Tereza Campello: Estudos desmentem o mito do “Bolsa Preguiça”

A taxa de ocupação dos que recebem o Bolsa Família é praticamente idêntica à da população em geral: 75%. Ou seja, trabalham tanto quanto os demais brasileiros

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A taxa de ocupação dos que recebem o Bolsa Família é praticamente idêntica à da população em geral: 75%. Ou seja, trabalham tanto quanto os demais brasileiros

Por Luiz Carlos Azenha, no Viomundo

Três estudos incluídos num livro que faz o balanço dos dez anos do Bolsa Família desmentem o mito, espalhado por críticos do programa de transferência de renda, de que ele cria dependência e estimula a preguiça.

Programa Bolsa Família: uma década de inclusão e cidadania inclui 33 artigos de 66 técnicos. Segundo a ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, gente qualificada e independente do governo federal.

Os estudos mencionados por ela demonstram que a taxa de ocupação dos que recebem o Bolsa Família é praticamente idêntico ao da população em geral: 75%.

Ou seja, trabalham tanto quanto os demais brasileiros.

Recentemente, o Viomundo publicou duas entrevistas de críticos à esquerda do Bolsa Família.

A professora Lena Lavinas, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, analisou os programas de transferência de renda da América Latina.

Segundo ela, o Bolsa Família é mudança positiva, mas insuficiente.

Dentre outras coisas, Lavinas afirmou:

Aparentemente, há coisas muito estruturais faltando. A política fiscal, por exemplo, não tem nenhum impacto distributivo. O crescimento recente foi em grande parte lastreado em cima dos preços das commodities, o que facilitou muito certo tipo de gasto, que é a questão que eu coloco no artigo que você leu (da New Left Review). Outro fator de desenvolvimento da demanda interna foi a expansão do crédito. Acesso a crédito e tudo isso não é algo que no médio e longo prazo garanta uma sociedade mais igualitária. O dinheiro no Brasil continua muito caro. A taxa média de juros para as pessoas pobres, quando pegam crédito, é de 80% ao ano, um assalto! E ainda assim as pessoas pegam. Quando você vai comprar um carro à vista ou um carro a prazo, o preço é o mesmo. É uma vergonha.

Publicamos, também, uma entrevista com um dos mais importantes especialistas em trabalho no Brasil, o professor Ricardo Antunes, da Unicamp paulista.

Antunes disse que, ao contrário do que muitos dizem, ainda não acabou o gás do lulismo e que isso se deve ao Bolsa Família, que concorda ser “necessário”.

Mas Antunes cutucou:

O Bolsa Família pra mim é uma política assistencialista. Mais e pior do que assistencial. Não toca em nenhum elemento estrutural. Seria imprescindível fazer o Bolsa Família junto com questões estruturais da questão brasileira. Uma delas é vital, a questão da propriedade da terra. Reforma urbana! O Bolsa Família acabou se tornando um projeto assistencialista que minimiza uma tragédia, não enfrenta, tem consequências nefastas porque beneficia entre aspas quem não tem trabalho incentivando o não-trabalho e fazendo com que o que deveria ser um ponto de partida para enfrentar uma questão estrutural se tornasse o grande cabo eleitoral do PT. Ele não elimina a miséria! Não paga o custo dos cachorros das nossas classes médias, da classe dominante. Como ele é insuficiente e não resolve, o PT quer eternizá-lo. Tendo sempre o Bolsa Família a população olha o PT e diz “é ruim, mas nos dá o Bolsa Família”; olha o tucanato e diz “é insensível e vai acabar com o Bolsa Família”.

Por conta disso, abrimos espaço para que a ministra Tereza Campello polemizasse.

Segundo a titular do MDS, além de desmontar a tese do Bolsa Preguiça os estudos demonstraram também que não é verdade que quem recebe o Bolsa Família procura a informalidade. Na verdade, sustenta a ministra, as pessoas ficam na informalidade por causo do despreparo para ingressar no mercado de trabalho formal.

Campello disse que só há duas explicações para o fato de pessoas bem informadas repetirem as acusações desmontadas pelos estudos: motivos ideológicos dos que fazem oposição ao governo e “preconceito [contra os pobres], infelizmente”.

Na entrevista ao Viomundo [íntegra gravada, abaixo], Campello disse que nunca, nem no governo Lula, nem no governo Dilma, se afirmou que o Bolsa Família era a panaceia para todos os males do Brasil.

Porém, é o que tem impacto de forma mais rápida na qualidade de vida dos que recebem o benefício. A partir dele, criou-se um cadastro único que permite o desenvolvimento de outros programas. Tereza Campello diz que há “dezenas” de iniciativas acopladas ao Bolsa Família.

Por exemplo, há alguns dias o governo Dilma cumpriu a meta de matricular um milhão de pessoas no Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), que oferece cursos profissionalizantes de 400 horas que preparam de pedreiros a cuidadores de idosos. Ao todo, são ofertados 530 cursos.

Além disso, no atual governo foram construídas 500 mil cisternas, garantindo acesso à água de milhares de pessoas — dentre as quais há muitas cadastradas no Bolsa Família.

Segundo a ministra, o Brasil se tornou referência mundial.

Na semana passada, 40 técnicos de países africanos estavam no país para conhecer detalhes sobre o Bolsa Família. Nesta semana, o Banco Mundial promove no Brasil um seminário Sul-Sul sobre “seguridade social” com representantes de 50 países.

“Uma das coisas que eles falaram é isso, que o Brasil hoje não é mais um laboratório de políticas sociais, o Brasil é hoje uma universidade. Quem quiser aprender sobre políticas sociais tem que vir ao Brasil e aprender com a gente”, afirmou a ministra, que ouviu isso em Washington, quando esteve no Banco Mundial para comemorar os 10 anos do Bolsa Família.

Esta semana será inaugurada uma plataforma digital que tem o objetivo de ser espaço de troca de informações sobre programas de transferência de renda, World Without Poverty, parceria do MDS com Ipea, PNUD e Banco Mundial.

Aqui abro parênteses para dar testemunho pessoal sobre aspectos pouco considerados do Bolsa Família e de outras mudanças relativamente recentes no Brasil.

Em Cabrobó, Pernambuco, vi com meus próprios olhos a dinamização da economia local, que tem impacto especialmente no comércio. Por conta do Bolsa Família e de investimentos federais na região, dispararam as vendas de celulares e produtos de consumo da linha branca. Chegaram agências bancárias. A feira local se ampliou. Novos empregos foram criados.

O segundo aspecto, provavelmente relacionado ao aumento do poder de compra do salário mínimo, é mais difícil de mensurar. Nas minhas viagens pelo interior do Piauí e do Maranhão, vi muita gente que havia trocado a bicicleta e o jegue pela moto e se aventurava, tarde na vida, a conhecer a região. Uma guia que me atendeu em São Raimundo Nonato, no Piauí, tinha mais de 40 anos e pela primeira vez saia da cidade para viajar. Essa mobilidade geográfica simultânea de milhões de pessoas certamente tem impacto social e econômico ainda pouco avaliado.

Voltando à ministra, também perguntei a Tereza Campello sobre uma crítica consistente da direita, que fala sempre na necessidade de ampliar a “porta de saída” do Bolsa Família.

Clique abaixo para ouvir a resposta e toda a argumentação da ministra:



No artigo

28 comments

  1. Jean Responder

    AHAM! E somos um país evoluído na educação também! Bolsa EDUCAÇÃO não criam né? Assistencialismo = Propaganda.

    1. brasileiro Responder

      Lula em 2000 e 2009…

      http://youtu.be/83WUqpvddq8

    2. Ralf Rickli Responder

      Como ‘BOLSA EDUCAÇÃO NÃO CRIAM’ ???

      O Bolsa Familia JÁ É um “bolsa educação”: é condicionado à permanência das crianças na escola.

      Além disso, NUNCA no Brasil houve tanta bolsa para estudo superior, não só em faculdades privadas (PROUNI) como também nas públicas.

      Parecer que a vontade de criticar é maior do que a de conhecer o que de fato acontece ou de contribuir para ver a coisa certa acontecer…

    3. juliana Responder

      Procure saber mais sobre o Fies e o Prouni.

    4. Luísa Responder

      Uma das condições para a família receber o benefício é que todas as crianças e adolescentes da família estejam matriculadas e frequentes nas escolas, caso contrário, pode ser suspenso ou cancelado.
      Informe-se!!

    5. Daniel Responder

      Mas o Bolsa Família só é recebido se as pessoas com idade escolar da família em questão estiverem devidamente matriculadas e cursando. Muita coisa ainda deve melhorar, mas não se consertam 500 anos de atraso em 8.

  2. Aloísio Responder

    A respeito das 500.000 cisternas foi passado algum tempo atrás o abandono das ditas em pátios de prefeituras do norte. Como explicar tal situação se com o advento do Bolsa Preguiça os prefeitos não estão nem aí pro povo e continuam sonegando e roubando os cofres, visto que ao terminar seus mandatos vem o CGU, abre uma sindicância e fica tudo como “dantes no quartel de abrantes”. Resumo uma vergonha. Outra coisa “quem quiser aprender sobre políticas sociais tem que vir ao Brasil”, quem falou uma asneira dessa deve ser do PT infiltrado na plateia. Tem tanta merda que esse povo fez e está fazendo que ficaríamos um dia escrevendo e mesmo assim não daria.

    1. Mario Responder

      As cisternas são construídas em forma de mutirão sob orientação de algum morador que aprendeu a fazer a cisterna. Procure na internet sobre as cisternas do semi árido uma alternativa barata e que não depende dos prefeitos.

  3. Tamires Responder

    Realmente nesta questão do Programa Bolsa família, há tanto aspectos positivos como negativos. Entretanto, todos os apontamentos são superficiais, dada a população beneficiada. E por que não foram apresentadas pesquisas realizadas aqui no Nordeste? E mais uma coisa é irreal acreditar que dá para sobreviver com o benefício, meus pais recebem 75 reais, vivem no campo, enfrentam trabalhos informais esgotantes. A questão da renda no Brasil carece de mais avanços, os trabalhadores recebem um salário mínimo, muito mínimo mesmo, que não traz dignidade, o acesso a saúde é complicado, enfim vivemos um caos…

  4. milton martins dos santos Responder

    O que mais uma Ministra de Estado do próprio Governo deveria dizer? Está sendo paga prá quê? Atacar o Governo ou defendê-lo? Bela defesa! Carece de credibilidade, eis a questão!

  5. Patrícia Responder

    O bolsa família é um programa assistencialista e não vejo o Brasil como um Universidade de políticas públicas, pois uma política pública deve qualidade visa melhorias na estrutura familiar, na qualidade de vida da família e não no poder de compra… Ah! me esqueci! Estamos num país capitalista, no qual o importante é ter: televisão. Microondas, geladeira, carro, e ainda trocar a bicicleta por moto! O programa muda sim a realidade de muitas famílias, mas deveria ser algo com “porta se saída “. pois pra mim, ter metas de quantidade de beneficiários não me parece que o governo está preocupado com a qualidade de vida dos beneficiários e sim com a quantidade de votos! Além de ser um tapa buraco, por exemplo, repassar o dinheiro pra que a família mantenha suas crianças e adolescentes na escola, não garante qualidade das escolas, no ensino, pois a atual realidade de nossas escolas não me parece que estão sendo capazes de formar um cidadão crítico, político, que conhece de seus direitos e deveres, enfim, o discurso é bem animador, mas só quem vive a prática tem um breve conhecimento de como o programa é desenvolvido de fato, pode dizer que não é essa mil maravilhas que o governo insiste em fazer a população acreditar, ou melhor, a população fica bem satisfeita com 32 reais por filho!! Mas o que interessa mesmo é o crescimento econômico e o poder de compra, só lamento.

  6. Tania Responder

    O Bolsa Família pode ser para muitos um benefício politicamente, socialmente incorreto… quero ver ter fome, necessitar de um medicamento, ter que se locomover para levar um filho a um hospital e não contar com uma moeda…

    1. victor alberto danich Responder

      Com certeza Tania!! Os incluídos sociais nunca vão entender isso. Quem nada em água doce não sabe o que é ter sede.

      1. Ronaldo Martins Responder

        Correto Vitor, é fácil falar bobagens de barriguinha cheia, falar um monte de asneiras sem nunca ter se aproximado de um pobre coitado sem recurso nenhum.

  7. Neto Responder

    O Bolsa Família é um programa nacional, mas por seu desenho institucional, de gestão descentralizada, pode impactar de modo muito diferente na realidade de municípios diferentes.
    Há ainda que se avaliar essa dimensão municipalista do programa, de como as prefeituras realizam essa gestão municipal.
    Apesar da concessão do benefício ser ato exclusivo do poder federal, os municípios é que são os responsáveis pela operacionalização do Sistema de Cadastro Único, que é o sistema de onde o governo federal seleciona os beneficiários.
    O Cadastro Único é realmente um grande avanço em matéria de política social, é uma tecnologia social que, apesar de apresentar falhas operacionais, permite a cada município do país traçar mapas socio-economicos.
    Acredito que cada município pode potencializar as qualidades do programa, como também pode subverte-lo em mero esforço assistencial. É preciso saber qual a qualidade de cada gestão municipal, e que cores ela dá ao programa em cada cidade deste país.

  8. Fernanda RS Responder

    falam mal de uma ajuda aos milhões de pobres, cujos resultados tem comprovação em dados e estatistica e todo mundo com um mínimo de raciocínio pode imaginar que se agluns bilhões são distribuídos entre essas pessoas, este dinheiro volta para a sociedade porque é gasto , é usado, e principalmente nas comunidades onde a mãe vai comprar alimento, ou um esmalte de unha, ou algum bem que tem gente que acha que pobre não tem direito de comprar. Não é como o dinheiro de grandes empresas, bancos, que é acumulado em contas estrangeiras, ou empatado em terras e imóveis, o que não retorna para gerar riquezas para o país. Se quiserem falar mal do PT e do governo, não ataquem os desvalidos porque a concentração de renda é que gera este desequilíbrio há séculos e nada foi feito até pouco tempo.

    1. victor alberto danich Responder

      Com certeza Tania e Fernanda!!! A falta de generosidade de pessoas supostamente preparadas leva-nos a pensar se realmente tem conhecimento da realidade, ou apenas a observam a partir de uma abstração ideológica, própria dos incluídos sociais.

      1. Gabriela Responder

        É verdade Fernanda, eis ai o problema de concentração de renda, praticado desde quando o Brasil foi “descoberto” e inúmeros casos de exploração social, escravidão, etc. Para mim o Bolsa Família sempre será um programa social de referência. Minha família recebeu o benefício durante 6 anos, e graças a Deus estamos em uma situação muito melhor de vida, e repassamos o benefício para quem realmente precisa

    2. Otto Responder

      “gente qualificada e independente do governo federal” desde quando uma ministra petista é qualificada e independente? fala sério, só trouxa pra acreditar no “estudo” dela.

      1. Felipe Responder

        O LIVRO “‘Programa Bolsa Família: uma década de inclusão e cidadania’ inclui 33 artigos de 66 técnicos. Segundo a ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, gente qualificada e independente do governo federal.”
        Ela tava falando de quem escreveu o livro. O estudo não é da ministra petista.
        Usando teus termos “só trouxa” para querer comentar sem ser capaz nem de interpretar o que tá escrito.
        Parabéns, cara, tu acaba de provar que mal sabe ler.

    3. Tais Responder

      O problema não é o bolsa família para pessoas carentes e crianças sem recursos pra estudar, mas sim os oportunistas que se aproveitam disso pra ter mais filho, pra não trabalhar…e certamente do nosso governo que é incapaz de fiscalizar e punir as irregularidades.

  9. A. Carvalho Responder

    Quem nunca passou fome não sabe o que e fome agora a demagogia por não falam da sonegação dos grandes empresários e governo corrupto. que estão solto.

  10. Eti Responder

    Fala-se muito sem procurar estudar e conhecer o assunto.

  11. Eliane Responder

    Estímulo para manter os alunos nas escolas é necessário ? E o estímulo aos atuais e futuros professores a continuarem persistindo nessa área de trabalho? Já pararam para olhares os salários dos professores? Primário, fundamental… Só projetos ….

  12. Tauan Responder

    Vamos Interpretar o texto:
    O titulo indica que a Ministra possui estudos desmentem os mitos da do bolsa familia, cita como exemplo destes mitos a dependência e o estimulo a preguiça.
    Então cita dois estudiosos do assunto que na verdade criticam os problemas estruturais, fiscais, reformas entre outros que diminuem o impacto do programa e o fato deste ter se tornado eleitoreiro, nada sobre dependencia ou preguiça.
    Então ministra rebate criticas dizendo que “estudos” dizem, … ouviu em washington, …foram construidas cisternas….
    Coisas que não tem nada a ver com as criticas elencadas pelo autor do texto ou pelos estudiosos?!?

    Isso que mais me irrita nas nessas discussões ideologicas sobre politica: Textos esquizofrênicos, criticas vazias, elogios baratos e a mais profunda superficialidade.
    Definitivamente Brasileiro discute politica como quem discute futebol.

  13. Felipe Responder

    Lendo os comentários, eu acho engraçado que o pessoal abraça e aceita o discurso do Roger, do Ronaldo, do Ney Matogrosso e até de uma criança de dois anos – se for para ser contra -, mas critica ferozmente qualquer um que fale a favor. Claro que a ministra do Governo não ia falar contra o próprio trabalho, mas por que isso faz da fala dela uma mentira? Por que vocês acreditam e adotam o discurso da oposição, mas acham ruim quando alguém se posiciona a favor?
    Ser oposição é mania, né? Não dá para aceitar que algo que não TE beneficie diretamente pode ser bom. Duvido que esses que comentam indignados aqui já tenham precisado de um hospital, num caso de emergência, e tenha faltado.
    O cara posa de intelectual e aceita pagar de burro para defender a oposição, mas ataca com paus e pedras quem ousa dizer que talvez o trabalho do governo seja positivo.
    Os caras esquecem que, como já disse Isaac Asimov, em um texto chamado “A Relatividade do Errado”, achar que a Terra é redonda já se provou errado, mas com certeza é menos errado do que era achar que ela era achatada e acabava no horizonte.

  14. Victor Alberto Danich Responder

    Parabéns Felipe!!! Receba meu abraço fraterno.


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