não sendo vítimas de violência ou bandidagem.

Claro que entendo a indignação da população com os políticos! É essa indignação que me motiva há 15 anos, e me faz lutar para mudar a política e, sobretudo, a forma como são financiadas as campanhas. Entendo as pessoas que pensam diferente de mim. E as respeito. Mas, para mim, o protesto contra a má política deve ser feito, em outubro, nas urnas. Contra as ideias que não concordamos também. Assim é a democracia. Que ela viva!

O que não entendo são as pessoas que reproduzem a violência e escrevem na internet como se isso não significasse nada. Como vamos enfrentar a violência no Brasil com essa postura? Como construir uma sociedade mais generosa, humana, respeitosa?
Alguns podem se perguntar: E sobre os ladrões, ela não vai falar? Sobre esses, falei com a polícia. Quero que todos paguem pelos erros que cometem, quem me assaltou inclusive. Contra a criminalidade, a violência, o tráfico de drogas, que transformam nossas cidades em palco de guerra, luto há quinze anos de minha vida. Há dez anos com mandatos. Apresentei leis, aprovei algumas. Disputei, por exemplo, duas vezes a prefeitura por entender que poderia mudar muitas questões na cidade. Perdi. Respeitei os vencedores.

Inspirada num pensamento de Nietzsche, “Quem combate monstruosidades deve cuidar para que não se torne um monstro. E se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você”, quando fui para Brasília transformei uma frase em mantra – “não vou me transformar naquilo que combato”.

Luto por uma cultura de paz, que respeite as diferenças e construa relações mais solidárias e generosas entre as pessoas. Que o abismo não olhe tanto para dentro de nós e que possam refletir sobre a violência que cometeram contra mim e minhas pessoas queridas em cada comentário desses. Lutar para mudar o Brasil, com amor no coração, vale mais a pena”.



No artigo

39 comments

  1. Claudio Responder

    Os criminosos que te assaltaram também pensam diferente.

    1. Ana Cristina Responder

      Meu amigo, tenha um pouco de discernimento e perceba a diferença no discurso entre ambos. Enquanto um prega a fraternidade o outro prega a violência. A violência e a agressividade é a expressão da fraqueza e da ausência de consciência crítica e de amor de quem as propagas.

  2. Du Dias Responder

    Jornalistas de diversos veículos entram em contato com as delegacias de polícia diariamente, muitas vezes chegam a fazer plantão em algumas unidades em busca de “notícias” policiais, tendo com isso estabelecido uma relação estreita com a corporação. Assim sendo, não é dificil de se imaginar que na cabeça de alguns policiais e de ouros tantos jornalistas, assim como para uma parcela da sociedade, uma deputada assaltada seja notícia e tão logo a informação caia na imprensa. Esse é o modus operandi, como o B.O vai parar na mão de um jornalista. Agora, como podem fazer apologia ao crime desta maneira, isso não tá fácil de explicar.

    1. nino Responder

      O expediente de satanizar o adversário revela indigência mental e despreparo para a convivência democrática. Não conseguem reconhecer o ambiente social em que vivem.
      É triste e lamentável!

  3. mcaraujo Responder

    Estou solidário a vc deputada.
    Fica na paz. São só covardes!

  4. Ricardo Esteves Responder

    Todo apoio à deputada, sou de Goiânia e aqui estamos entre as 20 cidades mais desiguais do mundo segundo a ONU, e ainda assim as pessoas acreditam que o problema é meramente da pasta da Segurança Pública e não da Educação, mas quando dizemos isso os reacionários ruralista de plantão se comportam como se comportaram quem comentou o assalto da deputada. São apenas argumentos de retórica reacionária.

    1. Leo Responder

      Essa de reacionaria…tsc tsc…o que o Marx o odioso e ideologista diria? Leia mais sobre esse verme da sociedade! Goiania está impossivel, e nao está baseado somente na educacao….assaltos todos os dias em onibus e nao sao por pessoas pobrezinhas nao…sao jovens que querendo celulares caros, pra ter grana facil! As palavras que usam na acao? Me da se nao morre desgraca, vai porra, se nao meto uma bala na sua testa, e ameaca e aponta a arma…acha q isso é social? Nao é puramente MALDADE está no ser humano, para isso nao existe direito humano!

  5. Ana Responder

    Manuela, minha solidariedade a você. Compartilho da sua luta.
    Abraços
    Ana

  6. Joaquim Responder

    Cada vez mais, a eficácia da polícia brasileira é surpreendente.

  7. paulo silva Responder

    realmente as pessoas perderam o senso de humanidade, o debate anda difícil, cruel .. mas tem gente que quer ditadura, pau de arara, porrada… lamentável, mas nossa humanidade é um caso perdido. Democracia é bom somente enquanto a elite consegue se manter no poder. Qdo não, fomentam a violência que vemos hoje no nosso dia-a-dia.

  8. Fred Responder

    Desculpe deputada, mas se sentiu-se ofendida pelo comentário que falava sobre “distribuição de renda”, devo informar que é pertinente. Num grupo com mais de 2000 membros ao qual pertenço, um ativista comunista diz que os assaltos na Zona Sul do Rio são “distribuição forçada de renda”. Se vale para um capitalista assaltado, também tem que valer para um comunista, afinal, assim é a democracia.

    1. Ceci Responder

      Pertinente? Não é como se a própria deputada tivesse dito isso, então por que a declaração de um “ativista comunista” se aplica? Você fala como se fosse um movimento único em que o que um diz compromete necessariamente o restante.

    2. Beto Responder

      Se for pra escrever besteira, nem toma seu tempo.

  9. marco Responder

    O que esperar de um pais com tantos analfabetos funcionais além do gigantesco número de ignorantes diplomados ? Apenas uma chuva de comentários sem racionalidade.

  10. Eliu Responder

    A violência está arraigada em todo o sistema capitalista,é por causa deste sistema falido que valoriza exclusivamente o lucro que estamos vivendo num país que vai de mal à pior no quesito segurança pública e essas pessoas que fizeram esses comentários idiotas não conhecem nem seu próprio sistema,imagina o comunismo que na sua essência dá direitos iguais à todos,portanto não teríamos tantos assaltos e mortes como neste falido sistema capitalista selvagem.

    1. rafaura Responder

      Eliu, o capitalismo é um sistema falido?

    2. André Responder

      “Sistema Falido”?!
      Apesar dos pesares, o sistema capitalista traz condições de melhoras em todo o mundo. A todo o momento ele pode ser aperfeiçoado. Já o comunismo não deu certo em lugar algum do mundo. Ele engessa a capacidade empreendedora individual de cada ser e o impossibilita crescer economicamente. Dando esse privilegio unicamente ao Estado. Isso é fato no Brasil: a 12 anos o PT está no poder e não fez nada para reduzir a carga tributária sobre as nossas costas.
      E não me polarizem. Se uma ideologia comunista se preocupa tanto com o bem estar dos menos afortunados por que não tornar esse fardo menos pesado?
      É fato; as pessoas preferem o capitalismo selvagem e opressor de países desenvolvidos como os EUA à nossa economia promissora ao comunismo onde se paga duas vezes por um produto mais um terço.
      Afinal de contas, quem regula os impostos não são os burgueses.
      Não se iludam com essa utopia socialista. Existe corruptos no capitalismo assim como o mensalão esta no PT.
      “O caminho do inferno está pavimentado de boas intenções”

      1. Luciana Responder

        André, se me permite, gostaria de corrigir algumas informações que você colocou. Não somos nem de longe um país comunista ou socialista. O PT pode ter surgido com ideais socialistas mas hoje não é e nem governa assim. É considerado de esquerda pois sua ideologia “prega” um governo em benefício do povo, beirando até ao populismo, mas estamos imersos em um mundo capitalista e é nessa premissa que se encontra nosso sistema econômico.

        Usar o Brasil como exemplo de um país Socialista não tem fundamento. Na verdade, não existe país Socialista. Apenas Comunistas. E aí sim, esses você é possível, corretamente, criticar.

      2. beto Responder

        Esse foi um dos comentários mais disconexos que li em toda esta lista. Cara, se preserva um pouco e não escreve tanta besteira em um espaço público.

  11. Gilberto Responder

    É bem fácil de entender a reação dos internautas, pois diariamente vemos membros da esquerda brasileira e do governo federal trabalhando para reduzir penas, defender bandidos dos mais diversos e por várias vezes as declarações da ministra Maria do Rosário dizendo que os bandidos não são maus, mas vitimas da sociedade capitalista e que esta sim é má.
    A reação de quem trabalha diariamente para conquistar seus sonhos de consumo, veem estas conquistas serem destruídas por marginais e depois ouvem os representantes de nossa esquerda política defenderem os bandidos, marginalizarem os policiais e ainda usurparem nossos impostos, traz revolta sim e o desejo que estes defensores da bandidagem se tornem vítimas dela.
    Eu particularmente gostaria de ver todos aqueles que defendem bandidos, terem suas casas invadidas por eles, para ver se acordam para o fato de que não é defendendo bandidos que se faz justiça social, mas defendendo melhor qualidade de educação, saúde, trabalho e renda vinda do trabalho, não das esmolas sociais que são distribuídas para garantir voto de cabresto.
    A deputada pergunta se ela merece ser vitima de marginais e eu respondo, merece sim.

    1. Bal Responder

      Você deve ser uma pessoa muito má. O que não desejamos para nós mesmos, não podemos desejar para o próximo.

    2. Comunismo fora! Responder

      Falou bonito! Parabéns! Nós trabalhadores estamos cansados!

  12. terepl Responder

    sou contra qualquer tipo de violência, não importa contra quem.

  13. Paulo Responder

    Voltamos para idade média!!!
    A pessoa deve ser punida pelo que pensa (lembra da inquisição?)
    Em breve FOGUEIRAS patrocinadas pela direita raivosa.

  14. rafaura Responder

    Não a conheço pessoalmente, mas acho que esse episódio mudou a visão dela, mesmo quie minimante. Óbvio, ela não vai reconhecer publicamente, mas qualquer um que passa por um choque desse perde um pouco da fé no ser humano.

    Eu já passei e digo: Infelizmente não acredito na recuperação de 90% marginais. Só acredita na recuperação quem nunca deu de frente com um.

    E isso não é culpa do sistema carcerário, das mazelas que os detentos passam quando da detenção. O processo de formação de um bandido começa do momento que ele nasce. Com 10 anos de idade as chances dele se recuperar e se tornar um homem de bem no ambiente em que ele é criado já é bem remota. Com 15 anos, ou menos, o bandido começa a colocar em prática tudo aquilo que ele absorveu no processo de “banditização”. Depois disso, meu caro, são raros os casos de recuperação.

    E a tendência é piorar. Antes tínhamos criminosos roubando para colocar comida dentro de casa. Eles roubavam para dar um teto para sua família. Hoje eles roubam para usar tênis de R$ 1.000,00. Roubam para noitadas de luxúria regadas a bedidas importadas.

    Resumindo, independente do por quê que tal fulano se tornou bandido, eu que não quero pagar a conta dele. Se alguém tem que pagar por isso que seja ele. Sou contra os defensores dos direitos humanos. E tenho certeza que a Deputada mudará sua opinião sobre bandido. Ela não vai dizer, mas ele mudará.

    1. Bal Responder

      Pessoas fortes não mudam de opinião tão fácil. Eu já passei por isso é não perdi a fé na humanidade. Mesmo lendo alguns comentários que não são nada dignos, penso que posso contribuir ajudando a alguns saírem do campo distorcido sobre a verdade e compreenderem a sua parcela de culpa e da sociedade sobre o que acontece.

  15. Roni Responder

    Em 15 comentários 1 totalmente descabido e reacionário desnecessariamente extenso pois só destila odio.Outro,alem de extenso, reacionáro,Mais procura se justificar imginando que a opiniao de Manuela,extremamente politizada e esclarecida,venha se desvirtuar.Particularmente entendo por experiencia de inumeros anos de militancia e trabalho,que a violencia se equiibra em tres pilares;VITIMA – OPORTUNIDADE – DELINQUENTE. Toda vez que se suprime um deles,deixa dee xistir a violencia. É bom refletir sobre isto e qual deles é melhor trabalhar para desequilibrar o tripé. Eliminar a vitima simplesmente,(execuçaõ sumaria)comprovou-se inepto inadequado e ineficiente,pois morre um e nasce 20.São necessárias politicas publicas que eliminem as possibilidades de principalmente o jovem entrar na delinquencia. E ai violencia sempre gera violencia….precisa dentre outras coisas eliminar toda forma de corrupção,que tambem é uma forma de violencia,…embutida na sonegação de impostos,malversação de recursos publicos e outras formas de desvios.

  16. Capitão América Responder

    Comunista andando de Peugeot 3008??? Aiaiaiai…
    Todo mundo é comunista até ter dinheiro!

    1. Rafael Responder

      Hahaha boa observação

  17. Mariane Responder

    Olá Manuela.
    Para início de conversa gostaria de esclarecer que acho um absurdo o que aconteceu com você, assim como acontece diariamente a dezenas – pra não dizer centenas – de brasileiros honestos e que trabalham arduamente para receber seu merecido – e muitas vezes injusto – salário de cada mês. Realmente você deve agradecer aos céus por suas perdas terem sido apenas materiais.
    Eu tampoco compactuo com a idéia de que “bandido bom é bandido morto”, nem sou a favor de que pessoas sejam julgadas no calor das emoções e estejam sujeitas a ações de “justiceiros” que resolvem fazer justiça com as próprias mãos. Mas tampoco posso dizer que não compreendo a reação das pessoas em relação ao seu caso. Não concordo, mas compreendo.
    Assim como você sou porto-alegresense também. Há quase 10 anos meu marido sofreu um sequestro relâmpago às 6 da tarde no bairro Rio Branco em Porto Alegre, enquanto me esperava sair do trabalho. Assim como você, que agradeceu não estar com seu enteado no carro, ele também deu graças à Deus por eu não estar ainda no carro com ele no momento em que 3 adolescentes (inclusive uma menina) entraram no carro e apontaram uma arma à cabeça dele. A nossa sorte foi que ele é a pessoa mais calma que já conheci e fez tudo “direito” e inclusive mostrou caminhos menos congestionados para aqueles infelizes (que certamente hoje devem estar soltos e com uma longa ficha de assaltos e mortes no CV deles) sairem da cidade e o levarem para uma vila de Porto Alegre onde o deixaram a pé e claro, sem um tostão. Mas vivo! E incrivelmente no Brasil, permanecer vivo já é uma grande bênção!
    Pouco tempo depois fui assaltada por outros dois adolescentes de bicicleta às 4 da tarde em frente ao shopping do bairro onde morava (Menino Deus). Na mesma época sofremos diversos outros problemas, sobretudo “ameaças” de assaltos de pessoas que costumam perambular pelo bairro, que nos pediam dinheiro diariamente saindo do super e muitas deixavam claro que eram “ex-detentos”, ameaças que quando morávamos na Vila Jardim não fazia tanto parte do nosso cotidiano, embora escutar tiros durante a noite, sim. Sendo de Porto Alegre você deve saber bem que o Menino Deus tem um “chamariz” para estas pessoas chamado de Sopa dos Pobres e que aliás me parece muito válido como proposta (inclusive muitas vezes ajudei), mas acho que o local é completamente inapropriado, uma vez que as pessoas que vão buscar suas refeições alí não tem moradia no bairro e nem obviamente condições de pagar transporte para ir até lá buscar a refeição e voltar para suas moradias. Conclusão: vivem perambulando pelas ruas do bairro para não perderem a refeição e tem bastante tempo livre para mendigar e complementar a renda roubando, se assim desejarem. Sei que não é a maioria que faz isso, mas são mais de mil refeições servidas todos os dias alí e também sei que nem todos desses mil são honestos e nem conseguiriam emprego nos comércios da área.
    Enfim depois de ver tantas coisas erradas e nos sentirmos mal por trabalhar (após termos arduamente completado nossa graduação e pós-graduação) e só nos ferrar, desistimos do Brasil. Não viamos nada melhorar, só piorar e não concordavamos com o que os que eram pagos para nos representar – os políticos – faziam, deixando a situação ainda pior. Cansamos de muita coisa errada, de ralar pra caramba e de ter que viver “as escondidas”.
    Há seis anos fomos embora. Conhecemos outro mundo, vivemos de maneira igualmente honesta, mas sentiamos o sabor de trabalhar e crescer, sem medos, sem “culpas” como muitos sentem até de comerem enquanto o vizinho não tem dinheiro para comer – muitas vezes porque assistia tv enquanto você trabalhava! Eu sei que nem todos tem a mesma chance na vida, mas uma grande parte não trabalha para ter a mesma chance na vida!
    Venho de uma família pobre, de imigrandes que entraram de carona no Brasil. Nada entrou de graça na nossa casa, mas tudo o que entrou foi honesto e com muito suor. Não houve ajuda, não houve pessoas defendendo direitos que pudessem beneficiar meus pais por serem imigrantes (meus pais entraram legalmente porque meu pai tinha documentos brasileiros). Hoje meus pais tem uma vida confortável, tem 1 imóvel para morar, tem uma carro dos anos 90 e recebem 1 (um) salário mínimo de aposentadoria cada um! Quando meu pai se aposentou tinha direito a quase 1 e 1/2, hoje os reajustes injustos já o fizeram chegar a praticamente 1. Se não fosse a economia que fizeram a vida inteira, não poderiam nem pagar os remédios que minha mãe toma com esse salário! E quando falo de economia que fizeram explico: meus pais nunca pisaram num restaurante simplesmente porque resolveram jantar fora. Só entraram para comemorar casamentos ou formaturas. E de pessoas bem chegadas. Nem 1 tostão foi disperdiçado. Todo o dinheiro foi investido e para eles é um orgulho dizer que puderam pagar faculdade para 3 filhos, hoje formados e com as vidas independentes. E sabe o que escutamos a vida inteira de meu pai? “Bandido tem que matar!”. E até muito pouco tempo atrás tinha brigas homéricas com ele por isso. Não sou a favor disso, mas preciso confessar que entendo a revolta dele. Ele também teve seus maus episódios e inclusive piores dos que você, meu marido ou eu tivemos.
    Talvez morar 6 anos fora do Brasil me fez enxergar o que aí dentro todos se acostumam: o quão cruel é viver nessa realidade de insegurança e o quanto isso tem piorado dia após dia. A ponto de que ano passado decidimos voltar para o Brasil para estar perto de minha mãe, agora doente, e de todas as belezas que o Brasil oferece e não conseguimos, nos mudamos para um país mais perto do Brasil – que tampouco é um paraíso, mas tampoco é o inferno brasileiro – porque todas as vezes que iamos ao Brasil a vida de lá já não nos cabia mais.
    Eu não conheço sua luta Manuela, e acredito no que diz que seja honesta e válida, embora não sejam meus ideais. Mas já tenho um pouco mais de mundo e sei que nem tudo o que parece maravilhoso na teoria funcione na prática. Conheci Cuba, embora tenha pago para ficar apenas num resort resolvi conhecer as cidades, conversar com as pessoas e “confirmar” absurdos que havia escutado de muitos refugiados que conheci no país onde morava e vi o quão cruel o bonito ideal de Che Guevara pode ser na prática. Pessoas trabalhadoras prisioneiras de um regime onde apenas quem está no poder ganha. Entrei com uma idéia em Cuba (longe de ser simpatizante do communismo) e saí de lá com outra, impressionantemente pior. E hoje entendo muito bem a expressão “esquerda caviar”. Gostaria de conhecer um comunista que realmente viveu a vida “do outro lado”, do lado do oprimido, do lado dos que trabalham mas só se ferram porque o governo que dizia lutar pelos seus direitos está ocupado demais em tirar seu dinheiro para comprar o caviar que comem enquanto você vive de “ração” como a comida é chamada por lá.
    O comunismo só é bom para o que não quer precisar fazer esforço: o que quer ganhar pão de graça e o que quer comandar sem sofrer as consequências do seu regime.
    Conforme já deves ter notado, Manuela, não compartilho da mesma ideologia que você. Mas isso está longe de dizer que gostaria que algo ruim acontecesse para você.
    E se hoje digo que não concordo como alguém pode assim desejar, é porque passei 6 anos olhando tudo de fora, fora do “calor das emoções” e RACIONALMENTE ver alguém desejando o mal de outro, honesto e correto como você se diz ser (digo isso porque novamente: não conheço seu trabalho, mas acredito sim que você pode ser tão ou mais merecedora que eu defendendo idéias diferentes), me parece um absurdo. Mas como ser apenas racional um cidadão que vive diariamente com os nervos à flor da pele, com medo, enjaulado em suas residências, em seu carro, em shoppings com segurança e ainda assim inseguro???
    O comunismo, bem como a esmagadora maioria dos partidos de esquerda, sempre defendeu a idéia de que todos tem que ter o mesmo. E no Brasil desde o início a idéia de colocar “pobre X rico” sempre foi muito bem aceita e utilizada pelos partidos. Então como um cidadão que trabalha e consegue adquirir algum bem com o próprio suor (o que já é difícil pela quantidade de impostos que se tem para pagar!) pode ver um caso desses e não pensar “sorte minha que não foi comigo e foi com ela”? E mais, como pode não desejar que ao invés de ser com um parente, que compartilha da mesma vida e idéia dele que acha que os marginais e ladrões (nisso inclui milhares de politicos brasileiros) devem ser punidos sim ou sim, não se sinta aliviado ao ver que o assaltado finalmente é alguém que defende um regime que incentiva isso??? Um regime que diz que todos tem que ter o mesmo, mas no entanto, dentro do próprio regime uns tem mais que os outros??? Não estou defendendo voto de pobreza para quem defende uma melhor distribuição de riquezas e recursos, estou apenas dizendo que a idéia “pobre X rico” foi implantada pelos próprios que defendem o regime comunista. A idéia de que o dinheiro é “coisa ruim” se tiver mais na mão de um que de outro é do próprio regime.
    Lutar para combater a pobreza, a miséria e os desfavorecidos não é luta exclusiva do comunismo. Aliás conheço pessoas mega capitalistas que fazem muito mais pelos pobres que os governos. Conheço pessoas que são assistentes sociais, advogados, médicos, que tem suas lutas direcionadas para pessoas carentes, inclusive em comunidades quilombolas e indígenas e nem por isso fizeram voto de pobreza ou são de partidos de esquerda. E pra mim não faz a mínima diferença, já que o importante é o que fazem e não o quanto ganham.
    Isso é uma realidade bastante real no Brasil. Os que estão no poder defendendo a distribuição de dinheiro (que não é de renda pois não é fruto do trabalho de cada um, é de dinheiro e de todos!) igual entre as pessoas que trabalham ou não, está indo governar de chinelos de dedo!
    Morei num país onde a distribuição de RENDA era bastante equilibrada, mas ninguém recebia dinheiro de graça pra ficar em casa vendo tv e fazendo filho, embora o país precisasse aumentar a população. Quem trabalhava sim tinha muitos direitos (inclusive 1 ano de licença maternidade paga pelo governo e não pelas empresas), mas “grátis” mesmo não era pra ninguém. Até porque lá se tem a noção de que o dinheiro “não se cria”, sabem que do bolso de alguém sempre sai e que o bolso do governo é de todos, porque o “governo” são todos. No Brasil a idéia é que o governo dá dinheiro. Mas tirando de quem? Do caviar de grande parte dos políticos é que não é!
    Então Manuela, não leve isso para o lado pessoal. As pessoas não querem o mal da Manuela D’Ávila, as pessoas que hoje te escrevem querem apenas que a justiça, a mesma que aqueles “justiceiros” estão equivocadamente promovendo numa crise de nervos querem: a justiça sim ou sim. A justiça que hoje a hipocrisia faz ficar injusta, que faz com que os policiais trabalhem para os governos e os governos para os políticos.
    Você pode ser uma excelente política com a maior das boas intenções, mas queira ou não está do “lado de cá”, defendendo os do “lado de lá”!
    Um abraço e te desejo melhor sorte no futuro. No Brasil ter sorte é bastante importante!

    1. Rômulo Responder

      Mariane, és um exemplo solitário do nível que devemos almejar para o debate público no país. Também discordo de muitas das posições políticas de Manuela, nem por isso deixo de reconhecer sua seriedade. Da mesma forma rejeito radicalmente a ideia de me alinhar a seus detratores. Destes, o discurso é um exemplo ao mesmo tempo patético e assustador do quão rasteiro tem se tornado o debate político brasileiro em certos espaços virtuais. São uma minoria, certamente, porém barulhenta e amplificada pelo alcance da tecnologia que, ao colocá-los em contraste com a imensa massa acrítica e tatibitate de adoloscentes que dia a dia ingressam na inclusão digital, dá um panorama desolador do futuro da cidadania no Brasil. O que podemos esperar ao ampliar os mecanismos de participação direta, se for para vê-los sequestrados por esta cutura que nos ensina a atacar covardemente quem discorda de nós, negando seu direito à dignidade? Como falar em democracia para mentes tão indigentes de cidadania, civilidade e até de humanidade?

  18. jose ivanaldo jeronimo Responder

    A deputada merece sim ser assaltada e só assim Verá o quanto é humilante ser despojada dos seus bens e quem a defende ela nunca foi vítima de assalto

  19. Thais Responder

    Parabéns, pela sua coragem, luta e palavras! Que haja mais amor e solidariedade! Que haja mais respeito e educação entre todos os cidadãos.

  20. ANTONIO Responder

    Se o Brasil está nesta situação graça a vcs políticos que não legislam e fiscaliza , pois isso é o reflexo de politicas omissas , agora tomem cuidado , pois a violencia está batendo na porta de vcs autoridades, o povo já está cansado de tanto desprezo por parte de vcs.

  21. Débora Maria Responder

    São dois os lados da mesma moeda. De um lado, fico muito feliz por conhecer a deputada, já que sou de SP. Conforta-me, saber que, temos sim políticos conscientes e éticos.
    Do outro, sempre me assusta quando deparo com esse tipo de comentário nas redes. Nessa hora, entendendo que ainda estamos engatinhando.
    Minha solidariedade e apoio à deputada.

  22. Julio Responder

    Agora quando a destruição de propriedade privada não é a dela, o movimento é legal e justo, porque ela foi fazer um B.O. contra essa pobre vitima da sociedade ele não tem culpa :/

  23. Heloisa grammont Responder

    Estamos com vocês. Fiquem em paz e tentem esquecer.

  24. Ricardo Responder

    Deputada…você apenas teve um momento de exposição, como um cidadão comum tem todos os dias, por falta de segurança pública. O que gera essa revolta nos comentários é uma deputada com seu perfil social, continuar apoiando as práticas corruptas dos seus aliados. Conivência com a corrupção da base governista, realmente não é roubar os cofres públicos, mas é um sinal de corporativismo político de quem apenas quer se manter no poder. Ninguém agüenta mais essa hipocrisia e textos floridos recheados de história. A senhora deveria estar questionando e o Secretário de Segurança Pública e não leitores civis que tem acesso a escrever qualquer besteira.

  25. Bela Responder

    Não entendi o cometário da Mariane, não mora no Brasil e nem conhece a Manuela, está dando palpite por que mesmo?


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