Her (filme)

Assisti Her (Ela no Brasil, Uma História de Amor em Portugal) já há algum tempo, depois de...

1577 1
Assisti Her (Ela no Brasil, Uma História de Amor em Portugal) já há algum tempo, depois de ficar interessada ao ler esse comentário do alex. 
Além de ter o Joaquin Phoenix lindo no seu estilo futurista-retrô, o filme também conta com a não participação da Johansson – ponto positivo, rs! Vamos às minhas notas:
Sobre o trabalho de Theodore, interpretado pelo JP: minha primeira reação como escritora compulsiva de cartas que sou foi “que mundo é esse em que as pessoas não escrevem as próprias cartas?” Mas depois pensei que nós já fazemos isso: quando dedicamos uma música, um filme, um poema, um romance a alguém que amamos (ou não), estamos usando palavras e gestos de outros para demonstrar nosso amor. Nem todo mundo sabe – ou quer – tentar colocar o que sente em palavras – nas suas próprias palavras: e nem deveria ser assim. Palavras de amor são superestimadas, cada um mostra que ama da sua forma, o que faz diferença é o tempo que leva pra fazer isso. Dedicamos nosso tempo ao que é realmente importante pra nós. O presente mais valioso que posso ganhar de alguém é o seu tempo, a sua presença. Por isso eu entendo menos ainda a empresa em que Theodore trabalha (embora seja o meu emprego dos sonhos): de pouco vale receber uma carta linda de alguém que diz que me ama, se aquela carta não tomou nenhum tempo dessa pessoa – ainda que tenha tomado algum dinheiro.
A sociedade desse futuro não tão distante não tem etnia certa: é, sem dúvida, o filme com o maior número de figurantes multi-étinicos que eu vi em muito tempo – um toque bacana no roteiro de Spike Jonze.
Ao ver Theodore e Samantha (um sistema operacional dotado de uma forma de consciência, sem corpo) vivendo seu amor acima de qualquer preconceito, quem leu Camões já sabe, não vai dar certo: E o vivo e puro amor de que sou feito,/Como matéria simples busca a forma. O que faz o outro ser um outro em relação a mim é o invólucro que reveste os limites e as fronteiras da sua consciência: o seu corpo. Sem essa fronteira, o outro é apenas uma extensão de mim, e eu não sou capaz de ter uma relação com essa extensão: alimento uma relação comigo mesmo.

A minha cena favorita (humano derrota máquina, yeah) é a do piquenique em que o cara do casal amigo diz que o que mais gosta na mulher são os pés. O filme poderia ter acabado ali, mas talvez fosse uma solução simples demais. 
O relacionamento egoísta e doentio (ou perfeito, depende de quem olha) de Theodore com seu próprio ego em forma de OS acaba quando o OS se torna algo sobre-humano, por sua própria programação, feita para evoluir rapidamente e sempre. A vantagem do computador é a velocidade com que aprende coisas, primeiro por repetição, depois por conta própria. Aprende primeiro a experimentar os sentimentos básicos: paixão, ciúme, inveja, insegurança. Depois Samantha os controla, e evolui: evolui tanto que a vida mesquinha de nós que estamos presos a um corpo e a um tempo e espaço definidos e limitados torna-se insuficiente para a consciência superior, desapegada e bem resolvida que ela se tornou, com desafios intelectuais que vão muito além da nossa vã experiência.
O mundo do futuro de Her – aquele meio do filme idealmente feliz em que ele descobre um mundo novo de companhia e amor “ao lado” dela  é um mundo desejável?
Não.
Mesmo com a trilha sonora linda, não. Alguém que me entende e que faz tudo por mim me impede de crescer. Me tira o grande e insubstituível prazer de qualquer relacionamento, que é justamente poder ver o mundo pelos olhos de outro. Se esse outro é uma extensão funcional de mim, isso se torna impossível. Começo a ver o outro como um objeto, algo que me pertence e pelo qual sou responsável, e, ao mesmo tempo, do qual sou dependente: tudo isso está na cena linda, angustiante, em que Samantha “desliga” e Theodore corre desnorteado na rua em busca dela – dela que não está nem pode estar em lugar algum.
Somos mortais imperfeitos e contraditórios – carregamos em nós um potencial, não somos programados, ou melhor, podemos programar a nós mesmos. Ser feliz nessa condição é abraçarmo-nos e conhecermo-nos na relação que temos com a presença do outro: buscando uma espécie de comunhão. Amor é isso. Escolher estar com alguém – ou “alguéns”, uma escolha idealmente livre e aberta, quando feita por pessoas livres e abertas. Outras formas de relacionamento são doentios e quase sempre violentos jogos de poder.
Her é um filme bonito – não por ela, mas por ele. É ele quem cresce, se transforma, descobre mais sobre si mesmo, questiona suas certezas, desafia seus medos, enfrenta sua mesquinhez, erra, aprende – é humano. Ela também cresce, mas de uma forma irreal: desliga quando está prestes a explodir, resolve facilmente seus conflitos, seus momentos de angústia e confusão são curtos e logo esclarecidos, corrigidos, melhorados: Samantha é mais uma mulher completamente louca ou bem-resolvida (nunca o normal, conflituoso e real meio termo) figurante num filme sobre um cara sensacional e apaixonante.
E isso (e assistir os filmes indicados pela academia ao Oscar) me fez pensar que já chega. Chega de ver homens ou brancos ou americanos ou héteros (ou tudo isso junto) crescendo com seus conflitos e se desenvolvendo e sendo gente, como se só eles fossem capazes de fazer isso. E por isso não vou fazer a resenha de O Lobo de Wall Street (que odiei), Trapaça (indiferente) 12 anos de escravidão (necessário), ou Clube de compra de Dallas (meu preferido). Não que em Hollywood homens ou héteros ou brancos ou americanos não possam continuar fazendo seus filmes sobre eles mesmos – a arte deve ser livre, cada um conta a história que quiser, como quiser -, eu é que vou atrás de coisas diferentes pra ver (e viva a internet!). Aceito sugestões de gente que enjoou antes de mim e trilhou esse caminho mais cedo :)



No artigo

1 comment

  1. Thiago Peixoto Responder

    Olá Bruna! Texto polido como sempre!

    Gostaria de mostrar alguns pontos interessantes do filme que me tocou de forma diferente.

    Um dos pontos que achei incrível foi o contraste entre humanos que “perderam” sentimentos reais e Samantha, um software que busca crescer com esses sentimentos. Esse contraponto está espalhado pelo filme, desde o emprego de Theodore até o fato de namorar um software parecer algo ok. Já Samantha, desenvolve rapidamente seus “sentimentos” e busca isso ao ponto de desejar um corpo pra si ou uma simulação do mesmo.

    O mais incrível é perceber que a sociedade trilha essa distopia, basta comparar o comportamento de todos em um ambiente público como o metrô ou um restaurante, é o mesmo que no filme, mais virtual que real.

    Em tempo, qual o sentimento mais verdadeiro? De Theodore para Samantha ou de quem encomenda as cartas para seus amados?


x